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6º Olhar de Cinema | Dia #4: entre ficção e realidade

  • 11 de junho de 2017
  • Por admin
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6º Olhar de Cinema | Dia #4: entre ficção e realidade
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No quarto dia do festival Olhar de Cinema, os filmes assistidos transitaram entre ficção e realidade e, inclusive, um deles trabalhou ambos. Confira como foi:

8) Na categoria de “novos olhares” assisti a La tierra aún se mueve do cineasta mexicano Pablo Chavarría Gutiérrez, ou, A terra ainda se move, em tradução literal, que se trata de um filme experimental que explora incrivelmente as sensações, os movimentos da terra e aqueles elementos que estão em constante movimento. São cenas com extrema fluidez onde a água é o elemento mais forte que se pode perceber. Mesmo que nos deparemos com outros como o vendo, o fogo e a terra, ainda podemos notar como os movimentos lembram mais o primeiro.

Partindo de uma premissa fiel ao seu gênero, aqui não temos nenhuma narrativa convencional desenvolvida ou um enredo como normalmente vemos no cinema, e, por conseguinte, utiliza a câmera para brincar com diferentes jogos de luzes entre aquelas naturais e artificiais, focos, e profundidade de campo como os carros que vagam na noite, pessoas andando na rua, uma mulher ansiosa pela janela e uma corrida noturna. Biólogo de formação, o cineasta enaltece a natureza que está sempre presente na vida humana e interagindo com ela, mesmo nas atividades cotidianas, lúdicas ou banais, como os animais, a chuva ou uma estrada rural vazia, o que o diretor mexicano consegue transmitir por lindos planos fechados ou em detalhe.

É uma obra por fim que almeja tocar a sua audiência de forma sensorial, provocar sentidos e explorar o maior potencial audiovisual possível para que possamos adentrar nos detalhes além de nossa percepção natural o que, felizmente, se alcança em seu resultado.

9) Na sequencia, Máquinas (Machines) foi mais uma seleção que está na mostra competitiva e foi realizada pelo cineasta indiano Rahul Jain. Com toda a segurança, posso afirmar que este filme será um dos melhores do festival. Provocativo e muito bem produzido, o diretor acompanha o cotidiano de trabalhadores indianos nas fábricas têxtil do país e suas condições. Índia, como se sabe, é conhecida pelos seus lindos, caros e mais finos tecidos, sendo a marca registrada do país. Um setor da economia que praticamente move e sustenta seu mercado, descobrimos uma realidade distante geograficamente, mas igualmente próxima da situação brasileira. Ao adentramos no prédio onde ficam as fábricas, nos deparamos com um lugar com pouca iluminação, extremamente silencioso, sujo e pouco cuidado.  Lá, não há pessoas para auxiliá-los, não há nenhum superior presente para acompanhar o labor de perto. Há apenas trabalho.

Neste sentido, nos damos conta que na realidade o objetivo do longa – pela análise de seu título – não é avaliar o progresso das máquinas enquanto aparatos, instrumentos que facilitam o trabalho manual. Ao contrário, aqui se tratam de máquinas humanas, pessoas que se submetem à atividades perigosas como manusear substâncias químicas e tóxicas sem proteção, lidar com maquinários perigosos que possivelmente podem causar um acidente de trabalho, além de que pelo testemunho, todos trabalham pelo menos 12 horas por dia, muitas vezes carregando peso em suas costas. É comovente presenciar os empregados que parecem praticamente morar em seu local de trabalho: eles cochilam entre os inúmeros tecidos, anotam informações na mão, pois nem possuem uma folha de papel para tanto e até mesmo durante as entrevistas improvisam um lugar para se sentar e muitos acabam permanecendo no chão mesmo.

Porém, o que mais chama a atenção é este silêncio já mencionado. Embora haja setores em que trabalhos em conjunto, com outros trabalhadores, nenhum deles interage entre si. Nenhum deles dialogam, mesmo em momentos de descanso, como o horário de almoço – apenas quando necessário. É cada por um si, cada um fazendo sua parte sem se importar com o seu próximo. Neste contexto, vemos vários depoimentos que se complementam: um indiano afirma que a culpa pela ausência de direitos trabalhistas e condições salubres de trabalho é a falta de união entre todos para protestar e revindicar seus desejos; por outro lado, outro indiano se resigna à essas condições por vontade e não obrigação, o que por conseguinte, não o leva a crer que seu trabalho seja uma exploração; porém, em contrapartida, temos o outro lado – o do empresário – que defende que a única maneira de fazer todos cumprirem com suas funções é dando o mínimo possível de salário, pois se algum ganha confortavelmente bem a ponto de sobrar dinheiro no mês, ele fica relaxado e preguiçoso.

