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Em Cinebiografia

Crítica: Até O Último Homem (Hacksaw Ridge, EUA, 2017)

  • 6 de fevereiro de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
  • 4 Comentários
Crítica: Até O Último Homem (Hacksaw Ridge, EUA, 2017)
Rating: 3.0. From 1 vote.
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Dirigido por Mel Gibson. Roteirizado por Andrew Knight e Robert Schenkkan. Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Luke Bracey, Teresa Palmer, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn.

A história é uma adaptação da vida real de um homem que morou no estado de Virgínia, nos Estados Unidos, chamado Desmond Doss (Garfield). Ele atuou como soldado voluntário na Segunda Guerra Mundial e havia se alistado no exército sob o pretexto de ajudar o país, diante de todo sacrifício que ele presenciava nos demais amigos da comunidade. Aspirante a médico, Doss se destacou por sua forte crença, ao ter sido o único a recusar-se a utilizar armas durante as batalhas, visto que era um cristão devoto e Objetor da Consciência. Assim, seu objetivo nas forças armadas era dedicar seu trabalho em campo para salvar a vida de seus companheiros, como médico militar, ao invés de tirar a de seus oponentes. A trama, portanto, acompanha a trajetória do protagonista desde sua infância, até em sua vida amorosa, familiar, seus treinamentos militares e, principalmente, sua importância durante a atuação das tropas americanas no território japonês de Okinawa e a missão da tomada do desfiladeiro de Hacksaw, cuja zona era fundamental para derrota japonesa.

Essa história inspiradora claramente foi um prato cheio para os roteiristas Andrew Knight e Robert Schenkkan. É notável como a vida de Doss passou por diversos momentos dramáticos e complexos que eles souberam aproveitar muito bem. Neste contexto, temos o desenvolvimento da sua rechaça a todas as formas de violência pelos inúmeros eventos traumáticos vivenciados pelo protagonista, desde a quase morte de seu irmão por um ato agressivo cometido por este ou então a relação com seu pai abusivo Tom Doss (Weaving) que, longe de tratá-lo como um vilão, coloca-o em uma posição mais humana, eis que também carrega um sofrimento e uma frustração enorme após ter participado da Primeira Guerra Mundial. Neste quesito, por conseguinte, o arco dramático dos personagens em sua volta é bastante completo e interessante.

Infelizmente, o mesmo não podemos afirmar acerca de seus companheiros e superiores no pelotão, quando passamos para os eventos durante o exército. Executando uma clara referência da vida militar retratada no clássico Nascido para Matar de Stanley Kubrick, ao contrário da figura aterrorizante do Sargento Hartmann, em Até o Último Homem temos o caricato personagem de Vince Vaughn como o Sargento Howell. O tom cômico que o roteiro delineou este personagem é completamente fora de contexto. Aliás, o emprego de piadas constantes e a necessidade de alívio cômico durante toda a trama atrapalham por completo o ritmo da narrativa. Dessa forma, o longa não consegue trazer o impacto psicológico nas rotinas militares e igualmente provoca risos não intencionais muitas vezes, quebrando sua eficácia dramática. Um dos maiores exemplos disto é quando o pelotão aguarda Doss terminar de rezar antes de retornar a Hicksaw. Este momento era intencionado a demonstrar uma forma de empoderamento do personagem e não uma situação meramente engraçada.

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Andrew Garfield interpreta Demond Doss em Até o Último Homem

Gibson igualmente recorre a exageros em sua direção, ao não somente em abusar dos planos-detalhes mostrando tripas e órgãos humanos espalhados pelo chão, mas também em enaltecer o caráter do “herói divino” de Doss. Nota-se como, desde o começo, investe-se reiteradamente em representá-lo como um mártir, alguém com ações altruístas. Ainda que Doss tenha um lado um pouco sombrio, é perceptível quando o protagonista praticamente veste a camisa do super herói quando salva uma pessoa presa debaixo do carro; quando ajuda o inimigo (“monstro”) ferido em batalha; quando permanece passivo com os bullyings e outras dificuldades; quando toma o “banho divino”; ou então a maca onde ele permanece deitado filmado em contra-plongée, dando a impressão de que a iluminação presente vinda dos céus significaria seu encontro com Deus, comparando, assim, a sua martirização com a crucificação de Jesus tal como na obra A Paixão de Cristo (também dirigida por Gibson), por exemplo.

