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Em Romance

Crítica: Corpo e Alma (Teströl és lélekröl, Hungria, 2017)

  • 22 de dezembro de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Corpo e Alma (Teströl és lélekröl, Hungria, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Ildikó Enyedi. Elenco: Alexandra Borbély, Morcsányi Géza, Réka Tenki, Ervin Nagy, Zoltán Schneider, Tamás Jordán, Itala Békés, Éva Bata, Mácsai Pál, Zsuzsa Járó, Nóra Rainer-Micsinyei, Júlia Nyakó.

Todos procuram um amor na sua vida, mas nem sempre é fácil de achar. Corpo e Alma trabalha tal dificuldade ao desenvolver em sua trama duas pessoas que, ao mesmo tempo extremamente diferentes, possuem muito em comum. Endre (Géza), um homem mais velho, calejado pelo fracasso de suas experiências amorosas anteriores e, ainda, com um braço dormente. Maria (Borbély), por sua vez, é uma jovem superdotada meticulosa, e autista (possivelmente Síndrome de Asperger) agente de qualidade de produtos alimentícios que acaba de ser efetivada no matadouro onde Endre trabalha como diretor financeiro.

Este evidentemente não é um longa que atingirá muitas pessoas ou tem potencial grande para ser bem sucedido comercialmente pelo público, muito em razão de seu ritmo lento e cenas que exploram visceralmente a convivência contrastante entre o amor entre os protagonistas e a violência do ambiente em que trabalham, com vacas sendo mantidas em cativeiros para posteriormente terem suas partes corporais dilaceradas, cabeças decapitadas e serem mantidas penduradas por grandes ganchos para inspeção. Porém, é interessante observar que em meio a tudo isso dois indivíduos que permanecem presos em suas realidades solitárias, monótonas e reclusas se juntam e se conectam através de um mesmo sonho compartilhado: uma linda e vasta floresta coberto de neve onde vemos dois cervos interagindo, que eles somente acabam tendo conhecimento pela visita de uma psicóloga no matadouro.

Corpo e Alma (Créditos: IMDb)

Embora o que acontece fisicamente com os seus personagens jamais seja mencionado ou explicado ao seu público, nossa atenção se foca em um relacionamento entre um homem que sofreu demais por amor e uma mulher que nunca ousou a conhecê-lo. Dessa forma, é impactante ao presenciar Maria brincando com bonecos de legos simulando as conversas que quer ter e como na vida real elas saem completamente diferentes. A partir daí, movidos por um mesmo sentimento, ambos tentam se aproximar um do outro mesmo sem saber exatamente como.

Neste processo é que a direção de fotografia se mostra essencial para ressaltar o aspecto emocional de cada um, por exemplo, Endre e Maria trabalham em um local completamente iluminado, muitas vezes com luzes florescentes fortes a fim de representar a frieza e a distância que ambos permanecem em relação aos demais trabalhadores, ao passo que em suas casas a escuridão predomina a solidão. Gradualmente a luz e as cores dos cenários mudam de acordo com o rompimento destas barreiras estabelecidas para se tornarem mais quentes. Se Maria no início evita qualquer contato físico seja com pessoas seja por sua obsessão por limpeza, posteriormente vemos um esforço por parte da personagem em despertar suas sensibilidades por meio do tato e da música. Assim sendo, em uma fotografia mais natural e viva, Maria se abre para sentir o sol, a grama, os elementos naturais e até mesmo a própria comida. Não é à toa também que ela usa um casaco vermelho quando se dá conta de seus sentimentos por Endre. Aliás, este também passa por momentos de superação de seu próprio isolamento, ao tentar se abrir e se aproximar de Maria quando ele está acostumado a afastar pessoas de seu entorno, tornando essa jornada plenamente empática.

O cenário lúdico da floresta é igualmente importante nesta narrativa, já que os cervos representam não somente uma conexão espiritual mas também refletem nas atitudes e emoções que ambos personagem sentem, transferindo muitas de suas frustrações também para os sonhos. E se disse anteriormente que amor e violência são interligados neste filme é porque ambos elementos são desenvolvidos pela forma como se curam as dores e os males da vida (pessoal ou não); é por meio da metáfora do contato e do amor de uma ligação que impedem tantos e outros desastres.

Corpo e Alma é, em síntese, um filme pouco fácil de ser digerido, mas pode ser satisfatório pela sutileza de seus detalhes.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural

Por Gabriella Tomasi, 22 de dezembro de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS.
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