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Em Drama

Crítica: Beleza Oculta (Collateral Beauty, EUA, 2017)

  • 25 de janeiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: Beleza Oculta (Collateral Beauty, EUA, 2017)
Rating: 2.0. From 1 vote.
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Dirigido por David Frankel. Roteirizado por Allan Loeb. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore, Kate Winslet, Helen Mirren.

É visível como a morte e o luto assombram as pessoas, e as impedem de seguir com suas vidas, uma vez que carregam dores como um fardo incontornável. Um tema bastante explorado ultimamente. Apenas este último mês podemos citar grandes obras que impactaram a indústria cinematográfica e, inclusive, ganharam merecidamente uma chance de concorrer ao prêmio Oscar em 2017: “Jackie” conta como a perda do marido (o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy) impactou sua vida; “A Chegada” traz um belo estudo do ciclo da vida e “Manchester à Beira-Mar” explora as dores mais íntimas. Então o que “Beleza Oculta” pode nos trazer de valores? A resposta é simples. Nada.

Howard (Smith) é um empresário, sócio/acionista de uma empresa de marketing. Confiante, feliz e determinado, ele faz uma reunião com seus empregados trazendo uma mensagem que acompanhará o rumo da história: Amor. Tempo. Morte. O primeiro, porque é o que sempre buscamos; o segundo, pois sempre desejamos ter mais tempo e, o último, é o evento que sempre tememos. Em seguida, por meio de uma fusão de planos, passamos para um flashforward de 3 anos depois, no qual testemunhamos uma pessoa completamente diferente da que presenciamos inicialmente: uma pessoa extremamente amargurada, distante, indiferente, em depressão devido à morte de sua filha.

O que se pode considerar como um acerto neste filme é como as três mencionadas palavras são incorporadas respectivamente nos atores Keira Knightley, Jacob Latimore e Helen Mirren e como eles afetam as vidas pessoais dos demais sócios/amigos pessoais de Howard. É muito sincero, portanto, como o Amor (com um figurino bastante expressivo em tons de rosa e vermelho) e os seus ensinamentos acerca de afeto incondicional trazem um impacto positivo na relação complicada entre Whit (Norton) e sua filha. Da mesma forma, o Tempo – personagem que se veste, em sua maioria em cinza, marcado pela frieza – demonstra à Claire (Winslet) como não precisamos ficar presos a ele e à sua linearidade e que ele é, na verdade, cheio de oportunidades, e, por fim, a Morte – vestida com a melancolia do azul – traz grandes lições sobre como lidar com uma doença fatal que sofre Simon (Peña) e de como é importante compartilhar ela com sua família.

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Keira Knightley interpreta Amor em Beleza Oculta

E não somente o figurino dos personagens (inclusive o de Howard, com sua blusa cinza, casaco azul e toca vermelha), mas é possível notar como as cores citadas invadem a tela em uma fotografia competente, justamente para reafirmar como o mundo é consumido por esses três elementos e a necessidade que se impõe em conviver com eles, de certa forma, em uma perspectiva positiva.

O grande e maior problema em Beleza Oculta, e o motivo pelo qual não consigo classificar este filme com mais de 2 das 5 estrelas, é como o roteiro lidou com extremo desprezo a história principal dele, ou seja a de Howard. Não consigo conceber até o momento qualquer justificativa para legitimar o fato de que Claire, Whit e Simon – as pessoas de maior confiança de Howard – tiveram a péssima e ridícula ideia de contratar 3 atores amadores de teatro, pagar 20 mil dólares cada para enganar um amigo que sofre de uma séria depressão e, deste modo, fazer com que ele pense que está vendo aparições de Amor, Tempo e Morte, para atingir a finalidade específica de fazer com que o protagonista seja taxado como louco. Ou seja, uma tática de “gaslighting” para que ele duvide de sua própria saúde mental e, assim, forçar a situação para ser legalmente removido do direito das ações majoritárias que ele possui. Todo o esquema é realizado, portanto, somente para que os três “amigos” possam resolver a atual crise financeira da empresa sem a sua interferência.

Uma atitude extremamente mesquinha, questionável, anti-ética, ilegal, imoral e enfadonha em todos os níveis possíveis, sob o pretexto de estar fazendo uma releitura do clássico “A Felicidade Não Se Compra”. O filme, então, justifica sua existência pela mera preocupação de seus amigos e tentativa desesperada de tirar lágrimas do espectador o tempo todo (o que até eventualmente pode acontecer) pelos primeiríssimos planos forçados, utilizando a morte de uma criança para tanto, e com isso, diminuir ou desviar a atenção do horrível motivo por trás de tudo aquilo estar acontecendo.

É fazer o bem prejudicando as pessoas. Será que realmente vale a pena? De acordo com o roteiro assinado por Allan Loeb, aparentemente sim. E o maior pecado é defender essa ideia.

Se não bastasse tudo o que já foi citado, o filme ultrapassa ainda mais os limites do mau gosto, quando ele tenta arrancar algumas risadas de quem o está assistindo com piadas e trocadilhos pífios e inoportunos, tratando tragédia como comédia as vezes, o que obviamente além de sem graça, não casam com o tom melodramático extremo da trilha e da própria mise-en-scène. Ao mesmo tempo, tenta abordar um tom mais espiritual em outras oportunidades. A obra não consegue, dessa forma, nem decidir efetivamente o que se quer explorar de forma coesa e coerente.

Trazendo um sentimentalismo barato que não consegue ser moralmente aceitável, Beleza Oculta é demasiado ofensivo.

Texto originalmente publicado pela autora em coluna para o site Cabine Cultural.

Por admin, 25 de janeiro de 2017
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