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6º Olhar de Cinema | Dia #1 e #2: o olhar engajado

  • 9 de junho de 2017
  • Por admin
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6º Olhar de Cinema | Dia #1 e #2: o olhar engajado
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Nesta sexta edição do Olhar de Cinema, o festival internacional de cinema que acontece em Curitiba, Paraná, é possível notar pela seleção de filmes em exibição uma característica comum na maioria deles, qual seja, películas que abordam o estudo sobre o mundo atual tanto pelo seu contexto social quanto político. Dessa forma, o evento é claramente marcado por um olhar engajado e crítico de seus realizadores acerca de temas como imigração, sociedade, política, crises, entre outros, o que se revela bastante necessário atualmente ao menos para provocar a discussão e a reflexão nos seus espectadores.

1) Neste sentido, não houve melhor obra inaugural do que A Família (La Familia) do venezuelano Gustavo Rondón como filme de abertura, para registrar essa marca promocional do festival. É uma película que consegue perfeitamente se comunicar com a realidade brasileira, uma vez que a Venezuela enfrenta problemas e embates sociais muito semelhantes aos nossos. Na trama, acompanhamos desde o começo o caos instaurado pela intensa movimentação e interação entre jovens por meio de uma câmera relativamente instável que transmite com perfeição a situação da periferia de Caracas: drogas, violência, desde o começo o filme é marcado por cenas chocantes como, por exemplo, o desrespeito das crianças em relação aos seus pais, a sexualidade e a agressividade precoce delas que sempre disparam xingamentos, brincam com balas de armas e um pedaço de madeira que serve de metralhadora. Marcado pela paleta fria e cinzenta a fim de transparecer esse ambiente sujo e esquecido sem figuras adultas presentes, chegamos até a realidade através dos olhos do pequeno Pedro que acaba se envolvendo em uma morte de um colega de mesma idade ao se defender de um assalto à mão armada praticada por este. Sendo irmão de um dos mais importantes traficantes da comunidade, Pedro se vê em perigo e, portanto, seu pai Andrés, tomando conhecimento da situação imediatamente planeja a fuga com o filho.

Sem tampouco uma figura materna presente na vida de Pedro, a trama se concentra na relação conturbada entre pai e filho durante a jornada que é enaltecida sempre pelos tons azulados presentes na direção de arte e fotografia. Uma jornada, por sinal, que se vislumbra extremamente amarga, com pouquíssimos momentos de ternura, transmitindo essa situação problemática, a ausência de comunicação e a luta por sobrevivência de ambos personagens. Importante ressaltar que a escolha do cineasta Rondón em filme essencialmente com uma profundidade de campo mais reduzida prejudica por vezes que o ambiente em si se expresse ao invés de deixar a narrativa por conta apenas dos personagens. Porém, é ainda um filme  honesto e humano que vale a pena ser visto.

2)Outono, Outono (Chuncheon, Chuncheon) foi o primeiro longa a que assisti no segundo dia do evento, o filme sul coreano realizado por Jang Woojin, e é exibido na categoria de “outros olhares.”. De início, nos deparamos com uma barra de metal que separa um rapaz de um casal no trem. Ji-hyeon é um jovem que retorna para Chuncheon de Seoul após uma entrevista de trabalho. Lá, ele se torna cada vez mais isolado de tudo e de todos, revelando certa depressão por passar tanto tempo sem perspectiva de trabalho, e vagando por lugares inabitados da cidade ou em construção, cujo trabalho de mise-en-scène parece refletir esse estado emocional do personagem. Ele então posteriormente parte em rumo para ajudar a mãe do amigo em um templo distante do perímetro urbano. Posteriormente, partimos para o ponto de vista do casal que se aventura para o mesmo lugar em busca de um escapismo de suas próprias realidades. Woojin utiliza, em toda a narrativa, planos longos contemplativos dos cenários e ambientes nos quais os personagens são inseridos. É no detalhe da fotografia, como por exemplo a luz do sol que sai e entra constantemente durante uma conversa entre o casal e também da paleta fria que representa o senso de isolamento e frio do local que evoca sentimentos de melancolia em todos eles.

Em suma, os três personagens se tratam de pessoas muito solitárias, em busca de algo que provavelmente nunca irão de fato conseguir e que permanecem isoladas em meio à uma  multidão, presos em sua própria realidade: o jovem busca sucesso e o casal busca reviver um romance.

Porém, é um filme que deixa uma ponta solta e não termina suas histórias, indicando que elas continuam para além das filmagens, e o que vemos em tela é apenas um fragmento de suas vidas que testemunhamos. Bonito de se ver, Outono, Outono, é muito mais um trabalho puramente estético, como se o ambiente fosse o quarto personagem da trama.

