Voltar para Página principal
Em Romance

Crítica: Com Amor, Simon (Love, Simon, EUA, 2018)

  • 2 de abril de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
  • 0 Comentários
Crítica: Com Amor, Simon (Love, Simon, EUA, 2018)
Rating: 3.0. From 1 vote.
Please wait...

Dirigido por Greg Berlanti. Roteirizado por Isaac Aptaker, Elizabeth Berger. Baseado em Simon vs. the Homo Sapiens Agenda por Becky Albertalli. Elenco: Nick Robinson, Josh Duhamel, Jennifer Garner, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Jorge Lendeborg Jr., Keiynan Lonsdale, Miles Heizer, Logan Miller.

Em 2018 tivemos obras cinematográficas muito significativas que retratavam a luta pela igualdade e o reconhecimento da homoafetividade, como em 120 Batimentos por Minuto e o vencedor de melhor roteiro adaptado do Oscar Me Chame Pelo Seu Nome. Embora ambos tenham claras abordagens política e social, respectivamente, Com Amor, Simon, por sua vez, retrata um caminho mais íntimo, mas igualmente árduo, qual seja, o do “coming of age”, a sofrível fase adolescente em uma sociedade na qual a tolerância se revela uma virtude de poucos, especialmente pela faixa etária retratada. Uma jornada, portanto, de auto- aceitação e de busca por uma identidade.

A trama gira em torno da vida de Simon Spier (Robinson), um jovem com uma vida confortável, seus pais e irmã que lhe são muito próximos, assim com um círculo de amizade bem definido. Aparentemente não há nada de errado na sua vida, porém, segundo ele, o protagonista esconde um segredo de todos há muito tempo, o de ser gay, e ainda não teve coragem de falar para seus amigos e familiares. Tudo muda quando, anonimamente, outro colega de sua escola desabafa encontrar-se na mesma situação, por meio de um site de fofoca compartilhado com os estudantes. A partir daí, Simon entra em contato também mediante um pseudônimo por e-mail e ambos passam a se relacionar virtualmente e dividir seus medos e anseios.

A narrativa se desenvolve em torno do mistério de quem seria essa pessoa que Simon passa a ter contato, já que cada vez mais o protagonista se envolve emocionalmente. Em uma era digital, a tecnologia é um elemento chave em torno da vida de todos os adolescentes, e que o diretor da escola luta custosamente para que os alunos não se prendam à ela. Neste contexto, se Simon encontra certo alívio no anonimato para desabafar tudo o que sente com outra pessoa, contudo, ele estará ao mesmo tempo sujeito aos males que isso leva, ou seja, não poder ter contato imediato com seu correspondente ou ser alvo de repressão e ameaças que violam seu direito à privacidade. Não é à toa, pois, que quando vazam alguns dos e-mails trocados o protagonista defende: “sou eu quem deveria decidir quando e como eu revelo o meu segredo”.

Com Amor, Simon (Créditos: IMDb)

Da mesma forma, é de se louvar que todos os personagens próximos a Simon recebam essa informação com incrível naturalidade. Não por ser algo que esperavam dele, mas por ser uma revelação como qualquer outra, que muitas vezes pesa mais sobre o protagonista – antecipando à má recepção da notícia – do que para as pessoas em si. Não que o fato de ser “gay” não ocasione reações perturbadoras, mas aqui, de maneira respeitável, o preconceito é enfrentado e combatido de forma dura com consequencias diretas de modo que alguns personagens ainda avaliam suas próprias condutas discriminatórias que muitas vezes são inconscientes, mas que inevitavelmente cometem – desde as mais sérias, como as piadas que o pai de Simon faz, até as situações que nos fazem rir como presumir que dois colegas gays fossem namorados.

Berlanti traz uma narrativa leve que dialoga com o público-alvo mais jovem, sem nunca negligenciar seu tema, que é levado extremamente a sério, principalmente no que tange à inclusão, abrangendo não somente o protagonista, mas sutilmente também os demais personagens. Capta-se, por conseguinte, perfeitamente as frustrações tão comuns à idade e, ainda, habilmente desenvolve um desgaste emocional a ponto de enxergarmos olheiras no protagonista à medida que a história avança.

No entanto, Com Amor, Simon peca em um aspecto muito essencial da trama e que acaba por contradizer o seu próprio discurso envolvendo o blog da escola. Isso porque não há nenhuma responsabilidade em relação à mesma violação de privacidade que o longa deseja tanto combater, ou seja, nada acerca da nossa própria conduta em relação à tecnologia – que como mencionamos anteriormente é o pano de fundo de todo o enredo – é discutida. A super-exposição do privado aqui é privilegiada e o longa parece ignorar ou não querer adentrar nos efeitos e impactos que as fofocas do site, alimentados pelos próprios adolescentes, tiveram em todos.

Por um lado é interessante perceber como eles usam essa ferramenta e contornam os obstáculos que a tecnologia mesma impõe para utilizá-la de uma forma bastante positiva, já que vivemos em um universo em que a internet é uma realidade inevitável.  Por outro lado, tudo isso advém de uma perspectiva auto-indulgente que não quer entrar no assunto que ele mesmo constrói durante cento e nove minutos de projeção. É lamentável, pois, que ao invés disso, Belanti opte ao final por um desfecho clichê e ostentoso da comédia romântica que já vimos milhões de vezes, para uma saída mais fácil e ordinária que o cineasta podia pensar.

Com Amor, Simon é, portanto, uma obra respeitável que nos cativa e é perfeitamente agradável. Infelizmente, o longa optou por fazer as escolhas mais seguras e medianas possíveis, prejudicando o potencial grandioso que possuía.

Por Gabriella Tomasi, 2 de abril de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@iconedocinema