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Em Terror

Crítica: A Bruxa (TheWitch, EUA, 2016)

  • 14 de novembro de 2016
  • Por admin
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Crítica: A Bruxa (TheWitch, EUA, 2016)
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Nota: 4,5/5,0*   

Direção e roteiro de Robert Eggers. Elenco com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson.

Ambientado no século XVII, em New England, nos deparamos com uma família de imigrantes da Inglaterra, mãe Katherine (Kate Dickie), pai William (Ralph Ineson), filha mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy), o pré-adolescente Caleb (Harvey Scrimshaw), os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) e o bebê Samuel, para povoar o “novo mundo”. Contudo, a cena inicial nos mostra ela sendo julgada por um tribunal de uma pequena vila que os acusa de heresia, justamente devido a divergências de como o evangelho deveria ser praticado.

Expulsos daquele povoado, o pai William aceita sem qualquer protesto e se desloca com sua família à beira de uma floresta, com a esperança de poder viver e servir a Deus da forma como sempre quis. No entanto, tudo muda quando o filho pequeno Samuel desaparece de uma forma inexplicável aos olhos da família. Para onde ele teria ido? Será que ele morreu? Será que ele está no inferno ou nos braços de Jesus? Será que é uma punição por não ter sido nunca batizado?

Estes questionamentos são trazidos pela intenção de aprofundar um estudo muito mais sério da sociedade do que simplesmente nos trazer o medo e o mistério. Meticulosamente estudada por autênticos documentos históricos e relatos, o diretor tenta explorar a questão da religiosidade. A partir do momento em que Samuel desaparece, a plantação não dá colheita e os mamíferos não dão mais leite. Quase sem comida, se tenta dar uma explicação divina para todo aquele fracasso e, por achar que toda a desgraça vem dos próprios feitos, busca-se uma purgação dos pecados para a salvação. Ocorre que, como já visto em vários outros filmes como o mais famoso Exorcista, a presença demoníaca serve exatamente para testar a fé das pessoas, visto que é esse tipo de fraqueza que ela se alimenta.

Neste caso, a personificação dessa figura é executada sob várias formas sem que conheçamos a sua verdadeira: a humana, em um bode, uma cabra, um coelho, Black Phillip, etc. Sua identidade também é retratada por trás de grandes referências como a dos Irmãos Grimm: chapeuzinho vermelho – cujo capuz é bastante destacado pela cor vermelha, representando o sangue – e, inclusive, a figura da bruxa de João e Maria por se concentrar nas crianças em específico.  Isto demonstra, por conseguinte, que o filme não utiliza métodos convencionais para criar momentos de tensão. É aquele terror velado, que contamina e influencia a mente das pessoas, as manipula, utiliza de artifícios para controlar a ignorâncias delas, sem precisar que ele te dê sustos ou crie um monstro ou uma entidade. É o que vemos, por exemplo, em O Iluminado.

Mas outra questão igualmente muito importante na qual a trama foca, é a ausência de controle ou explicação para tudo o que acontece com a família. Assim, todos acabam culpando injustamente Thomasin, pelas suspeitas de que ela poderia estar fazendo bruxaria – muito embora negue veemente qualquer envolvimento. E ela é exatamente o símbolo da sexualidade, representado pelos olhares de seu irmão Caleb; ela é quem mais sofre a opressão e a pressão da castidade; da devoção. E muito embora ela tente com todos os esforços ser perfeita nos olhos dos pais e de Deus, os momentos de “liberação”, nas quais ela diz a verdade, diz o que pensa, e externa seus sentimentos de alguma forma sempre a prejudica posteriormente, uma vez que é sempre interpretado como ato de rebeldia, de petulância, de desobediência, o qual remete ao Diabo. Esta opressão enfatiza muito a reflexão que Eggers fez do pensamento e a cultura do que era ser mulher durante o período colonial.

O resultado é de uma obra maravilhosa que emprega e explora o medo da escuridão, do desconhecido, que a narrativa imagética conseguiu conduzir brilhantemente. Os planos sempre muito bem retratados da competente fotografia de Jarin Blaschke que não economizou nas cores frias, pálidas, escuras. A iluminação natural do pré-inverno, os contrastes profundos enaltecem o ambiente sombrio de cada cena,  e, juntamente, com a trilha sonora de Mark Korven intensificou essa experiência.

Dificilmente encontramos um filme de terror que consegue ter um impacto tão grande em seus espectadores como este.

Por admin, 14 de novembro de 2016
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