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Em Drama

Crítica: A Livraria (The Bookshop, Espanha/ Reino Unido/ Alemanha, 2018)

  • 23 de março de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: A Livraria (The Bookshop, Espanha/ Reino Unido/ Alemanha, 2018)
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Dirigido e roteirizado por Isabel Coixet. Beseado em The Bookshop por Penelope Fitzgerald. Elenco: Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Bill Nighy, Honor Kneafsey, James Lance, Harvey Bennett, Michael Fitzgerald, Jorge Suquet, Hunter Tremayne, Frances Barber, Gary Piquer, Lucy Tillett, Lana O’Kell, Nigel O’Neill, Toby Gibson, Charlotte Vega, Mary O’Driscoll, Karen Ardiff, Rachel Gadd, Richard Felix, Barry Barnes, Nick Devlin.

Adaptado do romance de Penolope Fitzgerald, A Livraria chega aos cinemas para contar a história de Florence Green (Mortimer), uma viúva que se muda para um pequeno vilarejo na Inglaterra para abrir uma livraria – a única na cidade até então, cujos habitantes fazem questão de afirmarem o quanto não possuem o hábito da leitura. Mesmo contra a vontade de importantes figuras políticas que desejam transformar o mesmo imóvel adquirido pela protagonista em um centro de artes, Florence abraça seu projeto com ajuda de pequenos aliados.

A Livraria possui um design de produção muito competente que retrata bem à sua época, além de contextualizar uma população impactada e abalada pela realidade que trouxe a guerra tendo como consequencia o decadente desinteresse nas artes em geral, sobretudo a literatura. O estilo pomposo da sociedade sobressai com suas cores vivas em oposição às cores mais pálidas da fotografia para os moradores mais humildes. Interessante também observar o preconceito e o descaso com Florence nos minutos iniciais, quando em uma festa, a protagonista vestida em um “bordô profundo” (simbolizando a paixão que possui pelo seu projeto) é desafiada e diminuída por um comentário de um dos convidados, afirmando que a cor vermelha é a cor usada por empregadas domésticas em dia de folga.

O grande problema em sua narrativa é a constante necessidade de narração em off para preencher lacunas que deveriam ser trabalhadas imagéticamente. É como se Coixet almejasse misturar ou complementar a narrativa literária com a cinematográfica, mas é um recurso que  não dá certo, e, ao invés disso, dá a impressão de uma decupagem truncada e pouco orgânica.

Em relação à trama, o longa começa como uma interessante provocação sobre a importância de ler, tanto para os adultos que não vêem nisso uma atividade prazerosa, mas ao contrário, bastante entediante, e também para os mais novos, os quais sequer são estimulados pela escola a procurarem os livros. Mencionando ainda o romance Fahrenheit 451 escrito por Ray Bradbury, cuja trama também envolve uma população que repulsa os livros, o filme fazia um paralelo interessante e uma ótima oportunidade de discutir o papel que a literatura possui em nossas vidas. No entanto, essa é uma abordagem que nunca se aprofunda ou vai além de pequenos conflitos pontuais dentro de sua narrativa, como uma menina que odeia livros ou um idoso solitário que passa seu tempo livre sempre com uma boa obra em suas mãos.

A Livraria (Créditos: IMDb)

 

Na realidade, o descuido é tanto, que nenhum momento a protagonista insiste em defender a importância dos livros ou sequer se preocupa se seus clientes lêem ou não. Ela não está aí para revolucionar a forma como percebemos os livros e como encaramos a literatura, mas sim para lutar pelo seu próprio negócio.

Neste sentido, aposta-se em uma ridícula discussão sobre fazer ou não um centro de artes no local, o que é completamente contraditório. Em um determinado momento, Florence se relaciona com Edmund Brundish (Nighy) e se identifica com ele pela paixão que ambos têm em comum pelas letras. Contudo, o personagem ridiculariza a ideia do centro público de artes afirmando que a região simplesmente não precisaria disso, o que precisaria seria a livraria de Florence.  Ora, a literatura não é também por si só uma forma de arte? Realmente o público não se beneficiaria com um projeto público de desenvolvimento de vários outros tipos de arte em detrimento dos lucros almejados pela protagonista? Parece-me uma discussão bastante pífia dentro da narrativa e uma postura um tanto quanto maniqueísta ao criar um antagonismo em torno de Florence condenando a própria arte em geral em prol do empreendimento particular lucrativo, inclusive apenas para que uma parte restrita de seus habitantes tivesse acesso.

Além disso, é preocupante uma mulher que estabelece uma relação afetiva com um idoso que tem idade para ser seu pai ou seu relacionamento com as crianças, por serem as únicas que ajudam ela com trabalho manual como organizar o estoque de livros ou no atendimento a clientes e até montar seus móveis. Claro, porque é muito saudável crianças de menos de 10 anos manusearem pregos, martelos, pedaços de madeira pesados e outros aparatos do que contratar ou pedir ajuda dos próprios adultos. Dessa forma, o trabalho infantil é escancaradamente defendido e, ainda, quando confrontada a sua ilegalidade, o assunto é tratado como uma ofensa à boa-fé da protagonista.

Assim sendo, os personagens em sua volta são irritantemente caricatos e unidimencionais. Eles apenas existem para ajudar ou atrapalhar Florence em sua empreitada e nenhum deles, nem mesmo a protagonista, consegue transmitir uma mensagem que valha seu discurso ou sequer o nosso tempo em 112 minutos.

A Livraria é um por fim um filme com um forte título, mas com uma péssima narrativa.

Por Gabriella Tomasi, 23 de março de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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