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Em Comédia, Festivais

Crítica: À Sua Completa Disposição (Je Suis à Vous Tout de Suite, França, 2015) | My French Film Festival

  • 8 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: À Sua Completa Disposição (Je Suis à Vous Tout de Suite, França, 2015) | My French Film Festival
Rating: 3.5. From 1 vote.
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Dirigido por Baya Kasmi. Roteirizado por Baya Kasmi e Michel Leclerc. Elenco: Vimala Pons, Mehdi Djaadi, Agnès Jaoui, Ramzy Bedia, Laurent Capelluto, Camélia Jordana.

Sejam bem vindos à realidade de uma família, que mora nos subúrbios de Paris: a mais diferente e envolvente do festival.

A história começa com a apresentação de nossa protagonista: Hanna (Pons), de 30 anos de idade, que não sabe dizer “não” para as pessoas, por conta de uma neurose da bondade que acompanha ela desde a infância. Essa “síndrome” afeta os outros membros de sua família: O pai (Bedia), um argelino proprietário de um pequeno mercado local que faz de tudo para agradar seus clientes; sua mãe, Simone (Jaoui), é uma psicóloga francesa que atende em domicílio. Hakim (ou Donnerdieu – Djaadi), seu irmão, é o único que aparentemente não está na mesma sintonia, inclusive, pelo distanciamento com sua irmã há anos.

É um filme que diverte e encanta, sem dúvidas. Com um primeiro ato, contudo acelerado, explicando a história da família através dos olhos de Hanna, percebemos várias nuanças interessantíssimas que enaltecem uma sociedade, um mundo repleto de pessoas maliciosas e aproveitadoras e como cada vez mais pessoas de bom coração são raras. Justamente por tratar a “bondade” como uma “doença” ou uma “síndrome” sem cura, é que podemos nos deleitar com as mais diversas situações. Simone faz tratamentos psicológicos de graça, pensando na necessidade do paciente; Omar é constantemente enganado pelos clientes que não querem pagar pelos produtos de seu mercado, e ainda surta quando não consegue satisfazer a cliente que procura uma jaqueira para comprar, por não haver em estoque. Nada é visto com malícia ou segundas intenções em seus olhos e pelo mesmo medo de dizer “não”, acaba por exemplo adiando um programa com os filhos para ajudar outros. Hanna, por sua vez, é uma personagem que não quer contrariar ninguém, ainda que a confundam como outra pessoa conhecida ou, no caso mais extremo, com uma prostituta. E o mais irônico de suas características é sua profissão: uma gerente de recursos humanos que tem como função demitir pessoas. Como acalmar os nervos e as mágoas de seus funcionários que acabam de receber a tão devastadora notícia? Ora, fazendo sexo com eles. E com uma reputação aparentemente já firmada, é engraçadíssimo ver um homem que ardilosa e propositalmente fica arrasado com o fato de que seu contrato temporário acabou. A comicidade, portanto, está presente na inocência e na boa vontade de seus personagens, o que funciona muito bem.

Outro aspecto é a crítica da percepção deturpada que muitas vezes as pessoas fazem umas das outras. Hanna se veste com roupas muito curtas, e tem amigas prostitutas. Isso faria necessariamente dela uma também? Se ela fosse realmente, seria algo ruim? Afinal, pela própria interação com suas amigas podemos notar como todos, de uma maneira geral, possuem camadas muito mais profundas do que as julgamos que elas tenham e, de certo modo, é por esse pré-conceito que muitas vezes acabam se unindo. É dessa forma, por exemplo, como o médico de Hanna, Paul Martin (Capelluto), defende ela e suas amigas de um homem agressivo e abusivo que, para este, não lhe interessava se a moça está fazendo um descanso antes do próximo cliente, ele exige sexo.

À Sua Completa Disposição

Se por um lado Hanna traz a sexualidade e os abusos do homem, seu irmão Hakim traz a religiosidade na outra ponta. Apesar do clichê “saí das drogas e encontrei a salvação no divino”, é muito divertido quando presenciamos seu chefe lucrar em cima de seu pai com produtos de luxo que não valorizam realmente a religião, e, por meio desta situação, consegue fazer uma crítica de ambos os lados: o fanatismo e o extremo oposto: a sua vulgarização. Neste quesito, a criatividade da direção é Kasmi é tamanha a ponto de projetar  um lindo e expressivo plano fixo que coloca lado a lado a esposa de Hakim, Kenza (Jordana), fumando (o que é mal visto pela religião) e a vizinha prostituta que compartilha do cigarro. Uma cena tão natural e completamente ausente de preconceitos.

Mesmo acertando em suas ironias cômicas, este é um tipo de filme que tenta abordar inúmeras questões sérias e mais amenas ao mesmo tempo: desde o abuso sexual infantil, discriminação, religiosidade até os casos amorosos e familiares. Devido às situações tão delicadas aqui retratadas, é que o longa transita entre o tom dramático e o cômico e, embora conceda um espaço merecido a ambos, peca em achar o seu principal foco de estudo, tratando, pois, certos temas com um pouco de superficialidade e alguns clichês. E não critico este ponto como um desleixo de roteiro, mas sim pela sua intenção de abraçar tudo.

Neste aspecto, o relacionamento entre Hanna e o médico se torna bastante previsível, na medida em que a personagem evolui da menina-livre-e-revoltada-que-se-veste-inapropriadamente-para-chamar-atenção até a imagem da menina-comportada-que-achou-o-amor-mesmo-se-negando-a-ser-feliz. Da mesma maneira, o real motivo do conflito entre ela e seu irmão é transparecida em uma cena anticlimática, com uma justificativa exagerada, mas ao menos, com uma possibilidade de reconciliação melhor desenvolvida.

Com personagens cativantes e sinceros, À Sua Completa Disposição é essencial para trazer certo alívio em um mundo, cuja maldade, mesquinhez, malícia estão cada vez mais presentes. Um lugar hostil e individualista, que é pouco solidário com aqueles em sua volta. Talvez este olhar “inocente” e “puro” – no bom sentido – traga alguma esperança para nós.

É o que todos precisam.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por admin, 8 de fevereiro de 2017
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