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Em Drama

Crítica: A Cabana (The Shack, EUA, 2017)

  • 10 de abril de 2017
  • Por admin
  • 5 Comentários
Crítica: A Cabana (The Shack, EUA, 2017)
Avaliação: 2.0. De 1 voto.
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Dirigido por Stuart Hazeldine. Roteirizado por John Fusco. Baseado em A Cabana por William P. Young. Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Aviv Alush, Radha Mitchell, Alice Braga, Tim McGraw, Sumire Matsubara, Megan Charpentier, Gage Munroe.

O filme A Cabana é originalmente um livro de título homônimo escrito pelo canadense William P. Young, lançado em 2007 nos Estados Unidos. Após ter sido consolidado como um best-seller literário, tendo vendido até então mais de vinte milhões de exemplares, naturalmente a indústria cinematográfica obteve a oportunidade de fazer sua adaptação e, dez anos mais tarde chega às telas dos cinemas brasileiros o longa tão esperado. Baseados nas próprias experiências de vida do autor, acompanhamos a jornada de Mackenzie (Mack, interpretado por Sam Worthington) Phillips para superar e curar-se emocionalmente de uma tragédia, qual seja, a morte de sua filha mais nova Missy.

Infelizmente, desde o início o filme possui problemas narrativos de estrutura em sua execução. O primeiro ato extremamente fragmentado e acelerado apenas faz uso de flashbacks para abordar alguns pontos principais da vida de Mack em sua infância e, desta forma, o roteiro claramente o estabelece como uma vítima de abusos de seu pai. O resultado, todavia, prejudica tornar crível a mudança repentina de opinião do protagonista mais tarde por não dar mais camadas ao personagem, principalmente para aqueles que não estão familiarizados com a história do livro.  Até porque, o roteiro gira em torno de fazer Mack crer que está realmente vendo personificações físicas de Deus (Spencer), Jesus (Alush) e o Espírito Santo (ou Sarayu – Matsubara), enquanto trabalha efetivamente as dores internas. Mas quando tenta desenvolver ambas juntas acaba não desenvolvendo nenhuma das duas de forma apropriada, como se não quisesse lidar com o assunto.

Mas ainda que possua uma temática interessante do ponto de vista religioso, ainda foi possível explorar alguns questionamentos válidos, como a “existência do mal” na Terra. Contudo, é incompreensível que o material pregue e estimule diversas vezes valores contraditórios por meio de jogo de perguntas e respostas sem querer explorar os significados de suas assertivas. Se por um lado temos um jovial Jesus que rejeita a ideia de “escravos” seguidores de sua própria doutrina; ou então o fato de que Deus, conforme os próprios ensinamentos da personagem interpretada por Octavia Spencer é uma figura tão universal que possui vários nomes ao mesmo tempo em que não possui nenhum, o que nos transmite a ideia de que de alguma forma todas as religiões se conectam e, portanto, são iguais em sua essência; por outro lado nós testemunhamos posteriormente a Sabedoria (Braga) desconstituir todos esses valores ao final, ou seja, desaprender tudo o que tínhamos aprendido até então com seus sermões para reforçar o catolicismo como meio de salvação do mal, como ser “bem” ou ser “mal” depende se você é cristão ou não.  

A Cabana (Créditos: IMDb)

Em relação ao elenco multirracial da Santa Trindade, de fato foi essencial para que se desconstituísse a péssima visão caucasiana que a Igreja construiu suas figuras centrais em toda a sua história de existência, especialmente tendo em vista o retrato da família “tradicional” Phillips,  mas fato é que também o roteiro pretensiosamente se orgulhou disso desperdiçando tempo do espectador ao elaborar diálogos pífios para fazer Mack constatar que a aparência ou a fisionomia dos personagens não era nada do que ele imaginava toda vez que os encontra. Assim sendo, nada adianta fazer algo louvável ou inovador e ao mesmo tempo fazer propaganda do que se conquista, ao invés de encarar com mais naturalidade este elemento.

Essa ausência de capacidade em lidar exatamente com as várias questões que a história aborda, por conseguinte, também afeta no desenvolvimento da relação de Mack com sua outra filha Kate (Charpentier), a qual também se encontrou impactada com a morte da irmã. Aliás, como de fato a morte de Missy impactou todos e como cada um dos demais membros da família tentou lidar com a perda jamais fora abordada pelo roteiro além dos pontuais comentários de comparecer a um psicólogo, por exemplo, o que inclusive levou ao desfecho apressado e expositivo de um monólogo do assunto com a filha. A preguiça é tamanha, que o roteiro sequer justificou de maneira satisfatória a ausência da esposa e os dois filhos, que permanecem semanas longe de casa, apenas informando para onde vai sem nem ao menos sabermos o porquê e para quê, apenas esperando que o espectador aceite tais informações de prontidão.

Mesmo com uma grande história em suas mãos, A Cabana, por fim, transforma seus cento e trinta e dois minutos de projeção em uma jornada que não ousa aprofundar o próprio tema que discute.

Por admin, 10 de abril de 2017
  • 5
5 Comments
  • Emma Bueno
    23 de abril de 2017

    Quando vi que você havia feito a crítica fiquei ansiosa par ver o filme.
    No final, você traduziu em palavras minha insatisfação.
    Sou sua fã, como sempre digo!
    <3

  • FERNANDO MEDINA
    24 de abril de 2017

    Gabriella, quando fui assistir ao filme ontem à tarde, esperava mais dos diálogos entre Mack e Deus. Na verdade, o fato de o Criador ser uma mulher e negra não me causou espanto, porque em tempos em que se fala no politicamente correto, esta versão foi apropriada, mesmo porque, o Pai da humanidade se viesse à Terra, não escolheria uma caracterização ou outra, possivelmente. Todas seriam consideráveis. Entretanto, voltando aos diálogos entre Mack e Deus, ou entre Mack e o Espírito Santo, achei-os pouco profundos, sem uma argumentação mais convincente. Acredito que o roteiro poderia ser bem mais elaborado, levando-se em consideração que o filme demorou uma década para a adaptação do livro de William Young. Embora não seja um crítico de cinema, mas apenas um espectador, e uma pessoa religiosa — senti um vazio ao assistir à fita, faltou algo, não saí satisfeito do cinema.

    • admin
      25 de abril de 2017

      Olá Fernando, tudo bem?
      É uma interpretação válida. Apenas gostaria de esclarecer que em minha análise e opinião o elenco multirracial é um fator positivo e necessário à trama, mas a diferença está na forma de como foi tratado pelo roteiro.
      Obrigada pelo comentário.

  • Mantunesjr
    17 de maio de 2017

    Você entendeu o fato de Deus não se ater a apenas um nome ou forma como o fato de todas religiões estarem conectadas? Muito raso! Você conhece a etimologia da palavra religião? É algo que partiu dos homens para Deus, e não o contrário. No filme, Jesus aborda o assunto como algo “cansativo” e “improdutivo” e é o que realmente é. A ideia por trás de Deus não ter apenas um nome ou forma é muito mais representada no sentido dEle não estar limitado a corpo, tempo, nomes ou lugar. Quanto à Sabedoria supor que cristãos usufruem da Salvação, nada anormal em uma película baseada em última instância na Bíblia, que contém expressões a respeito de Jesus como “Eu sou o caminho” e “o Cordeiro de Deus que salva o mundo”.

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