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Em Faroeste

Crítica: A Qualquer Custo (Hell or High Water, EUA, 2017)

  • 13 de fevereiro de 2017
  • Por admin
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Crítica: A Qualquer Custo (Hell or High Water, EUA, 2017)
Avaliação: 5.0. De 1 voto.
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Dirigido por David Mackenzie. Roteirizado por Taylor Sheridan. Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Gil Birmingham, Dale Dickey, Katy Mixon, Kevin Rankin, Taylor Sheridan, Margaret Bowman, Marin Ireland, John-Paul Howard.

A Qualquer Custo é daqueles filmes com uma história extremamente simples em sua superfície, mas que nos seus detalhes e entrelinhas o faz ser merecedor de cada indicação ao Óscar de 2017. Trazendo um ar moderno aos westerns de antigamente, o longa conta história de dois irmãos Toby (Pine) e Tanner Howard (Foster), os quais passam a roubar pequenas filiais de bancos de grande porte nacional em cidadezinhas do interior do Estado de Texas nos Estados Unidos. Enquanto isso, acompanhamos a jornada de dois policiais veteranos Marcus Hamilton (Bridges) e Alberto Parker (Birmingham), os quais iniciam paralelamente uma investigação para deter os criminosos.

Mas como mencionado, essa é muito mais do que uma história de perseguição. Em um lindo plano de 360º, Mackenzie nos faz sentir desde o início o contexto social e econômico do país: o protesto contra o Iraque registrado na parede, o ambiente empoeirado, vazio, e a fotografia em tons pastéis em marrom e verde, sendo que as únicas cores em tela que dão certo alívio acabam residindo nos tons de azul melancólico do céu ou do carro dos personagens. Essa ausência de vida nas cidades tão bem representada pelos planos abertos e panorâmicas empregados exterioriza exatamente o sentimento não somente em relação aos bandidos, mas também em relação à situação de toda uma população, cuja crise financeira se vê a mercê do crescimento exponencial do lucro de bancos, com seus outdoors de propaganda expostos, em meio a cidade, de empréstimos e outras maneiras para quitação de dívidas.

Deste modo é que o contexto moral dos dois irmãos é explorado pelo excelente e meticuloso roteiro de Sheridan: Tanner é um bandido insaciável, que aparenta possuir certa loucura, com inúmeras passagens anteriores por diferentes infrações pela polícia. É visível como ele é o que mais se arrisca durante os assaltos, já que não tem nada a perder. Toby, por sua vez, entra no mundo não pelos mesmos motivos, tal como vemos em sua linguagem corporal retraída e olhos preocupados, mas, na realidade, por necessidade. Admitindo terem sido engolidos pelo sistema (em certo momento ele afirma: “eu fui pobre, meu pai foi pobre, e o pai dele foi pobre(…)”) ele acredita que os atos criminosos seriam a única esperança em sua vida para o futuro de seus filhos, mesmo tendo plena consciência de que atos como estes nunca terminam bem. Esse sentimento de carência e pobreza é ainda mais ressaltado, por exemplo, quando uma garçonete se recusa a ter sua gorjeta confiscada pela polícia (mesmo sabendo ser fruto de roubo), sendo que o dinheiro “paga metade de sua hipoteca”. Portanto, se inicialmente eles eram vistos como vilões, percebemos pelas suas motivações que os assaltos não são executados simplesmente pela pura maldade, o que faz, até certo ponto, o espectador simpatizar com a causa de retaliação deles. Nota-se como, por exemplo, torcemos para que Toby não seja descoberto pela polícia durante uma blitz na estrada.

Jeff Bridges (à esquerda) e Gil Birmingham (à direita) em A Qualquer Custo

Da mesma forma, mergulhamos na vida dos policiais. É interessante notar pela interação dos personagens como Hamilton carrega sua experiência profissional quase como um fardo, sempre ofegante ou cansado, construindo, ao mesmo tempo, sua imagem heróica ou pelo cobertor que é vestido como capa, ou ainda pela maneira como caçoa de seu colega Parker, que possui ascendência mexicana e índia, não somente pelas suas origens, mas pela sua reduzida expertise, em relação ao primeiro, quando se trata de pegar bandidos.

A trama ainda conta com incríveis cenas de perseguição e de confrontos que nos remetem perfeitamente o ambiente dos filmes de Sergio Leone, conseguindo transformar A Qualquer Custo em mais um dos clássicos modernos de faroeste, ao não glamourizar ou hollywoodizar nenhum aspecto, como, por exemplo, ao projetar civis – vítimas do assalto – a tomar providências por si mesmos, utilizando das próprias armas, carros, ou celulares, como forma de proteção e vingança.

Incrivelmente competente e envolvente do começo ao fim, o próprio dinheiro, ou seja, o próprio objeto roubado pelos personagens principais revela-se literalmente como um McGuffin durante toda a narrativa, tendo em vista que a câmera de Mackenzie opta por se concentrar repetidamente nos rostos e expressões, assim como na interação e relação entre seus assaltantes e suas vítimas. Muito mais do que o roubo em si, o intuito é claro em evidenciar que o que está em jogo para eles é para além do benefício financeiro.

É uma obra-prima que faz um importante estudo social e moral sobre marginalidade e pobreza nos dias atuais.

Por admin, 13 de fevereiro de 2017
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