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Em Cinebiografia

Crítica: Além das Palavras (A Quiet Passion, Reino Unido/Bélgica, 2017)

  • 26 de abril de 2017
  • Por admin
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Crítica: Além das Palavras (A Quiet Passion, Reino Unido/Bélgica, 2017)
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Dirigido e roteirizado por Terence Davies. Elenco: Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Keith Carradine, Duncan Duff, Jodhi May, Joanna Bacon, Emma Bell, Catherine Bailey, Rose Williams, Benjamin Wainwright, Eric Loren.

Terence Davies é um diretor que possui uma filmografia dedicada à uma temática moderna com questões bastante importantes, mas que são normalmente exploradas em tempos e períodos do passado como a Primeira e Segunda Guerra Mundial em seus últimos trabalhos A Canção do Pôr do Sol (2015) e Amor Profundo (2011). Em Além das Palavras o cineasta nos transporta mais longe, ou seja, para o século 19, no qual conta-se a história de vida da poeta norte-americana Emily Dickinson. Apesar de efetivo o título em português, a tradução literal de seu original possui mais impacto, já que “a quiet passion” ou “uma paixão secreta” é que o descreve perfeitamente o trabalho profissional de Dickinson. Com um enorme número de poemas escritos – quatro volumes de quase 1800 de sua autoria – a poeta somente conseguiu publicação de mais ou menos 10 deles quando estava viva e, por conseguinte, seu prestigio e reconhecimento lamentavelmente ocorreram apenas postumamente.

Davies, portanto, incorpora a poesia romântica de Dickinson e o traduz em cinema para estudar efetivamente quem ela foi. Com narrações em off de alguns versos que parecem complementar cada momento vivido pela protagonista em vida e articular seu ânimo interior, compreendemos um pouco melhor a sua personalidade pelas fragilidades, frustrações e principalmente a força da personagem incorporada na sua adolescência por Emma Bell e na fase adulta pela incrível e potente atuação de Cynthia Nixon.

Dickinson veio de uma família rica, seu pai Edward (Carradine) é advogado com convicções liberais e abolicionistas em um contexto onde a Guerra Civil americana acontecia. Com uma competente direção de arte, nada foi economizado para transmitir o luxo e o lado pomposo da alta classe societária. Mas desde início, vemos como a protagonista está muito mais frente à sua época. Embora não negue o catolicismo, assim como não nega a possibilidade de existirem verdades religiosas alternativas como são discutidas com sua irmã Vinnie (Ehle), ela ao mesmo tempo nega se entregar completamente às rigorosas tradições como ir regularmente à Igreja quando se recusa acompanhar seu pai na missa, ou então nos primeiros minutos de projeção em que declara formalmente à uma freira que não irá se entregar à Deus, o que consequentemente leva a poeta ser expulsa do católico colégio Mount Holyoke. Porém, ela é uma mulher que nunca rechaçou os costumes e a cultura como pedir a permissão de seu pai para escrever poemas durante a noite, mas tampouco deixa de ser questionadora em relação a eles. Neste contexto, as fervorosas e provocativas discussões que eram consideradas “rebeldes” é o que faz mover a história, fazendo com que os diálogos sejam o principal fio condutor da narrativa. E não se enganem, pois, Davies almejava ser tão fiel ao período retratado, que a verborragia dos personagens podem às vezes soar artificial para a época atual, porém seu conteúdo é afiado, desafiador, reflexivo e transcende qualquer período histórico que posso mencionar aqui. É visível, portanto, o pouco progresso que fizemos, uma vez que nos damos conta que as questões levantadas, como guerra, família, o papel da mulher na sociedade, o machismo ou até mesmo a religião em uma sociedade patriarcal que nunca na realidade deixou de existir por completo poderiam simplesmente ser retomadas atualmente como uma discussão necessária.

Além das Palavras (Créditos: Cineart Filmes)

Conhecida como a mulher reclusa, percebemos gradualmente o confinamento de Dickinson em sua casa e como de alguma forma ele agrava o seu estado mental como sua ambivalência em relação a determinados temas que tornam sua personalidade mais difícil e complexa de se definir. Por exemplo, o fato de em um momento, a protagonista declarar preferir ficar em casa com a família e trabalhar enquanto secretamente deseja se casar e viver um romance, ou o fato de acabar uma amizade de longa data apenas pelo fato de a amiga ter se casado. Mas o que mais se destaca é sua constante batalha e frustração ao ver suas obras publicadas em um único jornal e de forma anônima, que somente teve êxito pelas relações do pai com os editores, pelo fato de simplesmente ser mulher. Historicamente, mulheres jamais poderiam ser escritoras, motivo pelo qual também muitas optaram por utilizar pseudônimos e é algo que Davies teve grande consciência de enfatizar e pontuar este problema.

Destaco aqui alguns belos movimentos com a câmera, como, por exemplo, o travelling frontal que anuncia a passagem dos anos enquanto envelhece os personagens, por meio de uma fusão de planos que substituí os atores de forma magnífica e fluída. Além disso, as lentas panorâmicas utilizadas estudam os mais vários comportamentos de cada membro da família enquanto a câmera gira em torno de seu próprio eixo são maravilhosas. O ritmo empregado é nada apressado, já que a impressão que se passa aqui é como estar enclausurada entre quatro paredes faz Dickinson degradar a si mesma, o que traz ao diretor a oportunidade perfeita para explorar os cenários da mansão optando por planos fechados e constantemente fixos, mesmo quando a personagem contempla o ambiente para fora da janela. O seu trabalho, portanto, se recusa propositalmente em deixar que a movimentação da câmera influencie o espectador, já que o almejado, como já mencionado, é criar uma reflexão a partir do conteúdo e das ideias enunciadas nos diálogos. O longa de Davies, portanto, é um mergulho profundo nos sentimentos e idealizações de Emily Dickinson, é uma jornada meticulosamente pensada a cada momento, cada ideia abordada pela poeta.

Além das Palavras exerce uma abordagem intelectual e instigadora que dificilmente irá agradar ao espectador que busca no cinema um escapismo com uma narrativa fácil. Mas sua relevância para os dias atuais o torna uma obra extremamente relevante e obrigatória.

Por admin, 26 de abril de 2017
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