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Em Drama, Festivais

Crítica: Destemida (Peur de Rien, França, 2016) | My French Film Festival

  • 8 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Destemida (Peur de Rien, França, 2016) | My French Film Festival
Rating: 3.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Danielle Arbid. Elenco: Manal Issa, Vincent Lacoste, Paul Hamy, Dominique Blanc, Damien Chapelle.

Precisamos falar sobre imigração.

Em uma das cenas de Destemida, a protagonista Lina (Issa), uma libanesa que mora em Paris, em determinado momento consegue emprego em uma agência imobiliária, por intermédio da ajuda da irmã de sua amiga. Certo dia, ela é despedida e culpa Lina por isso. O filme nunca esclarece de fato, de quem realmente foi a culpa, embora a protagonista aparentasse ter uma parcela de envolvimento, mas a introdução é pertinente. A Europa, de um modo geral, nunca aceitou completamente a figura do estrangeiro que “rouba” as vagas de emprego dos nacionais. Registro este que ficou no filme alemão Ele Está de Volta, outro país que mais levantou essa bandeira foi a França. Inclusive, com a situação atual de guerra em alguns dos países próximos às suas fronteiras, ainda há muitos outros que repudiam o acolhimento dos refugiados.

Prestes a iniciar a faculdade, Lina saiu do Líbano em busca de uma vida melhor na França. Ela então se muda para Paris, para a casa dos tios. Contudo, certa vez, ela é quase estuprada pelo tio. Assustada, ela larga tudo e foge. Sem dinheiro, sem casa, a protagonista tenta se manter por conta própria, em busca de um lugar, de um emprego e também luta contra a burocracia da administração do país para obter um visto de residência.

O filme é completamente exitoso, portanto, em tornar essa burocracia palpável ao espectador, se tornando ainda mais angustiante quando testemunhamos os incríveis esforços de Lina para sobreviver em um país estrangeiro. Pulando de emprego em emprego, abrigo em abrigo, a protagonista ainda sente de vez em quando a liberdade que não possuí em seu país, o qual é sempre retratado como opressivo e machista. Essa liberdade, por óbvio, vem com gosto amargo, tendo em vista as dificuldades já mencionadas. Uma possível luz no fim do túnel aparece, posteriormente, quando Lina obtém auxílio de pessoas próximas, como o advogado e a professora de História de Arte Madame Gagnebin (Blanc). Uma forma de demonstrar ainda mais a carência que os estrangeiros possuem, de modo a desconstituir toda uma noção de que eles seriam supostamente amparados pelo Estado e, portanto, privilegiados de certa forma.

Vincent Lacoste e Manal Issa em Destemida

É uma crítica maravilhosa que seria muito mais interessante, se o longa se concentrasse nessa jornada. Ao invés disto, a trama principal é ofuscada constantemente pelos casos amorosos de Lina, atrapalhando também em outros pontos da narrativa e inclusive no próprio empoderamento da protagonista.

Não é de todo modo um equívoco em explorar seus amores e aventuras, até porque a personagem tem seus recém 18 anos.  Porém, o tempo de projeção despendido, no qual mostra Lina alternando de homem em homem, desde o mais agressivo, até o mais inofensivo, fato é que ela transparece uma pessoa vulnerável e dependente da figura masculina do que alguém independente. Lina permanece passiva durante toda a narrativa, aceitando a ajuda ou propositalmente buscando ajuda neles. Por conseguinte, o que inicialmente nos dava a impressão de uma pessoa forte e que vai atrás do que almeja para ser bem sucedida, fica a mercê de seus amantes.

Se afirmo que esta abordagem traz um empecilho em alguns aspectos, é porque o longa deixa muitos elementos soltos, sem conclusão ou sequer um começo. Lina tem diversos empregos, mas não se sabe como os conseguiu ou porque não deu certo. Da mesma forma, amigos vão e vêm, muitos deles sem muita explicação. Ainda, temos o personagem de Rafaël (Lacoste – Lolo: O Filho da Minha Namorada) , cuja introdução se prestou meramente de forma conveniente para dar sentido à sua presença mais tarde, e por fim, temos a inserção aleatória de outra personagem, a qual mantém uma conversa minutos antes de Lina entrar no tribunal que poderia ter sido melhor explorada. Assim sendo, a narrativa se torna quase episódica.

Destemida tinha um grande potencial para aprofundar de forma eficiente as questões maiores, pois ela tinha uma importante história para contar. Mas fato é que precisamos de heroínas mais ativas.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por admin, 8 de fevereiro de 2017
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