Não bastasse isso, há a freqüente glorificação das tropas americanas, justificando sua atuação na Segunda Guerra, como se eles fossem pessoas que defendessem a paz e um mundo melhor. Os acontecimentos de Pearl Harbor, por conseguinte, é o pretexto para sua confrontação com os inimigos. Assim como os seus soldados são engrandecidos, os japoneses, em contrapartida, são literalmente rotulados como o “Satanás na Terra”, pessoas que não se importam em morrer e em dar suas vidas pelo seu país. Esse contraste entre “anjos” e “demônios” é tão palpável que chega a ser de mau gosto.

Após décadas fora do cenário cinematográfico, Mel Gibson dirige mais esta obra, cujo olhar tendencioso de seus personagens somente é compensado pela incrível competência ao retratar os horrores da guerra com o mesmo realismo e intensidade com os quais fora executado o clássico O Resgate do Soldado Ryan. Podemos sentir de perto a sensação de urgência e ritmo frenético dos confrontos bélicos a partir aceleração dos planos, executados com cortes excessivos, mas eficientes. A câmera subjetiva também é um dos pontos chaves para que esse sentimento seja despertado no espectador.

Até o Último Homem, tem seu valor como um impactante filme de guerra, mas a recorrente santificação dos personagens na indústria cinematográfica norte-americana acaba se tornando um recurso cada vez mais cansativo.

Por Gabriella Tomasi, 6 de fevereiro de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

4 Comments
  • Fábio
    8 de fevereiro de 2017

    Parabéns pela crítica, me identifiquei bastante com sua perspectiva do filme.

  • Bryan
    19 de fevereiro de 2017

    Oi, gostaria de tentar deixar alguns pontos que talvez ajudem a olhar o filme por outro ponto de vista, eu nunca fui a guerra, mas sou cristão, e passei pelo serviço militar e algumas experiências que muitos não tem conhecimento. O que foi encarado como tom cômico do sargento colocando apelidos e outras coisas nada mais é do que um pedaço da realidade dentro do exército. servi em 2010 e desde a época do filme até hoje isso se mantém em qualquer quartel, somos ridicularizados, humilhados, recebemos apelidos e passamos por muitas coisas, então o roteirista caracterizou apenas uma parte do que passamos lá. Também guardo o sábado assim como o protagonista do filme, fui preso por me negar a trabalhar no sábado e consequentemente “desobedeci” ordens diretas dos meus superiores. sofri repressões no quartel de colegas e superiores assim como o protagonista do filme e servi mais de 50 anos depois dele, mas quando estava em campo fazendo operações e outras atividade militares, aceitei ser punido por erros de meus colegas para que os mesmos não ficassem mais esgotados ou em situação pior, carreguei colegas que não aguentavam mais em pé pois se os mesmos desistissem seria pior, passei noites em claro cuidando de colegas e muitas outras coisas em que coloquei a pessoa que estava ao meu lado acima dos meus próprios interesses. comento tudo isso para tentar mostrar que o filme não tenta “endeusar” o protagonista, mas sim, que quando se tem princípios cristãos (e falo de verdadeiros princípios que são a base do caráter de uma pessoa) e quando se tem fé que Deus está conosco, pode-se fazer o que o protagonista fez e muito mais, dentro da minha realidade sem nunca ter ido a guerra,passei por muitas situações de necessidade e consegui fazer a diferença ajudando a pessoa que estava ao meu lado, assim como o protagonista o fez pelos colegas dele. então qualquer pessoa como você e eu pode ajudar o próximo independente das circunstâncias que nos encontramos, basta ter fé que Deus vai nos ajudar, assim como Doss teve e Deus o ajudou.

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