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Em Comédia

Crítica: Entre Facas e Segredos (Knives Out, EUA, 2019)

  • 5 de dezembro de 2019
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Entre Facas e Segredos (Knives Out, EUA, 2019)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Rian Johnson. Elenco: Ana de Armas, Daniel Craig, Chris Evans, Jamie Lee Curtis, Toni Collette, Michael Shannon, Christopher Plummer, Don Johnson. LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Noah Segan.

Rian Johnson é um roteirista em ascensão. Com apenas alguns trabalhos já vem conquistando seu espaço no ramo cinematográfico, tendo seu último e mais notório trabalho na direção do excelente Star Wars: Os Últimos Jedi (2017). Seu mais recente longa, Entre Facas e Segredos, é mais uma ótima obra de mistério e bom humor.

A narrativa, à primeira vista, é construída de maneira muito familiar ao espectador, principalmente aqueles que são bem íntimos das obras de Agatha Christie. Temos um grupo de pessoas confinadas em um espaço, onde se passa majoritariamente o enredo, no qual envolve um crime que a princípio era considerado como suicídio cometido por um renomado e milionário escritor chamado Harlan Thrombrey (Plummer) de livros de mistérios de crimes (oh! a ironia!) e um renomado investigador particular que não acredita no veredicto final dos policiais, uma vez que ele recebeu uma mensagem anônima dizendo que, na verdade, fora um homicídio.

Portanto, o espectador já entra na sala de cinema sabendo ao que vai assistir: um crime que em algum momento vai se resolver. Porém, o mais interessante e diferente dessa maneira de desvendar esse mistério, não somente sempre está em “como” isso vai se desenvolver, mas também como o roteiro consegue amarrar todas as pontas e pistas que vai deixando por todos os lados, até que tudo se encaixa perfeitamente.

Para tanto, Johnson em conjunto com a montagem cria três linhas narrativas diferentes sem deixar que os eventos se desenvolvam de maneira artificial e truncada. Na primeira, o roteiro responde a pergunta de “quem tinha motivo” e de “quem” realmente matou Harlan explorando muito a dinâmica da família, a qual se revela de extrema importância para o seu desfecho. Há um suspense que não se alonga tanto, mas que é utilizado também para apresentar os personagens e trabalhar esse lado caricato de cada um.

Entre Facas e Segredos (Créditos: IMDb)

No segundo, já sabemos a autoria do crime, portanto, aqui se trabalham as expectativas de “como” foi cometido e como autor tenta se esquivar da polícia.  O suspense é a partir daí criado pelo fato de que o autor pode ser capturado pelos investigadores a qualquer momento, a tensão aumenta e a narrativa se torna cada vez menos previsível e, nesse sentido, o diretor manipula os sentimentos do espectador de maneira impressionante, tal como Hitchcock fez em vários de seus filmes, para quebrar certas expectativas em relação ao que público faz de alguns personagens. No último, temos algumas reviravoltas finais que trazem de volta alguns elementos iniciais da trama para o desfecho.

Johnson cria tudo isso magistralmente, nunca deixando de ser um longa instigante e engraçado. Porém, o que se destaca mais é a onda de inclusão do cinema hollywoodiano que é de se louvar. Já podemos presenciar em alguns filmes anteriores, mais recentemente O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio (2019), no qual temos heróis e protagonistas imigrantes femininas, principalmente provenientes da América Latina.

É o que temos aqui com a atriz Ana de Armas, que interpreta Marta, uma imigrante enfermeira equatoriana que dá companhia à Harlan e, posteriormente, veremos que ela tem um papel muito mais importante na vida dele do que se esperado. Sua personagem não somente é o elemento principal para o desfecho da trama, mas também se presta para dar uma boa dose de “semancol” para todos os membros da família ao transpor a imagem da hipocrisia da elite norte-americana face aos desafios, lutas e preconceitos diários da comunidade latino-americana, atribuindo a esse longa um discurso poderoso. E podemos perceber pela simples mas significativa oposição entre a câmera em plongée na personagem de Marta e do contra-plongée do resto da família. Isso sem mencionar o “coração bom” de Marta e sua peculiar necessidade de vomitar toda a vez que fala uma mentira. É uma representação de honestidade que se opõe às mentiras e segredos e, até esse aspecto se tornou uma peça que Marta aprende a usar em seu favor.

Por outro lado, o filme tem a sua cota de elementos bastante clichês e comuns às tramas de mistério, contudo. É o que podemos notar em relação ao egocêntrico investigador Blanc (Craig), cujo nome parece ter vindo direto do jogo de tabuleiro, e também toda a decoração do design de produção de uma casa cheia de “brinquedos” e cheia de surpresas. Ao mesmo tempo, Johnson brinca com esses elementos entregando algo novo e divertido sem cansar o seu público.

Entre Facas e Segredos é, em suma, um escapismo divertido e vale cada centavo do seu ingresso. Imperdível!

Por Gabriella Tomasi, 5 de dezembro de 2019 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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