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Em Drama

Crítica: As Duas Irenes (Brasil, 2017)

  • 12 de setembro de 2017
  • Por admin
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Crítica: As Duas Irenes (Brasil, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Fabio Meira. Elenco: Priscila Bittencourt, Isabela Torres, Marco Ricca, Suzana Ribeiro,  Inês Peixoto, Teuda Bara, Marcela Moura, Ana Reston, Maju Souza

As Duas Irenes é um dos longas brasileiros mais aguardados do ano de 2017. Dirigido e roteirizado por Fabio Meira, a história gira em torno de uma menina de 13 anos chamada Irene – interpretada por Priscila Bittencourt – que, certo dia, descobre possuir outra irmã, fruto do relacionamento de seu pai com outra mulher, de mesma idade e com o mesmo nome, Irene – esta interpretada por Isabela Torres. A curiosidade desperta na garota, o que leva a se aproximar da meia-irmã e aos poucos ambas se tornam muito próximas e amigas, porém, Irene esconde sua real identidade, se fazendo conhecida por “Madalena”.

O contexto é muitíssimo bem executado em um período distante da história moderna, mas que ainda continua sendo muito atual. A abordagem naturalista da fotografia que valoriza o meio ambiente criando uma atmosfera interiorana convincente faz, por conseguinte, nos situar na típica estrutura paternalista e rural das famílias. O ritmo lento, mas calculado, nos dá a sensação de que o tempo ali parou naquela região. Irene de Priscila é a filha do meio que sofre das negligencias da mãe, eis que a filha mais velha se prepara para debutar e irmã caçula precisa de cuidados maiores. Enquanto estas duas últimas crescem idealizando o papel da mulher que lhes é imposto, Irene se sente deslocada e insatisfeita com estas exigências. Neste sentido, a aproximação à Irene de Isabela lhe desperta uma espécie de sentimento de inveja mesclado com admiração, porquanto a meia-irmã é criada em um cenário muito mais livre, sem regramentos sufocantes, por uma mãe bem mais compreensível e presente que a sua.

As Duas Irenes (Créditos: IMDb)

Este também é um perfeito exemplo de película “coming of age”, eis que ambas personagens se encontram na fase mais crítica de sua adolescência, na qual elas aprendem amadurecer juntas, como compartilhar experiências do primeiro beijo, primeiro cigarro e outras. Irene de Priscila, uma menina bem mais magra do que sua voluptuosa e já bem desenvolvida irmã, assume contornos mais independentes, e espelhados em sua outra “Irene”. É possível perceber pelas sutilezas de Meira quando a protagonista se depara pela primeira vez com sua irmã tomando banho no quanto do quadro e desfocada, representando todo o seu desejo de possuir um físico semelhante, mas que lhe é distante de se tornar realidade; ou quando a observa a se relacionar com outros meninos querendo as mesmas experiências; ou até mesmo quando ela se observa no espelho e ao fundo, encontra-se a sua outra “metade” Irene – simbolizando uma imagem duplicada de si mesma, ou que ela deseja que fosse sua imagem. Assim sendo, a Irene de Priscila se torna gradualmente mais empoderada, se vestindo de uma maneira mais solta e se desligando da família emocionalmente. Neste contexto, é curioso notar os enquadramentos precisos e simétricos de Meira na mesa de jantar, na qual de longe vemos na ponta da mesa o pai – o centro da família – até que no decorrer da narrativa essa posição é substituída pela protagonista.   

É, portanto, a partir desses encontros, desencontros e plot twists que as personagens principais passam a ter – ou almejar – maior controle em suas vidas e querendo se desvencilhar de tanta opressão, encarado e interpretado inclusive como uma “revolta” ou “rebeldia” para as figuras adultas, mas que por trás destes atos elas almejam ir contra esse sistema patriarcal e misógino que a imagem do pai – ou o homem em geral – delas representa. Perceba como todos os personagens masculinos, inclusive os meninos da mesma idade, possuem a mesma característica, sempre querendo ter o controle da relação amorosa por gestos mínimos, como tentar atrair atenção de uma menina tirando o calção de banho ou tentando passar a mão na bunda enquanto beija uma garota. Não digo que Tonico, interpretado por Marco Ricca seja um personagem estereotipado como os demais. Pelo contrário, ele é aqui humanizado como uma figura paterna “responsável”, pois ainda que esconda ter outra filha, se faz muito presente na vida das duas, e transmite um carinho imenso por ambas, mas ao mesmo tempo nunca deixando de lado a característica machista e homem “provedor do lar”. É uma relação de amor e ódio experimentado pelas filhas, eis que por mais que haja um grande amor por ele, não é possível esconder o rancor de esconder um importante segredo. Portanto, ele é definitivamente muito mais multifacetado e complexo, já que seria muito fácil extrair antipatia por ele pelo espectador.

Por fim, As Duas Irenes representa aquela qualidade de filme que tanto se espera da indústria cinematográfica brasileira. Extremamente sutil, envolvente e com um desfecho arrebatador, é um dos melhores filmes nacionais que eu vejo há muito tempo.

Filme visto durante a cobertura do 45º Festival de Gramado de 2017.

Por admin, 12 de setembro de 2017
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