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Em Comédia

Crítica: Eu Não Sou um Homem Fácil (Je Ne Suis Pas Un Homme Facile, França, 2018)

  • 26 de abril de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Eu Não Sou um Homem Fácil (Je Ne Suis Pas Un Homme Facile, França, 2018)
Rating: 3.0. From 1 vote.
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Dirigido por Eleonore Pourriat. Roteirizado por Eleonore Pourriat, Ariane Fert. Elenco: Vincent Elbaz, Marie-Sophie Ferdane, Pierre Benezit, Moon Dailly, Blanche Gardin, Camille Landru-Girardet, Céline Menville.

Em certo momento do filme O Sol é Para Todos (1962), uma das mais famosas e icônicas frases do cinema fora dita: “Você nunca entenderá uma pessoa até considerar as coisas de seu ponto de vista, até você entrar na pele dela e dar uma volta por aí”. Bom, essa psicologia de colocar si mesmo no lugar do outro é o que explora Eu Não Sou uma Homem Fácil, filme original da Netflix. Trata-se de uma divertida paródia sobre o clichê sexista das comédias românticas, na qual o protagonista Damien (Elbaz), o típico garanhão macho de repente acorda em um mundo dominado por mulheres onde os papéis dos gêneros são invertidos. Eventualmente, ele acaba se apaixonando por uma poderosa e famosa escritora chamada Alexandra (Ferdane).

Com uma temática muito original, o longa traz importantes e valiosos questionamentos acerca do tratamento que o universo patriarcal dá ao sexo feminino, desde as mais sérias como a questão do sexo consentido; os assédios nas ruas; a diferença das posições que homens e mulheres ocupam dentro do ambiente de trabalho; as pressões cotidianas; assim como as mais sutis como ganhar no poker com um par de damas quando sua colega mostra um par de reis, homens fazendo pole dance em boates ou propagandas de moda espalhadas pela cidade de Paris. Aliás, é interessante notar a troca de profissões que acontece, colocando a mulher como a provedora do sustento da família em trabalhos tipicamente masculinos como açougueira ou motorista de táxi, levando a momentos extremamente leves e divertidos como o asco provocado na mulher quando se depara com os pêlos naturais no peito do protagonista.

A diretora Pourriat, ao mesmo tempo em que faz tais assertivas, cria um ambiente leve pelos impasses, frustrações e confusões encaradas pelo próprio protagonista já que, assim como ele, o espectador é imerso em um universo totalmente paralelo e fantasioso, mas relacionável. Reparem como Damien inclusive se torna mais sentimental conforme a narrativa progride, e, ainda, a fotografia passa a utilizar muitos tons de rosa – uma cor que passa a dominar a decoração de seu quarto também. Por conseguinte, o caráter realista deste ambiente extraordinário move o humor da narrativa e muitas vezes se sai bem. Um dos momentos mais expressivos da trama é a discussão entre Alexandra e Damien quando este decide procurar um trabalho e ser independente mesmo contra a vontade de sua amada.

A fotografia cor de rosa subverte o universo feminino em Eu Não Sou um Homem Fácil (Créditos: IMDb)

Ainda que Eu Não Sou uma Homem Fácil inove na sua temática, o longa é extremamente convencional em suas posições, prejudicando deste modo seu próprio discurso ou até mesmo por vezes acentuando o preconceito de gênero. O exemplo maior disso é a própria caricatura de seus personagens, cujos clichês e estereótipos são levados a sério demais. Assim sendo, homens demonstram-se mais frágeis e sentimentais enquanto as mulheres são masculinizadas a ponto de urinarem em pé e sentarem de pernas abertas. Em outras palavras, não há nada de novo ou crítico a respeito disso já que não há mudança de perspectivas; na realidade inversa, homens se comportam de maneira afeminada e mulheres de forma masculina, o que no fundo acaba enaltecendo uma associação que se faz do gênero em relação à força e vulnerabilidade ao invés de subvertê-la. Damien e Alexandra apenas evoluem em razão do sentimento de um pelo outro, ou seja, motivados pelas circunstâncias. É a típica jornada do homem (ou, nesse caso mulher) durão que muda seu comportamento por encontrar uma pessoa, e cujo enredo acaba de forma abruta da mesma forma como começou, sem nuances – uma fórmula que há muito tempo já estamos cansados de ver em filmes.

O romance, por sinal, entre os dois personagens não agrega muito à narrativa e a atenção exagerada que é dada pelo roteiro ofusca todo o resto da trama inclusive a ponto de gerar incoerências. A exemplo disto, podemos mencionar a família de Alexandra que surge literalmente do nada apenas para criar convenientemente um conflito na relação; o livro que a personagem passa a escrever é completamente esquecido no meio do caminho e; uma traição é resolvida sem ser efetivamente resolvida.

O que incomoda mais, na realidade, é uma ideia um tanto quanto equivocada de feminismo que aqui não é nada esclarecedora, pois é estabelecida apenas do ponto de vista extremista dessa corrente. Isso porque feminismo não se restringe apenas em só fazer passeata como aqui é feito (não querendo desmerecer, pois os protestos são relevantíssimos), mas Pourriat falha em transmitir um lado muito mais profundo dessa luta que é o de educar e conscientizar o público masculino (e até mesmo o feminino) do que essa filosofia trata. Uma filosofia, vale salientar, cujo berço é a própria França, que é a de construir condições de igualdade, de sermos estimulados a ouvir diferentes vozes e não simplesmente colocar a mulher em posição de superioridade em relação ao homem ou vice-versa.

É visível, pois, que a cineasta deu mais importância em desenvolver o relacionamento do casal do que esclarecer esses tipos de conceitos e, por isso, conclui o filme sem uma resolução plenamente satisfatória para a problemática que ela mesma apresenta.

Ao final, Eu Não Sou uma Homem Fácil se torna um filme leve e divertido, mas esquecível como sátira.

Por Gabriella Tomasi, 26 de abril de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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