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6º Olhar de Cinema | Dia #3: um lado humano

  • 10 de junho de 2017
  • Por admin
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6º Olhar de Cinema | Dia #3: um lado humano
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No terceiro dia em que estive presente no festival Olhar de Cinema assisti a quatro filmes que representam, cada um a sua maneira, o lado humano de um estudo social; os valores que devemos levar em conta por trás de qualquer crise política, religião ou até mesmo convenções sociais.

5) Na categoria de “novos olhares” o primeiro filme da programação é o documentário experimental Parque Tonsler (Tonsler Park) pelo diretor norte-americano Kevin Jerome Everson, no qual acompanhamos o dia de eleição em 2016 nos Estados Unidos a partir dos trabalhos dos mesários presentes em Charlottesville, no estado de Virgínia, no Parque Tonsler, uma das seções eleitorais da cidade. Infelizmente este é um longa que somos obrigados a ver em pleno século 21. Uma época que é especificadamente, mas não aleatoriamente escolhida, Everson capta um dos dias mais importantes para os norte-americanos: o dia da votação, conhecido como a forma mais pura de democracia. Contudo, é igualmente o ano do embate entre os candidatos à presidência do país, cujos principais candidatos se resumiam entre Hillary Clinton e Donald Trump.

Ao assistir esse incrível filme, foi impossível não lembrar do documentário realizado por Ava DuVernay, no qual a diretora explora em seu filme a 13ª Emenda, como o racismo se instalou e se enraizou tão profundamente na cultura que ela é inclusive perpetuada para fins financeiros e corporativos. A história somente nos mostra que mesmo séculos de existência, o país (e o mundo, por sinal) não consegue se desprender dessa desnecessária segregação entre as pessoas.

Neste longa, por sua vez, a câmera do cineasta é simples. Pautando-se por uma estética praticamente vouyerista, simples e sem artifícios, nos deparamos com uma película em 16mm na qual mostra os mesários negros trabalhando no local, auxiliando todos os que comparecem para votar. Os planos longos e fixos observam este cotidiano que embora aparentemente normal, foi um dia de retrocesso para a nação estadunidense, não sendo à toa a escolha de uma fotografia completamente em preto e branco. Em outras palavras, é o registro de um momento em que o exercício da cidadania é colocada em xeque. Por conseguinte, o cineasta muitas vezes brinca com o foco, mudando constantemente a profundidade de campo, onde podemos observar pessoas que comparecem para votar bloqueiam as faces dos trabalhadores, fazendo com que elas desapareçam em tela. Contudo, este não é um longa com um ritmo fluído ou tem uma continuidade de edição como estamos habituados para se fazer entender com clareza. É uma narrativa bastante fragmentada, seus planos são isolados. Mas talvez essa seja propositalmente a escolha do diretor para voltarmos a presenciar e a experimentar aquela estética do cinema do século 19, ou seja, voltar às suas origens. Impossível deixar de notar a criatividade de Everson ao conceber este filme.

6) O segundo filme é um clássico do cinema francês Boudu: Salvo das Águas (Boudu: Sauvé des Eaux) por um dos pioneiros da Nouvelle Vague, Jean Renoir. Essa comédia leve e aparentemente inocente tem algumas das lições mais humanas sobre a sociedade em relação à época que, na realidade, continuam extremamente atuais. O longa inicia abordando dois caminhos e dois opostos que posteriormente irão se encontrar: Boudu, um mendigo, vaga pelo parque da cidade em procura de seu único companheiro: um cachorro, já que o restante dos visitantes ora demonstram uma generosa forçada ora simplesmente fogem de sua sombra e imagem. Uma das maiores hipocrisias humanas é testemunhada quando Boudu aborda um policial e demanda ajuda pra encontrar seu cachorro e, no entanto, a autoridade o ignora. Logo em seguida, uma mulher jovem e atraente afirma que também perdeu seu cachorro valioso e caro, causando comoção em todas as pessoas ao redor para encontrar o bichinho. Posteriormente, vemos o Sr. Lestingois, um homem culto dono de uma livraria, rico, casado, mas com um caso com a empregada da casa, que acaba salvando Boudu de sua tentativa de suicídio. Compelido a ajudá-lo (mais por obrigação do que boa vontade), o sujeito o acolhe em sua casa, lhe concede um lugar para comer, dormir e passar o tempo.

Em um contexto cômico maravilhoso aqui desenvolvido, Boudu acaba atrapalhando todo o cotidiano da família. Sr. Lestingois fica impedido de se encontrar com a amante, e sua esposa não tolera a presença do mendigo devido à sua falta de “polidez” e etiqueta social. Não é coincidência, pois, que levando situações ao extremo para obviamente criar espaço para o humor, Boudu se sente deslocado na casa, mancha as roupas de seda de borracha por não saber lustrar seus sapatos (afinal, ele não podia sair de casa de outra forma), derruba vinho, não usa talher para comer e até dorme no chão. De certa forma, o personagem-título parece uma criança que está aprendendo a dar os primeiros passos no “mundo civilizado” e se passa até por uma figura burra por não ter aquele “refinamento” e formalidade exagerada da burguesia, como peças que não se encaixam no quebra-cabeça da sociedade para uma vivência harmônica, ou seja, como um parasita. Prestes a ser expulso da casa por seu acolhedor devido ao caos instaurado, Lestingois é condecorado por salvar Boudu e este, por sua vez, acaba ganhando a loteria o que, por conseguinte, aproxima a família, que a princípio não o suportava, de sua amizade e simpatia. Não houve filme mais sensacional que esse, neste dia.

