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Em Ficção Científica

Crítica: Aniquilação (Annihilation, Reino Unido/EUA, 2018)

  • 14 de março de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
  • 1 Comentários
Crítica: Aniquilação (Annihilation, Reino Unido/EUA, 2018)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido e roteirizado por Alex Garland. Baseado em Annihilation, de Jeff VanderMeer. Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny, Oscar Isaac.

Alex Garland é um diretor que gosta de explorar os efeitos da inteligência artificial no ambiente humano. Questionando a robótica em Ex_Machina (2015), seu novo longa disponível na Netflix, Aniquilação, se relaciona com a genética e evolução das espécies, mas ambos têm um elemento chave aplicável às suas histórias: a falta de controle e a ausência de explicações para alguns fenômenos por parte do ser humano. Neste sentido, Garland pouco se importa com seus personagens ou com o rumo que a narrativa ou a história vai levar, mas ao contrário, a jornada em si é que se torna a principal alegoria daquilo que se deseja passar.

O cineasta, então, habilmente traz uma narrativa instigante e atraente com muita influência na estética de Kubrick em 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), principalmente no que tange ao inexplicável e sobrenatural. Na realidade, as semelhanças são tantas que ouso a afirmar se o ceticismo experimentado por Garland não seria o mesmo que Kubrick vivenciou na época, antes de sua obra se tornar um clássico do cinema. Dentre elas, está o design de produção todo filmado em grande profundidade de campo, a fim de detalhar um ambiente completamente fantasioso, mas de modo bastante realista para aproximar seu espectador.

Na trama, Lena (Portman), uma bióloga especialista em mutação genética decide se alistar para uma missão junto com outras quatro cientistas para investigar um fenômeno denominado de “O Brilho”, no qual uma cortina de luz separa o universo real e um universo desconhecido que aparentemente tem origem em um farol em uma cidade na costa norte-americana. O problema é que o Brilho está cada vez aumentando mais a sua forma sem que houvesse uma explicação para tanto, e como vários times de pessoas, inclusive militares, tentaram a sorte, mas nenhum saiu com vida de lá, a ameaça sobre o futuro da vida humana se torna mais latente. Isso com exceção do marido de Lena, o Sargento Kane (Isaac) que após doze meses desaparecido retorna com várias contusões e convulsões que o mantêm em coma durante um tempo, permanecendo impossibilitado de dar informações sobre o que ocorreu com sua equipe.

As paletas de cores verde, azul e roxo são predominantes no universo fantasioso de Aniquilação (Créditos: IMDb)

Utilizando-se de várias linhas narrativas temporais que se alternam, Aniquilação possui traços de um sonho, ou melhor, de pesadelo e que, por conseguinte, alteram nossa percepção da própria história ao longo da projeção. Sua aura psicodélica com uma fotografia impactante explora muito as cores vivas, com tons bastante visíveis de roxo, verde e azul e reforçam essa sensação ao adentrar ao desconhecido, do novo, mas também a sensação de ameaça, perigo. Assim como em A Chegada (2016) a expedição se torna uma descoberta tanto para as quatro personagens quanto para o espectador, ou seja, assim como elas, estamos entrando em contato pela primeira vez com um universo absolutamente misterioso e perigoso, de modo que nós aprendemos o que elas aprendem, ouvimos o que elas ouvem, e não conseguimos explicar os eventos que nos pegam de surpresa e nos aterrorizam. Por conseguinte, há todo momento ambigüidades que a narrativa por si só não responde de forma literal e, por isso, poderá frustrar muitas pessoas. Contudo, é importante ressaltar que as lacunas fazem parte de um processo que nós mesmos devemos preencher; cabe ao espectador interpretar o que vê.

É interessante observar como cada uma das personagens é imperfeita e cada uma é motivada por um senso de culpa que aprofunda na medida em que elas adentram à floresta, e é sempre acompanhada de um sentimento de autodestruição: Lena, pelo seu casamento, motivo pelo qual ela insiste em se juntar ao grupo (“Eu devo isso a ele” diz referindo-se a Kane); Cass (Novotny) pela perda de sua filha; Dra. Ventress (Jason Leigh) em razão de uma doença; Josie (Thompson) por uma depressão; e Anya (Rodriguez) recupera-se de um vício. E é por esse elo de pessoas “machucadas” pela triste realidade da vida leva ao encontro de Lena com o marido, a Ventress se entregar à doença de seu corpo, a Josie transformar suas marcas no corpo, por exemplo.

Essa “transformação” física e inclusive biológica nos personagens que passam pelo Brilho não é ao caso. É, por fim, a representação da nossa própria vulnerabilidade na medida em que não conseguimos controlar nossa mente e corpo, quando as mudanças e eventos desconhecidos para além da capacidade humana de explicá-los enaltecem nossa fragilidade intrínseca que, ao final, nos aniquilam. Para isso, nunca haverão respostas fáceis, e portanto Garland não tenta fornecê-las.

Definitivamente, Aniquilação é uma linda experiência sensorial e uma ótima contribuição para o gênero da ficção científica.

Por Gabriella Tomasi, 14 de março de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.
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Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

1 Comment
  • Sr. Lobato
    29 de julho de 2018

    Uau, fiquei mais interessado no filme, apesar das criticas não creio que o filme seja tão simples como dizem e sim complexo

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