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Em Drama

Crítica: Aquarius (Brasil, 2016)

  • 14 de novembro de 2016
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Aquarius (Brasil, 2016)
Rating: 5.0. From 1 vote.
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Nota: 5,0/5,0*   

Dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho. Elenco com Sônia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Irandhir Santos.

Neste novo longa, vencedor recente do prêmio de melhor filme no Festival de Sidney e Amsterdam, conhecemos Clara, nos anos 1980, uma pernambucana jovem, de cabelo curto – recém recuperada de um câncer traumático – faz um passeio de carro pela praia de Boa Viagem com seu irmão e amigos ao som diegético da então novidade de Queen: “Another One Bites The Dust”. Mas descobrimos que esse passeio é apenas um pequeno desvio da comemoração do aniversário de tia Lúcia em um edifício, cujo nome intitulou o filme. Lá, Clara encontra seus filhos, seu marido, seus amigos e demais familiares. Durante a homenagem, vemos rapidamente o olhar da tão querida tia se esquivar até encontrar uma cômoda na sala, a qual permaneceu em suas lembranças, eis que foi usada uma vez para suas aventuras sexuais.

Neste primeiro capítulo, é uma noite de festa, de alegria e de gratidão. Na sequencia, em uma elipse muito bem executada, o dia amanhece calmo. Encontramos Clara novamente mais velha, porém serena, madura, de cabelos longos e um pouco solitária. Ao invés de uma narração puramente explicativa, o diretor brilhantemente opta por uma construção narrativa, pela qual descobrimos pouco a pouco mais sobre sua vida, sua pessoa e sua atual situação: viúva, mãe de 3 filhos que lhe presentearam com netos, jornalista aposentada, humilde – apesar de ser financeiramente bem sucedida. Isto tudo vem a partir de diálogos com a família e amigos, de imagens e signos e do que acontece ao seu redor.

Neste novo cenário, nós vemos também a transformação que as localizações tiveram ao longo dos anos: a mudança da cor da fachada do edifício, a praia imprópria para o nado, os carros, entre outros. Tudo aparentemente parece ter mudado, menos seu apartamento, o qual contém os mesmos objetos, os mesmos discos de vinil, a mesma vitrola e até a mesma cômoda de tia Lúcia. E Clara, ao contrário do que se presume, não é uma pessoa antiquada, parada no tempo. Ela continua ativa – em todos os sentidos da palavra – e por dentro das novas mudanças. Ela entende, usa e não recusa as novas tecnologias que revolucionaram nosso convívio social, como: smartphones, facebook, pendrives, etc, mas ao mesmo tempo não dispensa os modos simplórios de uma época anterior: um telefonema, um vinil, um livro.

Como crítica de música, este quesito obviamente não deixou de ser utilizado como elemento narrativo. Nós encontramos uma trilha puramente diegética, inclusive em seu tom e volume, casando perfeitamente com as cenas. A lista conta com homenagens em um tom nostálgico de clássicos brasileiros como Heitor Villa-Lobos, Elis Regina e Maria Betânia.

Até o fim do segundo capítulo, descobrimos o “amor de Clara”. É onde os donos da Construtora Bonfim aparecem, a fim de persuadir a protagonista a vender o seu apartamento, eis que desejam fazer um novo edifício – o “Novo Aquarius” – e ela é a única residente que restou em todas as unidades. Apesar da oferta generosa e da insistência de seus filhos, ela se nega veemente a fazer isto. Deste modo, Diego, engenheiro, neto do dono da construtora, utiliza de todos métodos nefastos e anti-éticos inimagináveis para que Clara ceda.

Diego é a evidente representação do corporativismo, de uma alta sociedade corrompida pelo capitalismo, uma elite gananciosa e mal intencionada mesmo. Ele representa a figura do problema sintomático social do “Você sabe com quem está falando?” e esta passividade-agressividade é mascarada em uma pessoa jovem, culta e bem educada graças à incrível interpretação de Humberto Carrão. Este simbolismo do duelo que se forma está muito presente no diálogo inteligente, nas cores expressivas, nos movimentos de câmara – principalmente quando Diego tira seu carro para que o carro de Clara possa passar e sair da garagem.

Junto com uma competente fotografia, cada ângulo, cada enquadramento, cada movimento, cada símbolo, cada cena por mais “desnecessária” que possa parecer para o espectador também tem sempre um significado ou uma função específica por trás, o que torna uma narrativa riquíssima em detalhes e uma execução bastante complexa.

Neste contexto, é muito interessante também ver como a câmara não desgruda um segundo de Sonia Braga, a qual se mantém em tela em todas as cenas. Como, através de recorrentes travellings, zoom in-zoom out, etc, a câmara persegue a atriz, seja para nos revele sua reação, seja para contar sua história por seus próprios olhos, pelas suas próprias impressões. O diretor toma o tempo e o cuidado necessários para atingir esta finalidade.

Por óbvio, este filme aborda questões políticas e críticas à sociedade de uma maneira bastante eficaz, quando trata da falta de memória. Mas ele também possui vários outros níveis de interpretação. É um belíssimo trabalho artístico que se aplica à realidade de qualquer pessoa; todos podem se identificar. O apartamento de Clara, mais que um lugar físico, decadente em sua aparência, é o lugar onde seus filhos cresceram, é onde todas as lembranças se encontram, é o seu acervo mais precioso. Em cada objeto, livro, música tem um pedaço dela, um pedaço da sua história de vida.

Quem nunca se apegou a um objeto, a um signo representativo de uma época, de uma viagem, de um antigo amor, de uma amizade em nossas vidas? E isto é que Aquarius representa: a memória preservada e viva e, principalmente, a saudade de um tempo que não volta mais.

Por Gabriella Tomasi, 14 de novembro de 2016 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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