Voltar para Página principal
Em Drama, Festivais

Crítica: 1992 (França, 2016) | My French Film Festival

  • 17 de janeiro de 2017
  • Por Gabriella Tomasi
  • 0 Comentários
Crítica: 1992 (França, 2016) | My French Film Festival
Rating: 4.0. From 1 vote.
Please wait...

Dirigido e roteirizado por Anthony Doncque. Elenco: Louis Duneton, Matthieu Dessertine, Alain Beigel.

A homossexualidade foi, durante muito tempo, simplesmente rechaçada pelo homem. Tratada ou covardemente como um comportamento pecaminoso ou como às vezes um ato de rebeldia contra os pais. Ou seja, por muitos e muitos anos de repressão, o movimento LGBT não fora levado a sério como deveria, muito embora esquecermos de que o amor entre duas pessoas de mesmo sexo é, obviamente, uma manifestação de amor como qualquer outra. Na indústria cinematográfica este também foi um tema bastante ignorado, mais ainda quando o tema envolvia a adolescência.

Felizmente, este cenário pavoroso muda e está mudando a forma de fazermos filme e, principalmente, para que possamos tratar com a naturalidade que deve ser, e alguns – inclusive recentes – longas como Carol e A Garota Dinamarquesa vieram para deixar a marca na história da sétima arte. Neste curta-metragem pelo francês Anthony Doncque, 1992, a emotividade é utilizada para explorar o tema, tornando-o uma obra maravilhosa.

Abrindo o festival francês de 2017, My French Films, este curta foi englobado dentro da categoria: “Coming Of Age” ou, em tradução livre: “O surgimento da idade”, ou “na flor da idade”. Ambientado em 1992, mais precisamente os eventos que ocorreram a partir do dia 31 de março daquele ano, o roteirista decide marcar a precisa data, como aquela em que tudo mudou na vida da adolescência de nosso protagonista Martin (Duneton), que mora sozinho com o pai (Beigel).

Naquele dia, após um ataque por seus bullys na escola, o personagem é auxiliado pelo monitor da escola Dominique (Dessertine). E por quem se apaixona.

1992-2

O ator Louis Duneton vive Martin em 1992

Nítidamente, pelo jeito retraído e calado de Martin, percebemos que ele é uma pessoa tímida, pouco sociável, até com seu pai. Portando a sua câmera, ele captura imagens que despertam a beleza de diversas coisas, e, deste modo, a escolha de Doncque foi acertada em transmiti-las ao espectador por meio de filmagem amadora, com efeito de uma câmera subjetiva que capta os mínimos detalhes, seja as linhas do corpo de um homem, seja uma lua-cheia que ilumina a escuridão. Aliás, a metáfora é apropriada, eis que Martin encontra luz após conhecer Dominique.

Por conseguinte, as experiências vividas pelo protagonista com seu novo amor, e a descoberta de sua identidade sexual permitem que a câmera o acompanhe nessa jornada, pela necessidade de registrar todos esses momentos. Para tanto, a utilização do referido aparato não é mera coincidência, uma vez que simboliza o cinema como uma fonte que igualmente desperta diferentes visões e paixões.

Da mesma maneira, não é à toa que 1992 carece de figuras femininas ou maternas que estejam próximas à vida de Martin ou que, ao menos em seus olhos, o influenciem de maneira significativa. São sempre observadas com certa distância ou desdém.  Essa abordagem serve para que seja ressaltada também a presença das sensibilidades do homem, seja no sexo, seja nos sentimentos incondicionais das relações familiares. Por meio disto, pretende-se desmitificar qualquer aspecto “ríspido” ou “machista”, como muitos homens costumam ou impõem-se ser vistos pela sociedade.

Outro aspecto muito bem abordado é a questão da própria juventude, marcada nos seus rostos cobertos por espinhas. Um período que, para muitos, pode representar uma tortura, em razão da constante necessidade da aprovação dos outros e do distanciamento que acontece, em relação aos seus pais. Esse fenômeno que faz com que muitas vezes estes se revelem pessoas alheias à vida de seus filhos. Neste contexto, o curta não poupou esforços em mergulharmos na relação entre o protagonista e seu pai. Se, em um primeiro momento, este se presta apenas para repudiar os desleixos do filho, em relação às suas tarefas e obrigações, ele ao mesmo tempo se demonstra uma figura paterna devota, preocupada, que o repreende motivado pela mesma afeição. Assim sendo, intencionando aproximar-se de seu filho, Martin, sempre tenta resgatar a conexão entre os dois personagens, para que ela nunca esteja perdida.

Finalizando em uma bela homenagem, 1992 é uma sincera carta de amor ao cinema e ao amor em suas diversas outras formas.

Texto originalmente publicado pela autora como parte de sua cobertura ao festival de cinema online francês My French Films.

Por Gabriella Tomasi, 17 de janeiro de 2017 Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Gabriella Tomasi

Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. É escritora e tradutora voluntária para a ONU.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@