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8 ½ Festa do Cinema Italiano no Brasil

  • 11 de setembro de 2017
  • Por admin
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8 ½ Festa do Cinema Italiano no Brasil
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O Ícone do Cinema teve o grande prazer e honra de fazer parte da cobertura do 8 ½ Festa do Cinema Italiano no Brasil, no qual pôde prestigiar a produção cinematográfica do país. Dentre os filmes exibidos e assistidos, todos possuem uma característica em comum: um olhar crítico sobre a sociedade e a política da Itália, durante uma época em que foram imensamente sufocadas e oprimidas pela violência gerada principalmente da máfia na região de Sicília.

Cada um dos filmes consegue tecer e desenvolver uma perspectiva única, mas que além de nos deliciar com as situações cômicas ou humor negro, nos fazem igualmente refletir sobre a própria situação do Brasil, percebendo que nossa realidade não foge muito daquele retratada nos filmes europeus.

Segue abaixo nossa crítica sobre cada um dos longas assistidos:

1) Em Guerra Por Amor

Em Guerra por Amor conta-se a história de Arturo, um homem italiano que vive em Nova York e está apaixonado por Flora. No entanto, sua amada já está comprometida com outro homem, o filho de um dono de restaurante no qual Arturo trabalha. Com a data do casório já marcada, Flora lhe conta que a única forma de ela não se casar é se o amado viajasse para Sicília, onde lá reside seu pai, e convencê-lo a aceitar a mão dela em casamento. Ocorre que, em uma época em que a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge e a Sicília como centro de toda a batalha, Arturo se vê compelido a se alistar para o exército norte-americano para adentrar à região e cumprir com sua promessa.

Dirigido, roteirizado e protagonizado por Pif, esta é uma história muito bem construída que, mesmo tendo uma história de amor em seu centro, é costurada e tecida por outras subtramas que desenvolvem críticas à guerra e que dialogam perfeitamente com o objetivo de Arturo de forma bem natural. Se dialogam é porque Arturo, embora tenha outras intenções ao entrar para o exército aliado, não significa que ele não se abale ou se afete pelo o que acontece ao seu redor. Tendo o tenente Philip Chiamparino como seu fiel braço direito nesta empreitada romântica, percebemos o quanto o superior do protagonista aos poucos se dá conta da corrupção envolvendo a tal “libertação do povo italiano das mãos do fascista Mussolini e do nazismo de Hitler”, na qual o governo soltava da prisão mafiosos perigosíssimos e muito poderosos para então nomeá-los a cargos públicos altos (fato este que é verídico na história da Itália). Da mesma forma, Arturo conhece um menino e se impacta com o drama vivenciado pelos moradores locais quando nota que o pai do garoto – prisioneiro do governo – possivelmente jamais retornará para casa, em outra subtrama.

Mas longe de tornar essa jornada em um melodrama, o humor sempre está presente no jeito desastrado do protagonista e outras situações que se revelam como críticas à sociedade interiorana e campesina italiana como, por exemplo, o “confronto” entre dois idosos em uma corrida até um abrigo que os protege dos bombeamentos, cada um com o objeto que lhe é mais importante: uma estatua de Mussolini e outro de uma santa virgem. Além disso, podemos achar graça no comportamento sexista de um dos homens da vila que, em um dos momentos mais caóticos e importunos, resolve olhar com malícia os decotes de uma mulher; ou então o auxílio de Arturo a dois cidadãos que estão sendo julgados por roubarem a bota de um soldado morto ou quando eles invadem a residência alheia em busca de comida (demonstrando, portanto, a fome e a precariedade das condições da população causadas pela guerra); o aprisionamento de um soldado que, sem querer, cai com o seu paraquedas na cama de uma moça de família e que, por essa “invasão do íntimo do quarto”, não poderá casar mais a filha de um fazendeiro; e, ainda, um sujeito que está há cinco anos de luto pelo irmão. É por meio da ironia e do tom cômico, por conseguinte, todas as situações criadas para denunciar o comportamento dessas pessoas.

Pif, dessa maneira, consegue nos envolver sem perder nenhum personagem ou nenhuma história de vista, em uma montagem que conecta uma história a outra tendo como ponto central a missão de Arturo. Com uma comédia delicada e até às vezes ingênua, o cineasta consegue subverter os valores de “democracia, liberdade e igualdade” tão defendidos pelo país estadunidense, sendo que, na realidade, está abrindo espaço para o controle da máfia. Nota: 4,0/5,0

2) O Fantasma de Sicília

O Fantasma de Sicília é um dos filmes que coloca como centro de seu estudo o controle da máfia naquela região. Se Em Guerra Por Amor nós evidenciamos sua ascensão, aqui se trata de ressaltar os horrores praticados por esse grupo e a opressão que a população enfrentava naquela época. Assim sendo, acompanhamos a história de uma garota de 13 anos chamada Luna que era apaixonada pelo seu colega de classe Giuseppe. Baseado na história real do menino Giuseppe Di Mateo que fora seqüestrado por mafiosos, em razão de que seu pai, ex-chefe da quadrilha se tornou informante da polícia, a trama verídica é narrada por um viés fictício, através dos olhos de sua protagonista. Mantido em cárcere privado durante dois anos, Luna tenta durante este tempo incessantemente encontrar seu amado que parece jamais retornar e, ainda, se incomoda com a falta de mobilização por parte da comunidade para encontrá-lo.

