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Em Suspense

Crítica: Bom Comportamento (Good Time, EUA, 2017)

  • 19 de outubro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Bom Comportamento (Good Time, EUA, 2017)
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Dirigido por Ben e Joshua Safdie. Roteirizado por Ronald Bronstein e Joshua Safdie. Elenco: Robert Pattinson, Buddy Duress, Ben Safdie, Taliah Webster, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi.

Quando um filme aborda em sua premissa o estudo de um personagem específico, minha curiosidade em relação à obra imediatamente redobra. É um gosto particular, pois envolve desenvolver aspectos do íntimo do ser humano e por mais que sua história seja ficcional, extraordinária, ou até mesmo absurda do ponto de vista de nossa realidade, sempre é possível despertar alguma reflexão no espectador, algo que o faz engajar na narrativa e pensar posteriormente o mundo à sua volta. Bom Comportamento ou Good Time no original é um longa que, ao contrário do que se presume pela tradução literal de seu título, não se trata de “tempos bons”. Nada aqui é otimista. Não começa de forma otimista e, a depender da interpretação de cada um em relação ao desfecho, pode não terminar de forma otimista. Mas cinema também é sensação, é experiência, é provocação, e por executar isso tão bem é que esta é uma das obras mais fascinantes do ano de 2017. É um filme que merece ser visto e revisto.

O filme começa com a sensação de estarmos em uma corrida de fórmula 1, dentro de um carro esportivo que transita a 300 quilômetros por hora, ou seja, frenético desde o início e com pouquíssimos momentos de alívio. O espectador mergulha de cabeça no universo de Connie que abruptamente interrompe uma sessão psiquiátrica e “resgata” seu irmão Nick (Safdie), um rapaz que possui deficiência mental e anteriormente havia agredido sua vó com uma panela, por isso, estava em avaliação. Justamente quando o médico estava logrando algum progresso com o paciente, Connie o arrasta e cai de para quedas em um assalto a banco, levando posteriormente, a prisão de Nick.  Conseguindo escapar, Connie então recorre à ajuda de sua namorada para pagar a fiança, já que a maior parte da quantia roubada fora perdida, e quando não consegue, tenta o auxilio de um estranho. 

Neste contexto, a técnica da direção empregada pelos irmãos Safdie não se distancia muito daquela de mãe!, pois ambas se utilizam de shaky cams e planos tremidos para reforçar a instabilidade desse universo sem nunca, felizmente, nos confundir em relação ao que acontece em cena. Da mesma forma, close-ups são muito recorrentes demonstrando toda a claustrofobia, ansiedade e a pressão sentida pelos personagens acompanhadas de uma energética trilha sonora. Sendo assim, como já mencionado, há raros momentos de alívio que se prestaram habilidosamente para não somente trabalhar a mise-en-scène das fugas e perseguições, mas também isolar certas pessoas com o intuito de enaltecer a sensação de solidão e ausência de amparo no mundo.

O retrato do caos e violência urbana pela fotografia: os únicos feixos de luz em vermelho, branco e azul demonstram um mundo oprimido (Créditos: IMDb)

Mas todo o cuidado não seria minimamente possível senão pela brilhante atuação de Robert Pattinson vivendo o protagonista, o qual entrega um dos melhores trabalhos de sua carreira (ou a melhor!) o consolidando como um talentoso ator ao conseguir desenvolver alguém completamente empático, mas ao mesmo tempo repulsivo. Em outras palavras, se o condenamos pelos seus crimes, por outro lado nos sensibilizamos pelo seu espírito extremamente protetivo e até paternal em relação ao seu irmão que tenta cumprir uma tarefa que sua vó não preenche e, assim, livrá-lo de uma desestruturada família. São pequenos gestos que Connie faz que nos cativa como quando ajuda uma paciente hospitalizada a tomar água. Por conseguinte, se até certo ponto torcemos pelo sucesso do protagonista em livrar Nick de um ambiente perigoso e nada saudável para uma pessoa em sua situação, o roteiro nunca o isenta de responsabilidade pelos seus atos, fazendo com que Connie cada vez mais se coloque em um caminho sem saída e irreversível.  

Neste sentido, a fotografia também foi um elemento importante para denunciar o caos urbano e o quão longe Connie chega ao empregar luzes neon em tons de vermelho, azul e branco, por exemplo, no momento em que ataca um segurança. Aliás, a cor vermelha é bastante utilizada como forma de enaltecer um universo violento como o pó de tinta que cobre Connie e Nick, ou as luzes do parque de diversões. Bom Comportamento é como um pesadelo cheio de feixes de luzes, sombras fortes, além da granulação da película que nos lembra tão maravilhosamente bem a década dos thrillers policiais dos anos 70, como Operação França (1971) ou Um Dia de Cão (1975). 

Difícil de tirar os olhos da tela, Bom Comportamento é um daqueles que filmes que tirará sua audiência da zona de conforto e vivenciar de perto todas as frustrações e agonias experimentadas pelos seus personagens. 
Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural
Por admin, 19 de outubro de 2017
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