Voltar para Página principal
Em Ação

Crítica: Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, EUA/Reino Unido, 2017)

  • 24 de julho de 2017
  • Por admin
  • 0 Comentários
Crítica: Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, EUA/Reino Unido, 2017)
Rating: 5.0. From 1 vote.
Please wait...

Dirigido e roteirizado por Edgar Wright. Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx.

Para aqueles que adoram um filme de ação com intrigas, traições, romance, vários plot twists inteligentes e, ainda, é fã de Velozes e Furiosos, este sim é o filme a que você deve assistir (e esqueça da franquia do Vin Diesel), pois se tem uma qualidade que Em Ritmo de Fuga possui é ser um dos melhores filmes do gênero do ano.

Um rapaz chamado Baby (Elgort), sempre calado e introvertido, ouve o tempo todo música em seus fones de ouvido de seus vários ipods (um para cada humor), vive com seu padrasto e trabalha como o motorista de fuga dos crimes de assalto executados por seus parceiros sob o comando do poderoso Doc (Spacey), e seu trabalho apenas existe em função de pagar a dívida que possui com seu chefe por um carro roubado de sua titularidade. Prestes a quitar totalmente o débito, Baby conhece a jovem garçonete Debora (James) por quem se apaixona e com quem deseja fugir da cidade. Porém, nada sai como planejado, já que Doc pretende manter Baby trabalhando para ele um bom tempo.

A trama aqui é extremamente simples, como se pode perceber, mas conforme a narrativa progride e o espectador se envolve na história, ela fica cada vez mais complexa e complicada para o protagonista que tenta sair do mundo do crime. O diretor Wright faz um excelente e maravilhoso trabalho, neste aspecto, demonstrando que ele possui bastante consciência do que é necessário para nós simpatizarmos com o protagonista, transmitindo drama e comédia na medida certa para desenvolver seu arco dramático. Assim sendo, além de entreter com um thriller de tirar o fôlego nas sequencias de ação, é curioso analisar que da mesma forma como Hitchcock inúmeras vezes conquistou o público com seus vilões e fez até às vezes a audiência torcer por eles – mais do que os próprios mocinhos – Wright faz um exercício parecido sem nunca perder de vista as consequencias sérias que vêm a partir das atitudes de seus personagens.

Em Ritmo de Fuga (Créditos: IMDb)

É belíssimo, inclusive, perceber como este universo é situado. Sabemos que estamos inseridos no presente devido a ipods, iphones, e à outras tecnologias, mas ao mesmo tempo o longa bebe na fonte de outros clássicos que parecem nos transportar para diferentes épocas, como por exemplo, as fitas cassetes, e o próprio romance que surge entre Debora e Baby parece ter aquele glamour americano noir dos anos 40-50. Da mesma forma, é possível apreciar as outras referências como a violência de Pulp Fiction (1994), na qual podemos relacionar uma cena parecida na lanchonete no filme com outra cena da lanchonete “Bo’s” em Baby Driver (e não se enganem, pois este longa é tão visceral quanto Tarantino ou Scorsese são); as cores vermelhas de jogo de luzes e fumaça exaltando esse mundo criminoso tal como em Os Bons Companheiros de 1990 (incluindo o nome da pizzaria que Baby passa a trabalhar por um tempo); o final redentor de Fantasma de F. W. Murnau (1922) que lembra perfeitamente o terceiro ato deste longa; e as sequencias maravilhosas de perseguição, tanto de carro quanto à pé que foram inspirados em Operação França (1971) – e o melhor, sem nenhuma computadorização gráfica dos planos.

Aliás, a ação não é nem um pouco de se decepcionar aqui, já que ao referenciar o mencionado clássico dirigido por William Friedkin, utiliza-se câmera subjetiva dentro do carro ao fugir da polícia, as batidas e os derrapes, os obstáculos vencidos que se executam com o carro nos mantém tensos do começo ao fim. Dessa maneira, Wright ressalta cada detalhe: os planos detalhes dos movimentos no carro que trazem uma dinâmica eficiente de como a mente ágil de Baby funciona para dirigir e escapar da polícia, assim como os close-ups nos olhos do protagonista e também do antagonista criando uma rivalidade que advém dos westerns; os planos fixos permitem que o carro praticamente invada a tela ao se deslocar do fundo do plano até a quarta parede (causando o mesmo efeito do famoso filme A Chegada de Um Trem Na Estação pelos Irmãos Lumière de 1895); e os planos gerais permitem que nós possamos sentir a geografia dos ambientes e a lógica por trás de cada contorno feito por Baby; além de os planos-sequencia e planos longos feitos para que possamos experimentar o carisma do protagonista, quando passeia pela cidade em ritmo alegre.

Com uma montagem praticamente pautada em raccords, nos quais acompanham os movimentos dos personagens, o olhar, e objetos dos cenários, fazendo a transição entre um plano e outro. Desta forma, o ritmo de Baby Driver passa a ser bastante fluído e natural bem como é a sua trilha sonora – outro elemento tão importante para a narrativa quanto o musical La La Land (2016), influenciando igualmente na forma como a edição de som foi executada e o seu impacto no arco dos seus personagens. Interessante observar, assim, o preconceito que existe em algumas pessoas que associam escutar música em seu ipod o tempo todo como uma infantilidade ou fase da adolescência, sendo que posteriormente descobrirmos se tratar de uma condição da saúde do protagonista. Neste sentido, não é à toa que Baby precisa de música para movê-lo na vida, não somente para transmitir seu humor ou seu estado emocional, e sim porque é através dela que ele conhece Debora; que ele relembra de situações dolorosas (em flashbacks com uma fotografia linda em tom sépia) e; o fato de que uma música do Queen, em um momento, se presta para estabelecer a parceria entre Baby e Buddy (Hamm) e, em outro momento, para rivalizá-los. Por conseguinte, música e vídeo são elementos que se complementam e que não podem ser dissociadas da narrativa, pois funcionam como um só – um mérito que atualmente ainda poucos cineastas conseguem alcançar em seus filmes.

Portanto, Em Ritmo de Fuga é definitivamente um dos melhores filmes do ano, e é uma satisfação saber que há ainda realizadores tão comprometidos em enriquecer o vasto acervo da sétima arte.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural

Por admin, 24 de julho de 2017
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@iconedocinema