Voltar para Página principal
Em Documentário

Crítica: Estopô Balaio (Brasil, 2017)

  • 16 de março de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: Estopô Balaio (Brasil, 2017)
Rating: 4.0. From 1 vote.
Please wait...

Direção por Cristiano Burlan. Roteiro: Ana Carolina Marinho Cristiano Burlan Marcelo Paes Nunes. Coletivo Estopô Balaio: João Júnior, Adrielle Rezende, Ana Carolina Marinho, Ana Maria Marinho, Bruno Fuziwara, Clayton Lima, Edson Lima,
Keli Andrade, Juão Nin,
Lisa Ferreira, Paulo Oliveira, Ramilla Souza, Wemerson Nunes, Amanda Preisig e Jhonny Salaberg.

Jardim Romano. Leste do estado de São Paulo. É ali que os moradores que vivem às margens do rio Tietê – o rio mais poluído do Brasil – sofrem com as enchentes anuais advindas da água acumulada das chuvas, desastre este que podem perdurar até meses. Apenas pelo flashforward realizado nos primeiros planos demonstrando que o cenário de 2009 para o ano de 2015 não mudou literalmente nada, percebemos que todos cresceram acostumados com a batalha diária de protegerem seus lares e as crianças de serem contaminadas com o lixo como, por exemplo, construindo muros e escadas dentro de suas casas e juntando toda a mobília para também protegerem seus bens.

Habitantes provenientes em sua maioria do Nordeste que migraram para o estado paulistano em busca de melhores oportunidades, o descaso do poder público é tão latente que seus membros acabaram ficando isolados do resto da cidade, sem ter suas reivindicações atendidas, muito embora jornalistas denunciarem o problema constantemente em suas matérias. Unidos pela familiaridade de suas origens, o que fazer nestas situações? Estopô Balaio, de acordo com seu criador: uma expressão nordestina que significa algo que tem que ser exprimido, um desejo de gritar um sentimento entalado na garganta. É então por meio da arte em geral que seus membros contam suas histórias de vida, suas emoções, suas críticas sociais e filosóficas por meio da música, dança, teatro, poesia, etc, tudo feito dentro da estrutura precária de suas condições, mas que revelam verdadeiros talentos escondidos.

O coletivo Estopô Balaio (Créditos: Bela Filmes)

Utilizando o trabalho da montagem de maneira inteligente ao alternar imagens caseiras com as imagens filmadas no local, nas quais faz a entrevista das pessoas, Burlan ao mesmo tempo projeta suas performances revelando como cada uma utiliza uma determinada arte para expressar suas dores internas, o que contribuiu para a organicidade da narrativa. Crianças também conversam com o diretor e, mais conscientes do que toda a população paulistana – adulta ou infantil – junta, falam como seus pais se esforçam para que elas não sejam afetadas pela água; pedem para os espectadores ajudarem o mundo não jogando lixo na rua ou nos rios e; por fim, alertam para a grande importância da água. É por esse método, portanto, que o diretor não força uma narrativa ou uma conclusão a respeito do problema, mas, ao contrário, concede a oportunidade para que todos possam desabafar sobre sua visão, sobre seus problemas pessoais e questão sociais. Em um determinado momento, ainda permite à uma das entrevistadas filmar um dos depoimentos de tal maneira a salientar que aquele filme e o caminho da sua narrativa é trilhado pela comunidade e não exclusivamente pelo seu trabalho, reforçado também pela ausência da interferência do cineasta nas conversas e performances do coletivo. Portanto, é dar voz a eles, ao invés do distanciamento comum de repórteres e outros profissionais que ocasionalmente os visitam. É conhecer de perto a história de cada um; é individualizar milhões que sobrevivem de igual forma apesar de suas condições.

Estopô Balaio é um dos filmes mais sinceros e simples que atraí nossa atenção e nossa empatia ao nos transportar para um cotidiano que agrega diariamente uma cultura riquíssima a questões pessoais e sociais ignoradas e esquecidas até mesmo pelos mais próximos.

É cativante, é humano, é consciente, é uma obra maravilhosa que merece nossa atenção.

Por Gabriella Tomasi, 16 de março de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
  • 1

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Crítica: A Gente (Brasil, 2017)
Crítica: Laerte-se (Brasil, 2017)
Crítica: Martírio (Brasil, 2017)
1 Comment
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@iconedocinema