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Em Terror

Crítica: Corra! (Get Out, EUA, 2017)

  • 17 de maio de 2017
  • Por admin
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Crítica: Corra! (Get Out, EUA, 2017)
Rating: 5.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Jordan Peele. Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Lil Rel Howery, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Stephen Root, Catherine Keener.

Corra! que teve sua estréia em fevereiro nos Estados Unidos já se tornou um dos filmes mais  queridinhos do primeiro semestre de 2017 e que fez o mundo prestar atenção no diretor Jordan Peele, que até então somente contribuiu como ator para longas e séries de televisão voltados para o gênero da comédia.

Este longa que marca sua estréia em longa-metragens, possui uma premissa simples e, a princípio, uma temática bastante familiar que vimos tantas vezes como Entrando Numa Fria (2000), O Pai da Noiva (1991) e até mesmo o recente desastre Tinha Que Ser Ele? (2017). E claro não posso deixar de mencionar a incrível afinidade que existe com o drama Adivinha Quem Vem Para Jantar (1967) que, assim como o clássico estrelado por Sidney Poitier, Corra! trata-se de um jovem negro e fotógrafo chamado Chris que vai passar o final de semana na casa dos pais de sua namorada, Rose, a qual vem de uma família branca, rica e tradicional. Com receio pelo encontro que irá introduzi-lo pela primeira vez à família, Chris pergunta se Rose havia mencionado o fato de ele ser negro, mas acreditando ser uma atitude ultrapassada e sem sentido, a amada afirma que tudo ficará bem e que seus pais são tranqüilos. Por óbvio, nada ocorre como esperado, já que Chris cada vez mais nota um comportamento estranho por parte de toda a sua família.

Esclareço primeiramente que, não deixe as semelhanças com outras obras os enganarem, pois Corra! contraria todas as nossas expectativas em relação ao que já fora trabalhado com o tema no passado e traz um frescor para explorar o tema do racismo de forma diferente e instigante. Este longa vai te fazer refletir acerca do preconceito velado que é tão presente na sociedade e tão presente no cotidiano, como o fato de se aproximar de um negro afirmando que votaria novamente em Obama ou que gosta e conhece Tiger Woods por exemplo como uma forma de fazer amizade e se auto-afirmar como uma pessoa nada racista, quando de fato está sendo. Dessa forma, desconstituindo o ambiente e a imagem da “família harmoniosa e perfeita do subúrbio americano”, o filme para tanto lida com situações praticamente surreais, mas que se tratam de verdades escondidas acerca do racismo em forma de sátira. E quando rimos dos momentos cômicos que vemos em tela, também nos sentimos certo grau de incômodo em relação às atitudes que sabemos são costumeiras e desnecessárias. Peele, portanto, incorpora um tipo de racismo que reflete perfeitamente a atualidade, pois ao mesmo tempo em que vemos com maus olhos qualquer pessoa preconceituosa, podemos ter certas atitudes (mesmo inconsciente) que reafirmam o mesmo preconceito. É uma forma de denunciar o tradicionalismo e as convenções tão enraizados no mundo. E não digo somente em relação ao negro, mas esse sintoma pode ser igualmente aplicado à homoafetividade, religião, mulher, machismo entre outros.

 

Corra! (Créditos: IMDb)

Com alguns personagens um pouco caricatos como Jeremy, o irmão de Rose, que parece ter participado do filme Laranja Mecânica, pela semelhança de sua sociopatia com o personagem do clássico de Kubrick, temos também o melhor amigo de Chris, o carismático segurança de aeroporto no departamento de imigração Rod Williams, o maior responsável por trazer o alívio cômico da trama. Por certo aqui se transmite na tradicional comédia pastelão norte-americana, mas sem clichês ou piadas forçadas, o amigo incorpora mais ou menos a reação (do ponto de vista do humor, é claro) diante das coisas estranhas que o protagonista testemunha e relata, em um timing perfeito sem perder ou se distanciar nenhuma vez da tensão.

O trabalho do estreante diretor já se revela maravilhoso pela escolha de enquadramentos e ângulos, a fim de desenvolver o ambiente de suspense e terror. Alguns leves planos holandeses (ângulos tortos) e fechados concentrados nas reações dos personagens imprimem perfeitamente a sensação de claustrofobia e paranóia ao lugar onde Chris se encontra e das pessoas com quem ele interage. A existência de muitos quadros fixos se presta justamente para nos forçar a enfrentar e a refletir, assim como causar no espectador um imenso desconforto em relação às situações apresentadas. A narrativa, por sua vez, é conduzida em um ritmo incrível e bem pensado a cada movimento, com vários plot twists surpreendentes baseado em pistas que posteriormente são juntadas ou desmitificadas e ao final conferem mais sentido. Porque nada é acaso, mesmo quando aprendemos que alguns pontos da casa da família estão em “renovação”; quando os pais de Rose se apresentam como um neurocirurgião e uma psiquiatra; quando Rose afirma que é seu primeiro namorado negro; quando a família se demonstra demasiado amistosa e interessada no protagonista ou; até mesmo a profissão de Chris, anteriormente mencionada, que exige o exercício da visão como um complemento ao interesse de um cego dono de galeria que reconhece e admira seu trabalho.

Corra! é, em suma, uma das maiores surpresas do ano e confere um fôlego em meio a tantos filmes pretensiosos e medianos do mesmo gênero. É uma experiência obrigatória que nos faz repensar nas nossas próprias condutas.

Por admin, 17 de maio de 2017
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