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Em Fantasia

Crítica: A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, EUA, 2017)

  • 17 de março de 2017
  • Por admin
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Crítica: A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, EUA, 2017)
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Direção por Bill Condon. Roteirizado por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos. Baseado em Beauty and the Beast da Disney de Linda Woolverton. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Kevin Kline, Josh Gad, Audra McDonald, Gugu Mbatha-Raw, Stanley Tucci, Hattie Morahan.

 “A Bela e a Fera” surgiu historicamente a partir de um conto escrito em 1756 pela francesa Gabrielle-Suzanne Barbot e desde então ganhou adaptações no teatro e a na televisão. No cinema, por sua vez, conta atualmente com seis versões, sendo a primeira e mais antiga realizada no ano de 1946 dirigida pelo francês Jean Cocteau e René Clément. A mais famosa, no entanto, é a adaptação animada em 2D de 1991 por Linda Woolverton, e executada pela Disney, que realmente ganhou um reconhecimento mundial, integrando a Bela dentre as princesas mais amadas de nossa infância. Em 2017 a empresa decidiu apostar pela sétima versão do conto agora em live-action.

A história contada é essencialmente a mesma: Bela (Watson) é uma jovem mulher que se torna prisioneira da Fera (Stevens) no seu castelo no lugar de seu pai Maurice (Kline), por este ter roubado uma rosa da propriedade. Lá, ela descobre objetos mágicos e que a Fera é na verdade um príncipe preso em uma maldição. O romance que emerge é então perturbado pelo caçador narcísico Gastão (Evans), que quer fazer de tudo para pedir a mão de Bela em casamento.

Naturalmente, de todas as versões já realizadas, é que a Disney pautou sua premissa pela recriação de sua própria produção de 1991. Neste contexto, o longa é extremamente bem sucedido em dar vida, por meio de sua direção de arte, ao pomposo espetáculo visual de época, tanto pelos luxos do castelo e da realeza, quanto os ambientes mais humildes dos vilarejos. Da mesma forma, o figurino foi extremamente cuidadoso nas vestimentas dos personagens para conferir realismo, e possui ao mesmo tempo função narrativa, principalmente a dos personagens principais. Gastão, com suas roupas em vermelho, ressaltam a violência e a agressividade de sua personalidade; LeFou (Gad) se destaca pelo laço rosa, indicando amor pelo companheiro. E reparem como, em um determinado momento, a roupa da Fera de azul e branco um pouco mais pálidos, combina com o design do vestido azul vivo da Bela na biblioteca, demonstrando sintonia, justamente quando o romance está nascendo. Isso sem mencionar o famoso vestido amarelo de Bela, com detalhes em dourado maravilhosos.

As duas cores, na realidade, também contribuem para complementar a competente fotografia que utiliza a iluminação amarela e azulada para opor ambientes quentes e frios. Por exemplo, notem quando Bela se aproxima da rosa, pela primeira vez, o seu entorno é tomado pelo azul melancólico, mas no seu fundo, o quarto da Fera é dominado pelo tom quente do amarelo. É como se o frio da maldição cercasse uma alma essencialmente boa.

A Bela e a Fera (Créditos: IMDb)

Cometendo alguns deslizes pontuais de desenvolvimento de personagens como uma Feiticeira (Morahan) completamente deslocada e isolada na trama, o roteiro consegue superar em alguns aspectos ao não somente retomar a história clássica, mas igualmente introduzir novidades e inovações em sua estrutura. Neste sentido, o primeiro ato que, na versão animada explicava por meio de vitrais como o príncipe se tornou em Fera, nesta temos uma dramatização real do que de fato aconteceu. As canções e números musicais serviram para compor arcos dramáticos, e, nesta versão, o passado da Fera e a história da mãe da Bela são desenvolvidos. A conexão entre o pai e a protagonista é ampliada, assim como a paixão oprimida, ainda que nas entrelinhas, de LeFou por Gastão.  

Por sinal, é de se louvar o trabalho da Disney, a qual está empenhada em trazer diversidade e modernizar suas produções, o que está ocorrendo com mais freqüência. Tanto no elenco de apoio/figurantes que não se resumem em apenas homens brancos e heteros (aplausos para a cena em que um dos personagens gosta quando é colocado em roupas femininas), quanto o do protagonismo feminino por Emma Watson, cuja personagem se encontra em uma posição heróica e bem mais independente.  

No entanto, A Bela e a Fera peca por uma grande falha tanto de roteiro e, principalmente, de direção, que prejudica toda a sua obra. Como já dito, a Disney optou pela referência que tinha do longa por ela executado em 1991. Mas a semelhança não é tão sutil. Os mesmos planos, os mesmos enquadramentos dos personagens, e até os mesmíssimos diálogos são literalmente repetidos e irretocáveis nesta versão. Revejam novamente e comparem, por exemplo, a cena em que Bela vê pela primeira vez a Fera. O plano-detalhe da pata no chão, Bela dizendo “venha para luz” e ela se assustando logo após ver a criatura é exatamente do mesmo jeito em que foi feito em 1991. E quando digo “exatamente” é “literalmente”. Por conseguinte, o diretor Condon falha completamente em trazer um olhar novo para a trama ou uma identidade do seu trabalho, eis que em sua grande maioria mimetiza as cenas já feitas. E o resultado, é como se a Disney lançasse uma versão estendida de 45 minutos, na qual vemos o exato filme de 1991 com cenas extras.

Portanto, o filme depende muito da nostalgia da animação para funcionar.  E apesar de ser eficaz, somente esse sentimento não sustenta o longa sozinho para dizer que esta obra tenha qualidade e refinamento cinematográficos. Afinal, ninguém merece crédito por apenas copiar o trabalho do colega, adicionando alguns parágrafos, certo?

A computadorização, por fim, dos cenários é outro problema que obstaculiza a aproximação deles com o realismo, mas quem ficou realmente prejudicado pelo CGI foi a Fera, cujo trabalho preguiçoso muitas vezes faz notar os traços do rosto real do ator.

A Bela e a Fera acerta em tornar a sua história ainda extremamente relevante nos dias atuais, e se de um lado inova o seu contexto social, por outro lado a falta de originalidade compromete que a obra seja mais impactante.

Por admin, 17 de março de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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