Voltar para Página principal
Em Terror

Crítica: Ao Cair da Noite (It Comes At Night, EUA, 2017)

  • 21 de junho de 2017
  • Por admin
  • 0 Comentários
Crítica: Ao Cair da Noite (It Comes At Night, EUA, 2017)
Rating: 5.0. From 1 vote.
Please wait...

Dirigido e roteirizado por Trey Edward Shults. Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr., Riley Keough.

Curioso observar como os filmes de terror estão conseguindo revolucionar o mercado e trazendo, em suas histórias, importantes e grandes reflexões sociais, íntimas e raciais nos últimos anos. Apesar de alguns desastrosos e clichês ambulantes como o recente O Chamado 3 (2017) e Alien: Covenant (2017), é ainda muito bom testemunhar longas que trazem um alívio para o gênero como Corra! (2017), A Bruxa (2016), Corrente do Mal (2015), e Fragmentado (2017), e nesta lista até mesmo podemos incluir o blockbuster Invocação do Mal (2013).

A trama em Ao Cair da Noite é desenvolvida por uma narrativa pouco convencional, que não estamos muito acostumados a vivenciar nas telas de cinema. Isto porque pouco se mostra ou se explica acerca do que está acontecendo. O que sabemos é que em um futuro distópico, uma doença grave, infecciosa e agressiva tomou conta do mundo, forçando famílias a se isolarem em lugares remotos como em meio à floresta. Lá encontramos Paul (Edgerton) que mora com sua esposa Sarah (Ejogo) e o filho Travis (Harrison Jr.) em uma dessas casas de campo em exílio. No início, vemos o falecimento de um ente querido: o avô e pai de Sarah, já com aparência praticamente cadavérica com inúmeros hematomas em seu corpo. De fato este início representa tudo o que o maior vilão da trama seria, qual seja, todos aqueles sentimentos de luto, incerteza e melancolia. Neste contexto, chega um estranho: um homem chamado Will (Abbott) que diz que possui uma família e que precisava de água e outros suprimentos e que apenas invadiu a propriedade de Paul acreditando que a casa estava vazia. Posteriormente o protagonista acolhe a família junto à sua, até que acontecimentos estranhos dentro da casa levam a conflitos.

E o trabalho de Shults para desenvolver esses elementos é simplesmente impecável, porque por mais que esperemos um monstro ou um antagonista físico que aterroriza pessoas decentes e de boa-fé (como de costume em filmes do gênero), o cineasta pouco a pouco vai desconstruindo esses mitos e expectativas do espectador para conduzi-lo a algo muito mais profundo que qualquer outro rumo que a narrativa poderia ter tomado. Notem, por exemplo, como inicialmente a posição dos três personagens da família na mesa – logo após a morte do parente – cria um ambiente misterioso e extremamente triste pela sua paleta fria, assim como todos os atores são posicionados de forma confortável em suas cadeiras. Com a chegada da nova família, aquela mesma mesa vista do mesmo ângulo parece ter diminuído de tamanho com a presença de novas pessoas e vistas em paleta de cores quentes e feixes de luzes fortes até que no terceiro ato o isolamento, a solidão é devastador (visto novamente em cores frias como o azul).

Da mesma maneira, o diretor cria momentos de claustrofobia tanto nos ambientes externos quanto internos. Reparem como os personagens são posicionados de longe quando estão na mata, reforçando essa sensação de confinamento em uma geografia definida. Já no interior da casa, onde a maioria do tempo as ações são concentradas, as luzes que saem das armas ou dos lampiões restringem nosso campo de visão – aproveitando a ausência de eletricidade – e instigando ao que possa acontecer ao criar linhas estreitas que achatam os personagens no quadro, dando a impressão de que os cenários são menores do que possivelmente são. Além disso, cria-se outro efeito de achatamento para reforçar mais ainda a claustrofobia pelo uso de planos fechados e achatamento do quadro também em sua horizontal.

 

Reparem o recurso de “achatamento” do quadro utilizado (a sua largura é maior que o cumprimento) para mostrar como o medo toma conta dos personagens. Além disso, Paul possui um ponto de luz em seu rosto e o restante do quadro estar mergulhado em completo breu quando ele descobre que o filho de Will poderia estar contaminado, demonstrando, dessa forma, sua paranóia.


Outro artifício muito bem utilizado é o contra-campo que aqui foi usado ao favor da narrativa. Como não sabemos exatamente o que está acontecendo, Schults emprega esse recurso a fim de criar o ambiente de mistério e tensão por posicionar a câmera em frente aos personagens sem que possamos ver o que acontece em sua frente. É dessa forma que nos arrepiamos com a aproximação de Will até uma porta vermelha e o pânico da reação de Paul embaixo do carro após ser atacado por pessoas que, não coincidentemente, nós apenas vemos pernas e silhuetas delas até na sequencia suas identidades serem reveladas.

Ao Cair da Noite possui, acima de tudo, aquele ambiente que A Bruxa tão bem explorou, a paranóia que extraímos em momentos que não conseguimos explicar: o primeiro sendo uma doença incontrolável e o segundo já em uma abordagem mais sobrenatural, mas também inexplicável pelo viés religioso e a fé de seus personagens.

Porque o desconhecimento do que realmente se passa no mundo, seja ela uma epidemia ou sobrenatural, pouco importa e isso por três motivos: 1) obviamente para criar tensão no espectador; 2) porque também faz parte da diegese dos personagens, já que eles mesmos não conseguem entender o que se passa as vezes; 3) demonstrar que tudo isso realmente não é o mais importante, pois o que realmente conta são as atitudes dos personagens em relação ao que lhe é apresentado. Normalmente em situações de crises e devastações somos sempre ensinados a praticar atos altruístas e ajudar ao próximo. Mas até onde isso vai quando se trata de uma “terra de ninguém”? Até que ponto somos capazes de regredir em meio à tantas incertezas, pânico e terror? Até que ponto podemos “prejudicar” o próximo em nosso benefício quando se tenta proteger seus amados (parentes ou amigos)? Até onde o egoísmo faz sentido? 

As mencionadas perguntas, na realidade, não possuem uma resposta concreta, eis que tudo depende do que cada um de nós absorvemos ou entendemos o que podemos tolerar ou perdoar das ações dos personagens em tela. Podemos compreender um lado o outro, mas o interesse maior é que o terror, ou seja, o medo e a insegurança não acontecem lá fora, é o que se passa dentro de nós, da nossa própria ignorância.

Afinal, não somos nós mesmos nossos maiores inimigos?

Por admin, 21 de junho de 2017
Crítica: 1922 (EUA, 2017)
Dica Netflix: A Babá (2017)
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@iconedocinema