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Em Drama

Crítica: Alfa (Alpha, EUA, 2018)

  • 10 de setembro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: Alfa (Alpha, EUA, 2018)
Rating: 3.0. From 1 vote.
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Dirigido por Albert Hughes. Roteirizado por Daniele Sebastian Wiedenhaupt. Elenco: Kodi Smit-McPhee, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Natassia Malthe, Leonor Varela, Jens Hultén, Mercedes de la Zerda, Spencer Bogaert

Em Alfa, estamos inseridos em um contexto da era pré-histórica na Europa, há mais de vinte mil anos atrás. Nos primeiros minutos do longa, homens se organizam para uma caçada ritualística, mas durante a jornada, o jovem sensível Keda (Smit-McPhee), filho do líder do grupo se perde após ser atacado. Ele sobrevive embora tenha sido presumido morto por sua tribo e, sozinho pela primeira vez, ele tenta retornar à casa até contar com a ajuda de um lobo durante o seu percurso, e com o qual ele estabelece uma forte amizade.

Alfa é essencialmente um filme sobre sobrevivência e pode-se dizer que, neste aspecto, ele funciona maravilhosamente bem. A edição é trabalhada de maneira cuidadosa e o ritmo mais lento dá vida ao lado realista da jornada, fazendo com que, por conseguinte, as dores e os obstáculos enfrentados pelo protagonista se tornem mais palpáveis.

Neste sentido, a direção assinada por Hughes igualmente desenvolve essa abordagem mediante planos mais fechados e em detalhe que captam de perto os ferimentos, as ferramentas e até mesmo os movimentos de Keda para que nada pareça artificial, mesmo quando pequenas conveniências se apresentam. Além disso, a precariedade dos recursos disponíveis, em função da época retratada, concede uma sensação de claustrofobia e até mesmo um suspense que faz o espectador duvidar do resultado final da narrativa, e que é extremamente eficiente. Por outro lado, o diretor também abusa dos planos abertos e gerais para gerar o sentimento de isolamento e ao mesmo tempo de impotência dos personagens em relação às situações de perigo como, por exemplo, os planos filmados do gigantesco penhasco ou a câmera subjetiva de uma queda.

A direção de fotografia, por sua vez, contribui imensamente para que esse efeito se potencialize no espectador. A paleta branca das fortes nevascas o cega, a fim de sentir de perto as experiências do personagem; as cores laranja e amarela do por do sol ou do calor do fogo intenso da mesma forma denotam o desespero do exílio, a fome e o frio, e; a completa escuridão faz surgir ameaças desconhecidas, por exemplo.  Por fim, os tons em roxo nos concedem uma experiência mística das crenças e da fé da cultura de Keda.

A beleza da natureza também é transparecida em planos abertos e com paletas em tonalidades quentes, para efeitos de contemplação em Alfa (Créditos: Sony Pictures).

É nos pequenos detalhes de toda a sua produção, portanto, que Alfa se faz um longa-metragem maravilhoso. A maquiagem e figurino desempenham um papel interessante, não somente pelas roupas retratadas com suas marcas evidentes do retalho trabalhado manualmente, mas também a degradação do protagonista, o qual se vê, ao longo da narrativa, mais cansado, com olheiras pesadas, pálido do frio e o bigode que se forma para ressaltar o passar do tempo, criando elipses fluídas. Outros elementos também se revelam importantes como as pedras posicionadas no chão, que se transformam em uma mensagem para que Keda compreenda sua situação; os palitos que pegam fogo simbolizam conquistas e; a sensibilidade do protagonista – questionada desde o começo – se transforma em um vínculo de sobrevivência quando seu amigo lobo o protege de perigos iminentes.

Mesmo com muitos poucos diálogos e muito trabalho imagético simbólico na narrativa, o que prejudica, no entanto, Alfa, é o conteúdo de um roteiro extremamente formuláico, com a típica e clichê jornada de superação do herói, o qual inicialmente sofre imensas opressões e exigências de seu pai (já que também se encontra em uma posição de sucessor de líder), até que uma catástrofe lhe acontece apenas para que ele possa provar seu valor ao final. Assim sendo, o que era inicialmente uma excelente narrativa de suspense se torna aos poucos bastante previsível, contando com algumas situações forçadas, como por exemplo, a cena em que o protagonista fica preso nas geleiras.

Mas o problema mais grave é a forma como se executou a domesticação de um animal selvagem, o que com certeza extrai a empatia do seu público pela semelhança de seu comportamento e fisionomia a um cachorro husky siberiano. O longa obviamente exagera ao suavizar demais o fato de não estarmos na presença de um animal dócil e tão facilmente adestrado, mas que possui verdadeiros instintos duvidosos. Dessa maneira, o sentimentalismo por vezes não combina com o tom de sobrevivência e realismo que se deseja passar com o filme.

Alfa é, portanto, um incrível trabalho cinematográfico que acaba diminuindo o impacto avassalador da jornada de seu protagonista em prol de fórmulas pré-estabelecidas.

Texto originalmente publicado pelo autora em coluna para o site Cabine Cultural.

Por Gabriella Tomasi, 10 de setembro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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