Neste longa, o tom fantástico prevalece em relação ao horror realista na medida em que se exploram em sua maioria os ambientes naturais. Se na natureza, ou no caso, na floresta, nós encontramos belos e inofensivos animais, nos sujeitamos à mais inocentes brincadeiras ou ali se torna o pano de fundo dos mais lindos momentos de nossa vida, como um beijo, o mesmo local pode se tornar angustiante, labiríntico e perigoso como, por exemplo, a presença de um cão raivoso que desconstitui a magia do lugar, representando inclusive essa quebra da alegria pela brutal realidade.

Não é à toa, pois, que os meios naturais em geral se tornam coadjuvantes da frustração de Luna em tentar resgatar o seu amado. Se em um primeiro momento a câmera de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza se concentrava em primeiríssimos planos na dinâmica entre o casal; já quando Luna está sozinha, por sua vez, os planos gerais se tornam mais claustrofóbicos e em uma perspectiva distorcida e grande angulares que nos dá a impressão de confusão e agonia mental da protagonista, ou seja, o sentimento de impotência. Lá também se torna o local onde Luna sonha, deseja, e reconstrói suas vontades em sua mente movida pelo desejo de final de feliz como em um conto de fadas que lhe parece cada vez mais longe de se concretizar, com uma intensidade que até mesmo o espectador passa a questionar o que é verdade ou não.

A fotografia e a seleção de cores para os cenários e figurinos contribuem muito para a sensação do que é real e o que é imaginário. Os tons naturais da floresta se mesclam com tons melancólicos do azul, bege e marrom que indicam um pesadelo tanto para Luna quanto para Giuseppe. O tom branco vivo das vestimentas deste, por sinal, se sobressai na paleta escura do ambiente justamente para ressaltar a figura angelical e a inocência em relação ao seu destino em um primeiro momento, para depois em outro ele vestir roupas cada vez mais cinzentas e pálidas demonstrando sua esperança cada vez menor, motivo pelo qual se apega à carta colorida de Luna deixada para ele.

Tentando ao máximo despertar a preocupação da sociedade em relação ao desaparecimento do garoto, Luna é aqui uma protagonista forte e frágil ao mesmo tempo. Forte, pois enfrenta a situação e não se vitimiza em nenhum momento, mas frágil, tendo em vista que suas tentativas sempre são duramente reprimidas ora pelos seus pais, em especial sua mãe, ora pelas pessoas em geral que parecem não se interessar sobre o ocorrido.

Fato é que às vezes o enfoque exagerado na vida pessoal de Luna, como sua relação com sua melhor amiga, ou com seus pais acaba atrapalhando e se distanciando do objetivo principal da trama que é, na realidade, o seqüestro do garoto e a sua paixão por ele. Mesmo assim, O Fantasma de Sicília é uma bela obra com uma forte carga metafórica como o significado da presença de uma coruja ou então a Lua refletindo sua luz sobre o lago representando tanto a morte quanto o amor partilhado pelos personagens principais. Até que o pessimismo dá espaço para o plano de um lindo sol sob as ondas de um vasto oceano, subvertendo essa imagem negativa das águas, e executada de maneira magistral pelos cineastas. Nota: 4,0/5,0

3) A Hora Oficial

A Hora Oficial é uma comédia de absurdos que traz um excelente e perfeito retrato dos comportamentos de uma sociedade e da política atual que além de se aplicarem à realidade italiana, não deixam de ser extremamente coerente com a da brasileira. Em uma pequena cidade na Sicília, podemos perceber o quanto o caos e a ausência de respeito pelas leis por lá impera já nos primeiros minutos do filme: em época de eleições, um carro mais humilde faz propaganda política de seu candidato pelas ruas da cidade e encontra de frente, em uma das vias, com outro carro luxuoso e grande fazendo o mesmo de outro concorrente que transitava naquele mesmo momento na contramão. O alarde é tanto que as dezenas de carros que estavam no sentido certo da via tiveram que se deslocar para abrir caminho para o único que não respeitava a sinalização.

Essa situação é apenas umas de tantas que observamos durante a trama: o lixo acumulado, os carros empilhados transitando da maneira como querem, a troca de favores, e o “jeitinho” para conseguir tudo fazem parte da rotina diária de uma população que se demonstra, pelos mesmos motivos, insatisfeita com a atual gestão de um prefeito que, mesmo em meio a acusações e escândalos de corrupção, compra de votos e desvio de dinheiro público envolvendo a sua pessoa, decide tentar se reeleger. Mas o sentimento de descontentamento representado nas manifestações da população e em uma faixa escrito “mudança” pendurada em um dos monumentos da cidade foi o suficiente para que seu principal rival, Natoli, ganhasse as eleições.

