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Em Suspense

Crítica: Boneco de Neve (The Snowman, EUA, 2017)

  • 22 de novembro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Boneco de Neve (The Snowman, EUA, 2017)
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Dirigido por Tomas Alfredson. Roteirizado por Peter Straughan, Hossein Amini, Søren Sveistrup. Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Val Kilmer, Chloë Sevigny, J.K. Simmons, Charlotte Gainsbourg, James D’Arcy.

Mais um thriller chega às telas do cinema com um elenco de peso em sua produção: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Val Kimer, Chloë Sevigny e J. K Simmons – apenas para citar alguns – podem atrair um grande público simplesmente pela notoriedade de seus atores. Na realidade, se olharmos atentamente aos créditos iniciais podemos notar Martin Scorsese na produção, assim como a sua habitual editora Thelma Schoonmaker, além de Marco Beltrami na trilha sonora. A despeito de este filme ter tudo para ser uma obra respeitável, no mínimo, não se enganem ou se iludam com os nomes, pois essa bagunça é um desperdício de duas horas.

Na trama, o detetive “estrelinha” norueguês Harry Hole (Fassbender) se encarrega de investigar um serial killer que ataca nos primeiros dias de neve no país. O assassino deixa explícita sua autoria fazendo um boneco de neve perto de sua vitima, uma marca registrada que desperta a atenção de Katrine Bratt (Ferguson) por motivos pessoais, e se torna a parceira de Harry neste mistério.

Fica evidente, desde o início, que o longa almejou ser um instigante e inteligente suspense policial, que, todavia, demonstra ser uma entediante e enfadonha experiência. Isso porque com um roteiro muito mal elaborado, não há muito o que se fazer. A narrativa depende unicamente de conveniências para se desenvolver, o terceiro ato é absolutamente anticlimático e não faz sentido algum. Ao final, as peças do quebra-cabeça não se encaixam, apenas apresentam uma solução aleatória a um problema estabelecido nos primeiros segundos de projeção, mas sem que haja qualquer trabalho para parecer minimamente crível e, além disso, deixa questionamentos importantes sem resposta como, por exemplo, explicar por que de fato o autor dos crimes escolhe decapitar suas vítimas, ou então por que a pessoa se envolveu em um tipo relacionamento que repudia. E, convenhamos, não há motivo algum para postergar (e esconder) a revelação de uma informação crucial para a identificação do assassino de maneira demasiada tardia quando ela poderia ter sido feita desde o início do filme (algo que nos pouparia dos intermináveis cento e vinte minutos).

O roteiro de Boneco de Neve cria rivalidades entre os personagens de J.K Simmons e Rebecca Ferguson sem nenhum propósito. (Créditos: IMDb)

Ademais, os personagens, com exceção do criminoso e de Hole, não têm função narrativa. Todos ficam soltos no filme sem se fazerem indispensáveis nele: a ex-namorada e o filho de Hole servem apenas para reafirmarem o quanto o protagonista é negligente na vida privada; Katrine ainda não encontrei um motivo para sua existência e; J.K Simmons é o personagem mais inútil que eu já vi em toda a minha vida, passando seu tempo em eventos importantes e ressaltando seu caráter sexista e poder econômico sobre a população de Oslo. E nenhum deles parece ter o desenvolvimento aprofundado e adequado, nem mesmo o protagonista, o qual se mostra pouco gênio excêntrico – que era a intenção do roteiro – para um retrato mais preguiçoso e desleixado.

Aliás, essa misoginia fortemente presente na trama é tão superficialmente explorada que, ao invés de nos trazer um olhar crítico sobre o assunto, apenas reforça o preconceito contido nela. Se analisarmos a forma como toda a história fora construída e narrada, percebemos que essa aversão às mulheres que o assassino possui não é acompanhada de uma provocação ou reflexão. Inexiste qualquer ponderação acerca dos relacionamentos abusivos, de paternidade socioafetiva ou das crianças órfãs. A impressão é de que as mulheres neste filme todas são promíscuas e sempre traem a confiança de seus parceiros simplesmente por não saberem quem são os pais de seus filhos, sem que isso implique, contudo, em um diálogo entre os dois lados da história, ou seja, sobre o que isso significaria tanto para o pai quanto para mãe. Não, ao contrário, o sofrimento é unilateral, é masculino, é injusto.

A direção de Alfredson, o qual já possui experiência neste mesmo gênero assinando conhecidos projetos como Deixa Ela Entrar (2008) e O Espião Que Sabia Demais (2011) é, por sua vez, pavorosa. O diretor chama atenção do espectador para todos os lados possíveis, por meio de planos focando em diversos objetos e personagens que jamais realmente possuem uma função dentro da história, como, por exemplo, uma mulher que fica nua diante de Arve Støp  (Simmons) contra sua vontade. Da mesma maneira, elastecendo a solução o máximo possível com o claro intuito de fazer o seu público pensar, duvidar e adivinhar o que virá a acontecer, o cineasta opta também, para este mesmo efeito, direcionar o olhar do espectador para falsas pistas ou fatos que não influenciam na trama de forma enganosa, como a própria suspeita do personagem de J.K Simmons; o “terror” e o “medo” inócuos em torno dos planos fechados do boneco de neve (uma metáfora que não é realmente justificada, embora este dê nome ao filme); a motivação das cartas enviadas à polícia ou; a relação de Hole com o filho de Rakel que não é muito bem explicitada. Por conseguinte, transforma toda a sua narrativa em um amontoado de informações sem nenhuma ligação entre si, traindo e subestimando a inteligência de seu público. Impossível defender alguém que faz a sua audiência engolir tudo o que se pode em tela para ao final apenas coletar uma ou outra coisa e jogar o resto fora.

Boneco de Neve tinha uma premissa interessante e uma boa história para contar. Mas a obra resulta em um desserviço para o cinema.

Por admin, 22 de novembro de 2017
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