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6º Olhar de Cinema | Dia #6: olhar retrospectivo e curta-metragens

  • 14 de junho de 2017
  • Por admin
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6º Olhar de Cinema | Dia #6: olhar retrospectivo e curta-metragens
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No sexto dia do festival Olhar de Cinema prestigiamos novamente o trabalho de F. W. Murnau em sessão especial do “olhar retrospectivo”, e, ainda, fizemos parte de uma sessão com quatro curta-metragens de diversos países e diretores. Confira:

14) Fantasma, de F. W Murnau, foi o primeiro filme exibido do dia e infelizmente posso dizer que apesar de Murnau ser um grande diretor, este deve ser o seu pior trabalho realizado.

Na trama, acompanhamos a história de um jovem e pobre rapaz chamado Lorenz Lubota, o filho mais velho de seus dois irmãos, que após um acidente se apaixona e fica obcecado por uma mulher desconhecida e está disposto a encontrá-la novamente. Embora tenha uma premissa interessante acerca das paranoias e ilusões humanas, aqui é bastante artificial a maneira como a narrativa se comporta. Em primeiro lugar, sua obsessão é repentina e subdesenvolvida, forçando o espectador a aceitar a situação. Posteriormente, o protagonista executa uma série de atos imorais e ilegais que o filme enaltece como se Lorenz fosse vítima do meio e das circunstancias que lhe apresentam de forma completamente indulgente. Para completar, o desfecho inverossímil se torna ainda mais evidente quando de repente o protagonista “ganha” uma mulher e uma casa luxuosa sem uma justificativa plausível – um artifício apenas para concretizar a sua redenção. Isso sem mencionar os personagens muito mal aproveitados como o irmão de Lorenz e Marie Starke que tem um paixão secreta pelo protagonista. 

Contudo, a direção de Murnau sabe bem posicionar seu elenco e trabalhar a mise-en-scène. Gosto em particular das cenas em flashback que são maravilhosas em tela e destacam os desejos e lembranças de Lorenz. Pena que são executados em cima de um pavoroso roteiro.

15) Na sequencia, o primeiro curta exibido chama-se Setembro, do diretor Leonor Noivo e que realmente foi uma surpresa boa. Na trama, acompanhamos uma mãe solteira e seu filho que retornam ao seu país, à sua cidade, retornando igualmente para a sua história construída há muito tempo ali. O que é instigante nesse trabalho é a forma como a dinâmica entre ambos personagens funcionam: embora serem próximos um do outro, há uma certa distância que não os mantêm tão íntimos, tão confidentes. É como duas pessoas que vivem juntas, mas não realmente convivem juntas.  No início, a narração em off da mãe, com uma linda fotografia que cerca sua silhueta em sombras indica o retorno ao passado e os sentimentos que essa viagem evoca. Possível perceber, portanto, uma figura materna adulta que reflete sobre suas irresponsabilidades e consequências de seu egoísmo de sua adolescência que forçou o amadurecimento rápido após sua gravidez.

Embora algumas elipses exageradas que não possuem lógica em sua geografia, como a fuga dentro do quintal do seu pai que parece mais uma floresta, do que realmente um quintal, ou a sua subsequente chegada à praia totalmente repentina, as quais tornam a continuidade da narrativa um pouco artificial, é curioso, mesmo assim, presenciar atitudes com descrição semelhantes à da mãe realizadas pelo filho quando chegam à cidade. O escapismo, o vandalismo, o egoísmo, os atos de rebeldia também estão presentes no seu personagem, como um dia tiveram em sua mãe. Portanto, o desfecho chega a ser bastante impactante: a compreensão e a paciência da mãe em relação aos seus atos inconsequentes a ponto de não repreendê-lo torna exatamente a definição do que é ser uma “mãe” ou “pai”. Acabamos perdoando os erros, pois, afinal, um dia em nossas vidas também já cometemos os mesmos.