Ironicamente, a política 100% honesta do novo prefeito acaba surtindo um efeito não desejado, incomodando e fazendo infeliz um povo que até então estava acostumado com as brechas e favoritismos que o seu antecessor concedia a todos. Desde as questões mais discutíveis como o encerramento das atividades de uma empresa poluidora com a conseqüente perda de emprego por centenas de trabalhadores, até as mais bizarras, como a obrigação da reciclagem ou de recolher as fezes do cachorro; a sinalização de trânsito que os obrigam a pagar multas pelo descumprimento. O nepotismo enraizado pode ser observado quando as pessoas se revoltam por simplesmente não entendem por que os parentes do prefeito têm que respeitar a ordem da fila para serem atendidos por este ao invés de passarem na frente; ou então a tentativa dos habitantes em desqualificar as ações do Executivo, sendo que “constava tudo no plano de governo dele, é só ler!”. Em outras palavras, é a saída fácil que todos encontram para culpar outra pessoa, sendo que o responsável por escolher seu representante são eles mesmos.

O absurdo chega a ponto de que os próprios parentes do recente prefeito, assim como os demais se afogarem em lágrimas por “não estarem preparados para tantas mudanças tão rapidamente”. Sendo assim, a obra se revela como uma pura crítica em relação ao ser humano, o qual clama por um mundo melhor, mas não aceita abrir mão de privilégios e benefícios para efetivamente trazer a mudança que tanto prega.

A grande ressalva neste longa que, infelizmente prejudica a inteligência deste maravilhoso roteiro, é como ele recorre a clichês e situações formuláicas de personagens que são um o extremo do outro: se o antigo prefeito é a encarnação da desonestidade e arrogância, Natoli, por sua vez, é aqui retratado com uma aura angelical, cheio de virtudes, contanto com um discurso bem desgastado de como ele não é perfeito ao final. Outros personagens caricatos até funcionam bem como os cunhados de Natoli: Salvo e Valentino, mas até eles são prejudicados com a falta de profundidade entre o dilema de apoiar ou agir contra o seu parente.

A Hora Oficial a despeito de seus problemas é uma divertida e deliciosa comédia que certamente será um sucesso de público. Nota: 3,0/5,0

4) Deixa Rolar

Deixa Rolar foi, infelizmente, o longa mais fraco de todos assistidos neste festival. Elia Venezia é um psicanalista judeu separado de sua mulher, que um dia descobre que sua saúde está fragilizada, e desta forma precisa se exercitar para ficar em forma. Então, ele conhece Claudia, uma personal trainer com quem estabelece uma amizade.

Além de ser uma premissa bem batida, qual seja, a de dois personagens completamente opostos um ao outro se unirem, o desenvolvimento de cada um deles se torna igualmente clichê demais: Elia é a figura do judeu avarento, velho e cansado, que tem seu dinheiro contado e odeia pagar a conta dos outros; enquanto Claudia é a jovem excêntrica, a espanhola fogosa que se veste da maneira mais inapropriada e esquisita, que fala alto e tem atitudes inusitadas e acaba virando de cabeça para baixo a vida de Elia. Nada que não vimos antes.

Sendo assim, além de uma sucessão de eventos bastante previsíveis que gradualmente fazem com que Elia se torne mais solto e mais relaxado, as situações cômicas beiram ao ridículo e são desnecessárias como o encontro de Claudia com a esposa do seu amante, ou uma trama envolvendo alguns mafiosos que simplesmente é jogada no espectador repentinamente e sem explicação nenhuma. Outra subtrama envolvendo um paciente gay é inserida sem propósito algum e o romance entre sua ex-mulher e um ex-paciente possui um desfecho igualmente dedutível. Fica difícil, portanto, se importar com os personagens eis que são superficiais demais, ora egoístas demais, ora arrogantes demais, ora loucos demais, desenvolvendo um tipo de comédia pastelão que já é ultrapassado.

Algo que se deve louvar, no entanto, é a maneira carinhosa pela qual se constrói a relação do protagonista e sua ex-mulher. Uma relação por sinal muito bem representada metaforicamente pelo lugar em que moram: um apartamento que foi dividido em dois. Em outras palavras, trata-se de um relacionamento inacabado, em que ainda há muita dependência, especialmente por Elia, visível nos programas que ainda compartilham, em sua ex ainda passar a sua roupa, e o ciúme despertado em seu ex-parceiro quando descobre que ela está saindo com alguém. É maravilhoso perceber também os pequenos gestos como o toque na parede que sempre são executados por meio de uma iluminação quente e bastante aconchegante, mais do que pertinente para desenvolver aos poucos o rumo que a relação irá tomar, o que é um dos elementos mais críveis, sinceros e bem aprofundados do longa.

Deixa Rolar, por fim, acaba sendo um desastre que apenas em alguns detalhes residem seus maiores feitos. Nota: 2,0/5,0

Por admin, 11 de setembro de 2017
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