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Em Drama

Crítica: A Natureza do Tempo (En attendant les Hirondelles, França, 2017)

  • 18 de setembro de 2017
  • Por admin
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Crítica: A Natureza do Tempo (En attendant les Hirondelles, França, 2017)
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Direção por Karim Moussaoui. Roteiro por Maud Ameline, Karim Moussaoui Elenco: Hania Amar, Chawki Amari, Aure Atika, Mohamed Djouhri, Hassan Kachach, Nadia Kaci, Sonia Mekkiou,  Mehdi Ramdani.

Primeiro longa-metragem do diretor argeliano Karim Moussaoui, Until The Birds Return, no original, conta a história de três personagens masculinos distintos e separadamente. Neste contexto, o interessante e o que se destaca deste longa-metragem é como todos lidam com o seu mundo particular, principalmente pela relação que possuem com as mulheres no universo pós-moderno do país africano, pois acima de tudo, trata-se apenas de recortes de histórias de determinados momentos na vida de cada um deles e o desfecho cabe a nós imaginar.

Na primeira história acompanhamos o personagem Mourad (Mohammed Djouhri), um empresário enfrentando dificuldades financeiras, que está no meio de dois relacionamentos: um com sua ex-esposa e um filho inseguro com as escolhas profissionais, e a sua atual esposa francesa que tenta se estabelecer no país com grandes dificuldades. Conforme os deveres paternos surgem com maior frequência e demandam mais dele, a relação com sua esposa entra em conflito, já que Mourad pouco a inclui no cotidiano. Portando, aliado ao fato de estar em uma condição de estrangeira naquele local ao ser recusada em várias entrevistas de emprego, a amada se sente negligenciada pelo parceiro, motivo pelo qual declara sua vontade em retornar para o seu país natal. Os dilemas na vida de Mourad se tornam ainda mais impactantes quando testemunha, de longe, uma agressão física bastante grave, e, por ter sido omisso ao não chamar as autoridades no mesmo instante, acabando carregando sua conduta como um fardo nas costas.

Em seguida, temos o personagem Djalil (Mehdi Ramdani), o motorista de Mourad que lhe pede licença de seus serviços para realizar outro, qual seja, conduzir o pai, a mãe e sua filha Aicha (Hania Amar) até o casamento desta. Contudo, conforme a narrativa progride, percebemos que ele e a futura noiva não são tão estranhos um em relação ao outro, dividindo um passado em comum. Por fim, temos a história de um neurologista Dahman (Hassan Kachach), o qual fica indignado ao saber de um rumor sobre seu suposto envolvimento em um estupro coletivo por uma mulher que agora o busca na cidade, o que leva Dahman a confrontá-la pessoalmente sobre o ocorrido. Na sequencia, descobrimos que suas atitudes são bastante semelhantes à de Mourad.

A Natureza do Tempo: cenários do deserto representam degradação moral, social e política na Argélia.

O que este filme tem de fascinante é como as histórias se conectam. Trata-se de pessoas que se interligam entre si: Djalil é motorista de Mourad e, por sua vez, somos introduzidos ao personagem de Dahman posteriormente por meio de um taxista que conduzia Aicha novamente para a cidade. O longa termina com outro personagem que Dahman conhece.  Essa técnica de histórias que se sucedem não somente confere organicidade em torno do desenvolvimento narrativo por meio de uma montagem muito sutil, mas também constitui uma metáfora sobre como todos nós, como humanos, somos de uma forma ou outra conectados uns em relação aos outros, ou seja, nossas vidas se complementam,e como as pequenas atitudes que tomamos em nossas vidas podem definir o futuro de uma sociedade como um todo. É o que sempre diz o velho ditado popular: se cada um fizesse sua parte, o mundo seria bem melhor. Dessa forma, o arco dos personagens se define pela atitude que eles tomam no momento em que são confrontados com o seu passado.

Em relação às personagens femininas, é evidente que, em um país extremamente patriarcal elas se distinguem. A esposa atual de Mourad não se contenta em esperar pelo marido todas as noites; Aicha demonstra mais um espírito forte ao tirar o lenço para caminhar, dançar e tomar decisões por ela mesma (como, por exemplo, que ela mesma escolheu seu futuro esposo) e; uma vítima de estupro que se recusa a ficar calada. São particularidades de mulheres muito pouco representadas em decorrência da religião, mas que são fascinantes e intrigantes.

O contexto político e a mensagem que o cineasta tenta passar com essa abordagem é muito evidente. Por meio de planos contemplativos, notamos um país desgastado e imperfeito na zona urbana, enquanto podemos observar muitas ruínas em sua planície desértica na zona rural, o que denota os destroços deixados pela Guerra Civil Argeliana nos anos 90, contribuindo ao mesmo tempo para um cenário perfeito que, como resultado, simboliza de maneira eficiente o universo conturbado de cada um dos personagens.

Karim Moussaoui, portanto, garante uma carreira promissora com uma grande estreia em longa-metragens. Mal podemos esperar por mais obras do diretor.

Filme visto durante a cobertura do 45º Festival de Gramado de 2017.

 

Por admin, 18 de setembro de 2017
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