Cilaos foi o segundo, realizado pelo diretor Camilo Restrepo e a diretora Anne Luthaud. Na trama, uma mulher – como parte de sua promessa à recém falecida mãe – vai até a cidade de Cilaos para encontrar seu pai em busca de vingança, já que aprendemos que ele é uma pessoa nada boa. Todavia, ela tem notícia de que ele está morto. Com uma narrativa essencialmente musical, cantada pelos personagens enquanto a câmera permanece fixa, focada em seus personagens e seus rostos em primeiríssimos planos. A mulher tenta invocar os espíritos e se impor à memória de seu pai. É um filme que infelizmente é mais verbal do que visual, que pouco explora seus cenários e ambientes e que pouco contextualiza os conceitos sociais e culturais por trás de sua narrativa pautada em rituais. Muitos por conta disso, não entenderão sobre o que o curta se trata. Além disso, a atuação dos atores é mais cênica, o que se torna mais difícil de os espectadores se aproximarem dos seus personagens.

O terceiro curta exibido chama-se O Porteiro do Dia, pelo diretor brasileiro Fábio Leal. Com uma premissa interessante e inspiradora, conta-se a história de amor de Marcelo, um jovem universitário que se apaixona pelo porteiro do seu prédio, Márcio. A trama me lembra do  incrível curta francês 1992, assistido como parte da cobertura do festival online de filmes franceses no My French Film Festival, no qual um rapaz adolescente se apaixona e descobre sua identidade e sexualidade pela primeira vez ao se envolver com o mentor que trabalha em sua escola. Almejando o mesmo efeito, O Porteiro do Dia no entanto, vai na contra mão, e parece retratar seus personagens de maneira bastante caricata e forçada, a ponto de tornar toda a história inverossímil. Logo de início temos um diálogo expositivo entre o porteiro e o morador onde eles comentam suas preferências sexuais (porque claro, é perfeitamente normal comentar o assunto de repente com qualquer pessoa após dar “bom dia”). Marcelo, desde o primeiro momento já demonstra interesse e Márcio, porém, é pobremente subdesenvolvido, porquanto este o resiste a qualquer custo a cair nas tentações de Marcelo, mas falha em demonstrar que a resistência se trata na verdade de um interesse escondido. Tudo é repentino aqui, o começo e uma possível separação são deslocados, enquanto o filme ganha mais vida quando desenvolve o relacionamento no segundo ato entre ambos.

Há outro problema também que é o personagem de Marcelo que não é nada trabalhado coerentemente. Não sabemos exatamente qual é a relação que ele mantém com seu colega de quarto e, ainda, o roteiro trata de sua sexualidade com pouca seriedade. Testemunhamos ele lamber o braço de Márcio e ter outras atitudes infantis ao invés de desenvolver um interesse genuíno, uma paixão arrebatadora e que, na realidade, apenas enaltece um estereotipo ridículo de seu personagem. Tudo é superficial, artificial e sem graça. Pena uma história com tão grande potencial ser completamente desperdiçada.

O último curta exibido é Regresso de Saturno realizado pelos diretores brasileiros Bianca Muniz e Marcus Curvelo que se trata de um filme caseiro e experimental acerca de nossas crises e amadurecimento pessoal. Segundo a astrologia, o título tem um significado particular, qual seja, o período no qual ocorrem importantes mudanças na vida de uma pessoa. Dessa forma, um homem começa a relembrar seus fracassos: o emprego perdido, a separação da namorada, entre outros, que o fazem repensar a sua vida. Este é um filme que cumpre bem a sua proposta em torno da crise existencial de uma pessoa e os abismos que nós mesmos nos colocamos às vezes, porém, este é um filme que vê necessidade em verbalizar o significado de sua obra e, desta forma, contraria todo o trabalho visual da narrativa anteriormente feito.  Ademais, ao final, não há exatamente a sensação de que testemunhamos uma evolução ou um otimismo por trás do resultado, já que o protagonista termina no mesmo ponto onde começou: cantando e reclamando o quanto sua situação não está boa.

O festival Olhar de Cinema acontece nos dias 7 a 15 de junho na cidade de Curitiba. Confira a programação completa no site.

Por admin, 14 de junho de 2017
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