 

Boudu: Salvo das Águas

 

7) Dentre os da mostra competitiva, o que disputa um lugar nos pódio dos vencedores do festival está Vangelo (em tradução literal do italiano que significa Evangelho) do diretor italiano Pippo Delbono, onde ele viaja até o limbo de países em que se encontram os refugiados, emigrados de suas terras natais por conta de perseguições, guerras, ditaduras, e situações de calamidade. Com um futuro incerto, Pippo entrevista as mais diversas pessoas que, por sua vez, contam suas histórias e suas experiências.

Dessa forma, este documentário funciona melhor e brilha quando deixa seus entrevistados tomar conta do rumo da conversa. Suas dificuldades, a opressão das autoridades, todas as mortes que presenciaram, a extorsão, a violência, a burocracia para encontrar asilo em outros países é extremamente comovente e conseguimos perfeitamente mergulhar no lado humano de todo esse processo ao invés das habituais notícias que apenas abordam o contexto político. É admirável a sensibilidade de Delbono, neste aspecto, e como ele se conecta com essas pessoas.

No entanto, quando se deseja mostrar que o currículo o cineasta inclui o de direção de teatro,  e, portanto, incorpora a linguagem teatral no documentário é quando a narrativa desanda. Não porque os dois estilos não combinam ou não funcionam, mas simplesmente porque Delbono impõe falas, gestos, atitudes aos seus entrevistados a tal ponto de alguns deles se sentirem constrangidos com tal abordagem, por vezes agressiva. A narrativa, deste modo, se desloca da autoridade e da identidade dos refugiados e passa a girar em torno das necessidades e desejos do diretor italiano, de forma até narcisista. Isto enfraquece consideravelmente sua mensagem e vai na contra-mão daquilo que almeja para seus espectadores entenderem, afinal, as encenações realizadas podem ser facilmente comparadas às cenas do teatro onde Delbono trabalha e dirige. Este é um filme que possui muita força, um filme muito importante e necessário e tem seus momentos de tirar o fôlego. Uma pena que o cineasta se preocupa mais consigo, do que com aqueles que deseja representar.

 

Vangelo

 

8) Muito comum recentemente, são as notícias disparadas acerca de meninas de pouquíssima idade, em seus 10 a 15 anos, que são precocemente forçadas ao casamento e que posteriormente buscaram o divórcio. Neste contexto, o último filme do dia é mais um da mostra competitiva que concorre a melhor filme do festival: Grande, Grande Mundo (Koca Dünya) pela cineasta turca Reha Erdem. Nele, Ali e Zuhal – irmãos que viveram em um orfanato – fogem para a floresta para fugir de um crime cometido por Ali para salvar Zuhal de um casamento arranjado – conforme a cultura do país. Sonhando em um futuro melhor, longe das figuras adultas, e almejando a liberdade longe do regime autoritário (tão bem expresso pela estátua gigantesca na primeira cidade em que chegam) imposto, eles realmente tinham o mundo à sua frente e inúmeras possibilidades, sem leis, e sem hostilidade (Ali diz em certo momento: “o mundo é grande”), ou era o que eles pensavam, pois o isolamento das matas que dava essa sensação de início, tão bem transparecida pelos planos isolados e distantes dos personagens que engrandecem o ambiente selvagem, se transforma em um lugar agonizante pelos eventos que sucedem: a paranoia, perseguições, traições. Dessa forma, o viés realista que estava presente no início da obra se distancia cada vez mais pelos sintomas de fome, delírio e tortura pelos quais os irmãos passam, fazendo-os perder o próprio caminho que antes estava claro, se aproximando do extraordinário e fabulesco da narrativa.

A fotografia é maravilhosa. A competência do diretor nos permite vislumbrar a grandeza do ambiente natural e podemos perceber o frio de uma manhã apenas pelas fumaças e pela sua paleta de cores. Contudo, a narrativa não consegue explorar todo o potencial que possuía em seu argumento. Mesmo sendo um longa que almeja o viés mais fantástico, ele parece não ser bem desenvolvido para se encaixar no contexto atual de seu objeto de estudo, com figuras misteriosas dentro da floresta bastante deslocadas e que não são desenvolvidas apropriadamente para serem entendidas dentro da diegese. Além disso, o desfecho emocionante, executado para ressaltar a crueldade da civilização deixa de ser tão impactante por suas pontas soltas deixadas. Contudo, é um trabalho interessante e não deixa de nos fazer refletir acerca das atitudes desumanas que muitos são obrigados a suportar atualmente.

 

Grande, Grande Mundo

 

O festival Olhar de Cinema acontece nos dias 7 a 15 de junho na cidade de Curitiba. Confira a programação completa no site.

Por admin, 10 de junho de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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