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6º Olhar de Cinema | Dia #7: a revolução

  • 16 de junho de 2017
  • Por admin
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6º Olhar de Cinema | Dia #7: a revolução
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No sétimo dia do festival nós tivemos oportunidades de assistir a filmes interessantes que, de uma forma ou de outra, exploram um espírito revolucionário como o caos de Occidental, a guerra de Aleppo vista de maneira introspectiva em 300 milhas e os impactos da evolução cinematográfica em 66 Kinos.

16) Em Occidental o filme francês dirigido por Neïl Beloufa é uma obra que diverte. Com um design de produção inspirado nos anos 70-80 que enaltece todo o lado glamouroso e ao mesmo tempo o seu lado brega e decadente, no qual podemos até perceber a artificialidade dos cenários, nós somos inseridos ao ambiente claustrofóbico de um hotel 3 estrelas que acabara de ser rebaixado a 2 estrelas. Lá, encontramos uma recepcionista que adora flertar, um ajudante tão frágil que desmaia o tempo todo e uma gerente extremamente desconfiada de dois hóspedes que fingem ser italianos. Enquanto isso, testemunhamos protestos revolucionários de cidadãos revoltados com o governo xenofóbico.

Mas ao mesmo tempo em que o longa provoca risadas pelos seus absurdos transmitidos de forma tão inocente, como o fato de que “italianos nunca bebem coca”, Occidental possui grandes críticas sociais, raciais e políticas em suas entrelinhas. Sua fotografia e direção de arte primordialmente composta das três cores da bandeira francesa – branca, azul e vermelho – demonstra ser uma escolha não aleatória para que possamos testemunhar o que o país se tornou em termos de valores ocidentais (como seu título) e os preconceitos que ele carrega. Por exemplo, é fácil constatar durante a história que nenhum dos personagens estão falando a verdade e os seus hóspedes são vistos de maneira maliciosa, como uma mulher atraente e um homem mais velho e um grupo de homens britânicos que estão o tempo todo bêbados; a gerente se baseia em fatos preconceituosos e banais para acusar os dois hóspedes, cuja sexualidade é sempre questionada apenas pelo fato de eles terem pedido um quarto com uma cama de casal; a polícia parece andar em círculos, totalmente perdida, enquanto possui suas próprias teorias absurdas acerca do comportamento de um acusado; entre outros.

No entanto, o filme perde sua força em meio ao terceiro ato, quando o clímax não possui tão impacto ao deixar pontas soltas inconclusivas sobre tudo o que fora desenvolvido até então pela narrativa, optando por um desfecho melodramático totalmente imprevisto, e pouco satisfatório.

Occidental

 

17) 300 milhas, por sua vez, testemunhamos mais um lado da guerra da Síria que os noticiários não se importam em mostrar, já que preferem enaltecer o lado político do lado ocidental. Como em Capacetes Brancos, o curta-metragem ganhador do Óscar, este longa realizado por Orwa Al Mokdad documenta as 300 milhas que separam ele e o resto de sua família. O olhar ingênuo de sua jovem sobrinha que lhe envia vídeos caseiros para manter a comunicação entre os dois lados dá espaço para sua visão de mundo e os seus questionamentos acerca do terror que ali ela experiencia. Os bombardeios, o medo, a falta de luz e as incertezas impactam o espectador de uma forma arrebatadora.

O cineasta, em contrapartida, revoluciona e se arrisca corajosamente na linha de frente comandada por rebeldes, contrários ao regime do ditador Bashar Al Assad. Em suas imagens descobrimos como a vida ordinária que até então se levava simplesmente é suspensa pela constante luta por sobrevivência e paz. Um estudante universitário, por exemplo, conta como nunca chegou a se formar em Filosofia e desde então se tornou um ativista contra a guerra e tenta conservar livros raros e importantes que antigos moradores deixaram ao evacuar suas casas.

O diretor não precisa ser muito intrusivo para ressaltar o cotidiano de constantes incertezas e medo de um país que vive em um estado de alerta e sob fogo cruzado que dura anos e parece não ter um fim. É incômodo e inquietante como cada passo avançado na linha de frente é uma luta incessante, apenas para diminuir essa distância entre sua família. O viés naturalista, portanto, é cruel e demonstra perfeitamente o retrato que o mundo evita enfrentar, o lado humano e intrínseco daqueles que estão aprisionados em uma situação que não concordam.

De tirar o fôlego.

300 Milhas

 

18) Em um exercício metalinguístico, 66 Kinos do diretor alemão Philipp Hartmann parte para uma viagem em toda a Alemanha, na qual ele visita 66 pequenos cinemas em diferentes cidades a fim de fazer um estudo de como a mudança do mercado cinematográfico afetou seus respectivos estabelecimentos.

Fato é que o cinema passou por várias mudanças tecnológicas, não somente na sua execução, mas também na sua exibição, fazendo com que a adaptação das projeções na sala de cinema se torne uma tarefa não tão fácil. Dessa forma, percebemos como pequenos empresários enfrentam dificuldades em exibir filmes novos, por conta de seus velhos aparelhos e o obstáculo financeiro em adquirir novos, para manter os negócios vivos em uma época em que ir ao cinema em algumas cidades não está sendo uma atividade tão popular. Os filmes antigos e independentes não são tão atrativos ao público médio  e sem aparatos novos e a burocracia da Administração Pública, assim como das distribuidores de filmes na Alemanha quase levam cinemas à falência. O que também leva à decisão de muitos optarem por inovar seus serviços e criar restaurantes, bares e outras facilidades.

Dessa forma, cria-se uma dialética em torno do que seria ou não essencial e o quanto o mercado influencia nessas decisões. Seria vital trocar o 35mm para o digital? Seria possível não somente vender ingressos para blockbusters de Hollywood, mas filmes de arte, antigos e independentes também? Cada um dos seus entrevistados reflete e responde, cada um a sua maneira, a essas perguntas e até que ponto o cinema poderá sobreviver no futuro a partir dessas pequenas “revoluções”.

É um filme que emociona e toca apenas pelo carinho e a paixão pela sétima arte que o cineasta alemão possui. Uma homenagem mas ao mesmo tempo uma reflexão sobre a importância dos filmes em nossa cultura, principalmente para promover seus clássicos e o trabalho autoral.  Para quem é cinéfilo, 66 Kinos se torna um filme obrigatório.

Por admin, 16 de junho de 2017
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