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Em Fantasia

Crítica: A Forma da Água (The Shape of Water, EUA, 2018)

  • 29 de janeiro de 2018
  • Por Gabriella Tomasi
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Crítica: A Forma da Água (The Shape of Water, EUA, 2018)
Rating: 4.0. From 1 vote.
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Dirigido por Guillermo del Toro. Roteirizado por Guillermo del Toro, Vanessa Taylor. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Lauren Lee Smith, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer.

A Forma da Água fez história no cinema, pois em 2018 quebrou o recorde de 13 indicações ao Oscar, inclusive na categoria de Melhor Filme e é um dos favoritos a sair vencedor em várias delas. O cineasta mexicano Guillermo del Toro, mais conhecido pelo seu filme O Labirinto do Fauno (2006) e Hellboy (2004), nos traz mais um enredo de fantasia, suspense e conto de fadas. Na trama, ambientada nos anos 60 em plena Guerra Fria, Elisa (Hawkins) é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório, onde um animal exótico da Amazônia (Jones) foi levado para ser dissecado. Quando Elisa se apaixona pela criatura, ela elabora um plano para ajudá-lo a escapar.

A maior conquista de del Toro neste longa é falar, essencialmente, sobre minorias, sobre preconceitos e como lidamos com o “diferente”. Neste aspecto o roteiro desenvolve lindamente todos os dramas de cada personagem: Elisa é muda e, portanto, vive isolada das demais pessoas, tendo como única amiga Zelda (Spencer) e seu vizinho Giles (Jenkins). Já este, possui um “segredo” que descobrimos mais tarde na narrativa e passamos a entender melhor por que ele compartilha da mesma solidão da protagonista e por que ele é “condenado” a viver “escondido”, como se ambos estivessem inseguros de se exporem ao mundo. Strickland (Shannon), por sua vez, é a reencarnação de nossos preconceitos, de todos os medos, angústias e frustrações que advêm deles, se revelando tão frágil quanto os demais.  Não é à toa, pois, que superficialmente ele pareça forte, polido, potente, vivendo o “sonho americano” com sua esposa troféu, mas em contrapartida seus defeitos aparecem fisicamente (reparem que ele é quem mais se acidenta no filme) e sua vaidade vai decaindo, como seus dedos apodrecendo cada vez mais que ele se sente ameaçado pelas pessoas em sua volta.

Tampouco é à toa o fato de Strickland se sentir atraído por Elisa, já que nela ele vê aquilo que não possui: a inocência, bondade e simplicidade, o que inclusive o motiva ainda mais de mostrar poder na frente dela. Por fim, o “monstro” evidentemente sofre preconceitos em relação ao medo do humano à diferentes espécies, ao desconhecido e imprevisível, portanto, o que não pode controlar e então ele é interpretado como ameaça. Tal abordagem também era a temática principal de A Chegada (2017), na qual cientistas tentavam entender os propósitos de alienígenas na terra. Assim, o perigo que este monstro corre igualmente depende de compaixão e de comunicação, algo que é desenvolvido por meio da relação entre ele e Elisa por gestos e sinais, e posteriormente conquista Giles, justo por essa identificação entre minorias de diferentes “espécies”.

A aproximação do anfíbio com Elisa em A Forma da Água faz a fotografia sair das cores cinzas e azuis (como na imagem de capa acima) para tons quentes do vermelho na luz e no figurino (Créditos: IMDb)

O design de produção é outro aspecto impecável deste longa, o qual ambienta perfeitamente o contexto sócio-político da época e, ainda, utiliza a fotografia para complementar isso. Reparem nas cores do figurino e iluminação do laboratório: são cores sujas, tons de cinza e azul para ressaltar esse ambiente tóxico e deprimente. Conforme a aproximação acontece entre Elisa e o anfíbio, as cores se tornam mais saturadas, quentes e o figurino da protagonista nos momentos finais é recheado de tons de vermelho, representando essa paixão crescente pelo animal. 

O mais impactante, contudo, é a metáfora da água que se cria no filme e que dá sentido ao seu título. Por ser uma história de amor, a água se comporta da mesma forma, pois ela não se define, ela se expande infinitamente e é ausente de preconceitos. Reparem também como a água aparece nos momentos mais apaixonantes entre os personagens: o primeiro contato de Elisa com o anfíbio é através da água, assim como os momentos de paixão; o cientista Hoffstetler (Stuhlbarg) defende sua paixão e ética por sua carreira embaixo da chuva; a cena mais terna entre Giles e o anfíbio também ocorre na presença da água. Nãos se deve esquecer que Elisa igualmente tem uma história com este elemento na sua nascença, cujas marcas no pescoço se revelam uma grande e linda pista-recompensa ao final.

Mas del Toro não nos entrega uma obra perfeita, ela de fato tem algumas falhas, como por exemplo, um número musical realizado por Elisa que se revelou completamente desnecessário e o ritmo apressado de alguns momentos, os quais consequentemente não tiveram um desenvolvimento mais aprofundado como a relação inicial que se estabelece entre Elisa e o anfíbio no laboratório. Por vezes a impressão que fica é que há mais uma curiosidade da protagonista do que um real interesse. Além disso, há um grande descaso com alguns personagens do elenco coadjuvante, sendo o caso mais grave deles o papel de Octavia Spencer. Sua presença meramente cômica e de apoio à Elisa nos faz questionar o motivo pelo qual a atriz fora nomeada na categoria de Atriz Coadjuvante, já que Zelda jamais possui um espaço relevante na narrativa que lhe permitisse se desenvolver melhor.

Apesar dos defeitos, A Forma da Água é, mesmo assim, um poderoso filme sobre diversidades, sobre amor, compaixão, sobre o bem. Por toda sua delicadeza e sinceridade, sua história não poderia ter sido contada por outro diretor senão Guillermo del Toro.

 

Por Gabriella Tomasi, 29 de janeiro de 2018 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

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