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6º Olhar de Cinema | Dia #5: um espírito libertário

  • 12 de junho de 2017
  • Por admin
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6º Olhar de Cinema | Dia #5: um espírito libertário
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O quinto dia do festival se resumiu à clássicos do cinema por nomes renomados e novos longa-metragens por diretores novatos, cujas obras se resumiram ao espírito libertário de seus personagens, sejam eles retratados de maneira subversiva ou não.

11) Neste dia assisti a uma obra de um diretor renomado e muito importante para a história do cinema que o festival intencionou prestigiar com sessões especiais em seu “olhar retrospectivo”: o cineasta alemão F. W. Murnau que exibia seu Caminhada Noite Adentro (Der gang in die Nacht), que foi um dos longas de começo da carreira do diretor. A história gira em torno da vida do médico Eigil Borne que está noivo de Helene. No dia de seu aniversário, todos o comemoram em um cabaré, onde Eigil conhece e se apaixona perdidamente por Lily, uma dançarina. No entanto, posteriormente, Lily acaba se apaixonando por um pintor cego, paciente de Eigil.

Desde o começo o diretor mostra talento pelos seus enquadramentos e da forma como organiza a mise-en-scène com seus personagens. Quando Lily, por exemplo, desperta interesse no médico é no momento em que o espia pela primeira vez através da cortina do palco. E cada vez que ela o observa, os contra-planos se aproximam do rosto de Eigil cada vez mais até chegar no primeiríssimo plano. Da mesma forma, Murnau utiliza de cores e elementos da natureza para expressar os mais profundos sentimentos de seus personagens: a felicidade é transmitida em um dia de verão no campo com muita comoção e brincadeiras em um dia de bastante vento; os problemas que estão prestes a chegar podem ser evocados pelas tempestades e chuvas como a segunda vez que Eigil encontra Lily ou quando esta dança alegremente aos sons dos raios e; a disputa pelo amor de Lily é tão bem representada pela disposição dos personagens em uma reta: Lily no meio e os dois homens entre ela.

Ademais, a coloração dos planos também desempenha um papel importante na narrativa: as cores quentes e iluminação amarela são enaltecidos quando há o calor do sol como no momento em que um pintor é curado de sua cegueira; os planos roxos indicam morte; e os planos azulados vêm nos momentos de tristeza e amargura. Isso sem mencionar os contrastes e sombras tão típicas do expressionismo alemão que favorecem os climas de suspense em outros instantes da obra.

A trama essencialmente se trata de tragédias, de eventos tristes que se sucedem na vida de Eigil, de como ele se tornou uma pessoa extremamente infeliz e como a visão que ele possuía de sua profissão mudou ao longo do tempo conforme o que acontece em sua vida pessoal. As atitudes altruístas como médico são realizadas quando se sente o mais feliz até que os eventos que o abalam psicologicamente tornam a prática uma obrigação.  É um homem que se sente preso, sem liberdades, em um amor que não o recompensa. Eigil, ao final, é prisioneiro de si mesmo.

Caminhada Noite Adentro

 

12) Na segunda sessão do dia assisti a Soldado do cineasta argentino Manuel Abramovich, que acompanha o jovem Juan José Gonzáles, quem acaba de se alistar voluntariamente ao exército de seu país. Aqui não se trata de combater inimigos, pois não há clima de guerra. Aqui não se trata de traumas psicológicos como em Nascido para Matar de Kubrick e nem a ironia de Apocalypse Now. Neste longa, não há conflitos, não há caos, pelo contrário. Há paz e tranquilidade. Juan não tem o espírito altruísta e heroico de Até o Último Homem, ele simplesmente se alista para ter trabalho, porque gosta e quer agradar à mãe. Seu dia a dia se resume a tarefas simples para se habituar com o cotidiano militar, os três jeitos de se arrumar a cama, os ritmos do tambor e os treinos de música e lições de direito militar e de armas. O diretor, portanto, apenas foca em seu protagonista, com uma reduzidíssima profundidade de campo onde não podemos ver mais nada além de seu rosto. Autoridades são posicionadas no contra-campo, sempre distantes, nunca vistas no enquadramento da tela e seus exercícios se resumem a enaltecer o patriotismo e à memória da história argentina.