Não é preciso escrever mais para traçar uma comparação com o Brasil. Em uma época onde direitos trabalhistas estão sendo discutidos, em um país que sofre com o trabalho escravo e condições precárias, a situação indiana passa a dialogar facilmente com o espectador e se tornar relacionável com o nosso universo. Mesmo que em algum país esse não seja o caso, impossível não sentir empatia pelos milhares de trabalhadores que labutam para sobreviver, ao invés de prover para si e para sua família e ainda ter tempo para aproveitar a vida.  São pessoas que ganham pouquíssimos enquanto empresários lucram muito mais ao final.

E a sensibilidade de seu diretor pelo olhar de sua câmera é maravilhosa e realmente nos passa uma crítica e uma realidade perturbadora. Definitivamente lhe garante uma carreira promissória.

Máquinas

 

10) Na última sessão do dia assisti ao curta-metragem Fantasmas (Ghosts)  pela cineasta Anocha Suwichakornpong, no qual ficção e documentário se misturam. Na primeira parte do filme uma câmera acompanha o trabalho de casting por um diretor de cinema que busca “uma atriz que está envelhecendo” e como parte do processo pede à atriz Carla para que conte detalhes de sua vida em vários aspectos: amor, morte, família, origens, fazendo ela se emocionar ao reviver lembranças do passado. Na segunda parte a cineasta acompanha sua família que retorna ao antigo apartamento que está prestes a vender pela primeira vez após um terremoto acontecer exatamente naquele lugar. Fica evidente que Anocha tem a curiosidade e a sensibilidade em relação às demais pessoas e o que elas têm a contar, sejam histórias engraçadas ou tristes e apesar de duas histórias completamente diferentes, é interessante observar como elas se conectam, pois o motivo da venda do imóvel justamente se deu pelas lembranças ruins do fatídico dia. No entanto, a diretora se estende na trama e acompanha uma dona de uma lanchonete retornar à casa e aí não sabemos exatamente por onde ela deseja caminhar. Ainda assim é muito interessante como ficção e realidade se alternam na primeira metade e as reflexões que temos a partir da vida e a memória e como o cinema também faz este papel de imprimir e registrar tudo. É pelo cinema, afinal, que podemos refletir e nos identificar com a história dos personagens, sejam eles fictícios ou não, de modo a perpetuar a história.

Em Objeto Misterioso ao Meio-Dia (Dokfa nai meuman) do tailandês Apichatpong Weerasethakul, a narrativa parte da mesma premissa em misturar os dois elementos – ficção e realidade – e como resultado temos uma película que denominamos de híbrida. Cinema é uma das artes de se contar histórias, sem dúvidas. É um instrumento político de ideias, de pensamento, de pessoas, e é extremamente poderoso. Neste sentido, o cineasta filma a cidade de Bangkok e entrevista pessoas locais. Em um primeiro momento, uma mulher conta sua história de vida e após terminar, o diretor pede que lhe conte outra história, ficção ou real. Dessa forma, uma história sobre um menino deficiente e sua professora é contada, e reconstituída em imagens. Ele posteriormente entrevista outras pessoas que dão continuidade à história. Sem um roteiro específico e sem interferências, o cineasta deixa por conta da imaginação de seus entrevistados, mesmo quando a história chega a não fazer sentido. Contudo, é divertido assistir à essas pessoas se divertindo com essa atividade. Filmado originalmente em negativa de 16mm em preto e branco, o longa chama mais atenção pela forma como foi construído do que pelo seu resultado, pela sua forma mais do que pelo seu conteúdo, simplesmente pelo fato de que o cineasta deixa por conta da população tailandesa o controle de tudo, o destino do filme e o final de sua história, motivo pelo qual nos planos finais observamos o cotidiano de sua zona rural. É uma obra sobre cultura e memória.

Objeto Misterioso ao Meio-dia

O festival Olhar de Cinema acontece nos dias 7 a 15 de junho na cidade de Curitiba. Confira a programação completa no site.

Por admin, 11 de junho de 2017
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