Talvez esta seja a maior crítica do cineasta em relação à narrativa, a manutenção do corpo militar em momentos de paz, liberdade e democracia. Dessa maneira, são lindos os planos que demonstram o vazio e o tédio expressados no rosto de Juan enquanto o ambiente ao seu redor é um de tranquilidade. No entanto, não é um filme fácil de digerir, já que o longa se resume na repetição do trabalho de mise-en-scène, enquadramentos e planos. A sua auto-crítica enfraquece quando não é desenvolvida, portanto, de maneira mais envolvente em relação à trama e que nos provoque a refletir sobre o que presenciamos em tela. Tampouco desenvolve empatia por qualquer um dos personagens, tornando os curtos setenta e dois minutos mais longos do que são, porque apesar de se focar em primeiros planos no rosto do protagonista, nunca o conhecemos de verdade.

Soldado

 

13) Por último, assisti a Homem Livre, longa do estreante diretor brasileiro Álvaro Furloni, marcando também a sua primeira exibição no Olhar de Cinema na categoria “outros olhares”, que trata da história de Hélio Lotte, um ex-músico famoso que acaba de sair da prisão após 30 anos e deve se adaptar à uma nova vida longe dos holofotes, já que seu status de celebridade e a gravidade do crime que havia cometido se tornara notícia nacional. Com o auxílio de seu irmão, o protagonista tenta levar uma vida normal, quando um pastor de uma pequena igreja o acolhe para morar e trabalhar lá.

Durante a narrativa é visível que Hélio saiu da prisão e se converteu em uma pessoa religiosa, sempre com receio e evitando contato com as pessoas em sua vida, isolando-se no culto das igrejas e saindo pouco de seu quarto. Se esforçando para ser uma pessoa de bem com sua camisa engomada e abotoada até o pescoço, o protagonista tenta aos poucos ganhar aceitação de todos ao seu redor. Porém, conforme a narrativa progride percebemos que os eventos do passado e o crime que cometeu lhe perturbam mais do que podemos imaginar quando eles retornam para assombrá-lo.

Neste sentido, o diretor cria um ambiente com uma trilha sonora impactante, sombras e luzes criadas pela competente fotografia que fazem maravilhosamente bem o suspense e o thriller psicológico que passamos a testemunhar em Hélio, como por exemplo, as luzes vermelhas que indicam as relações amorosas, ou as sombras que cercam o misterioso passageiro em seu carro, assim como a paleta fria e azulada dos cenários que indicam que mesmo livre em relação ao cumprimento de sua sentença na cadeia, o protagonista nunca saiu de sua prisão interna, principalmente pelas referências à Amnésia de Christopher Nolan, quando por exemplo, o protagonista começa a ter conversas telefônicas com uma mulher misteriosa. Sem recorrer à situações previsíveis, mas ao contrário, pelo desenvolvimento de falsas pistas que ao final se encaixam, mas contrariam nossas expectativas em relações aos personagens, o trabalho de Furlani é cuidadoso o suficiente para desenvolver o sentimento de culpa que ainda existe dentro do protagonista e o conduz a abismos, transformando, por conseguinte, essa experiência tão sufocante e claustrofóbica que chega a ser impossível o espectador não se envolver com a trama. 

Os sete anos que levaram à execução deste longa definitivamente valeram a pena pela qualidade cinematográfica com que Homem Livre fora executado. Precisamos de mais filmes brasileiros com o mesmo padrão.

O festival Olhar de Cinema acontece nos dias 7 a 15 de junho na cidade de Curitiba. Confira a programação completa no site.

Por admin, 12 de junho de 2017
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