 

Outono, Outono

 

3) Na categoria de “outros olhares” o segundo filme que vi no segundo dia de festival foi Convicções (Ubezhdenuya) pela cineasta russa Tatyana Chistova. Neste criativo e inovador longa documental, acompanhamos a sua câmera, que enaltece a rigorosidade pela qual são submetidos os jovens russos no alistamento do exército do país ao completar 18 anos. É claramente visível que a Rússia, desde que passou pelo seu período ditatorial intenso, não deixou completamente de lado o estrito regime militar a tal ponto de instalar movimentos e protestos na população. Em pleno século 21, jovens pacifistas e contrários ao armamento e à guerra são duramente reprimidos e impedidos de serem transferidos para o serviço civil, mesmo quando solicitado, sendo forçados a prestar o serviço militar obrigatório pelo governo, justamente pela vigência de um artigo no Código Penal Russo que permite a condenação de homens que não apresentam justificativa para se eximirem dos treinamentos.

Dessa maneira, Chistova conta a história de alguns adolescentes corajosos que desafiaram a Comissão do Alistamento e decidiram pleitear baseado em convicções pessoais, simplesmente por não concordarem com a violência. Vislumbra-se, pois, como essa liberdade é extremamente difícil de ser exercida que, além de chocante, a cineasta transmite essa batalha de maneira divertida. Neste contexto, observamos por exemplo, o julgamento de um rapaz acusado de infringir a norma legal penal e enquanto faz um discurso incrivelmente eloquente e bem fundamentado, a câmera se desloca para focar, ao invés do réu que dialoga no contra-campo, na juíza que ouve a sua defesa de maneira completamente desinteressada e até mesmo entediada. A trilha sonora, nesta cena, é composta de forma diferente da que esperamos: alegre. Da mesma forma, o alívio cômico é despertado apenas pela câmera fixa observando a reação dos membros da Comissão com olhos sérios e intransigentes em resposta à discursos fervorosos; os jump cuts das tomadas de decisão negando provimento a todo e qualquer pleito; os corais e cantos patriótico que são transmitidos aqui pela diretora com extrema ironia ante a glamourização do serviço militar, entre outros.

Porém, o mais chocante e o mais revoltante é quando jovens expressam sua sincera opinião em relação à guerra e são logo taxados pelos membros julgadores da comissão como loucos, questionando a sanidade mental dos recrutantes, empregando para tanto uma retórica igualmente opressiva e inquisitória como, por exemplo, insinuar que um dos rapazes teve sua mente “contaminada” pela leitura de filósofos e escritores russos famosos e importantes ou então acreditar que outro fora influenciado por outras pessoas a ter esse tipo de pensamento pacifista.

Nunca a situação russa fora tão bem retratada como neste documentário.

 

Convicções

 

4) Na última sessão do segundo dia, na categoria da “mirada paranaense”, na qual cineastas da região podem ter seus trabalhos exibidos, o diretor Guto Pasko apresentou pela primeira vez seu mais novo longa Entre Nós, O Estranho, como parte da trilogia sobre a imigração ucraniana em sua cidade natal, Prudentópolis, no Rio Grande do Sul. Seus dois antecessores, Made In Ucraine (2009) e Ivan (2011) também abordavam o assunto de uma perspectiva mais intimista. Neste novo documentário, Pasko observa a comunidade no período da Páscoa e as mudanças culturais que ela sofreu ao longo dos anos.

Para esse efeito, o cineasta optou por utilizar a câmera fixa que praticamente não se move, enquanto a cidade se movimenta e vive ao seu redor “invadindo” o enquadramento da tela, e observa o seu comportamento a partir de diferentes vieses: a cultura, religião, a gastronomia, o idioma, os rituais, a comunidade em geral. Na maior parte do tempo de projeção, sua visão é eficiente em transmitir uma cidade que sofre de mudanças culturais, no entanto, a ausência de uma pró-atividade no trabalho do diretor também lhe prejudica nesse mesmo aspecto, tornando a prática da observação muitas vezes insuficiente para ter sua mensagem claramente exposta. Além disso, muitas imagens, principalmente, as cerimônias religiosas são repetidas em exaustão, sempre utilizando anteriormente stablishing shots para praticamente situar o espectador na igreja todas as vezes.

Este documentário realmente se destaca quando passa a abordar o cotidiano das pessoas, das famílias que decoram ovos, compartilham suas origens e experiências de seus ancestrais em terras desconhecidas, além do ensino do idioma tão forte na educação infantil. O efeito que se dá na edição de som do diálogo das entrevistas no campo do universo não diegético da película (enquanto entrevistados exercem suas tradições) é simplesmente maravilhoso e bastante criativo.

Infelizmente quando o longa tenta abordar seu lado mais crítico é quando não é tão bem sucedido, já que, como mencionado, a distância e imparcialidade do cineasta pode prejudicar em tornar a sua opinião clara para o espectador. Mesmo assim, Entre Nós, o Estranho, é um documentário bem produzido e cumpre seu papel em desenvolver o processo da aculturação da região.

 

Entre Nós, O Estranho

 

O festival Olhar de Cinema acontece nos dias 7 a 15 de junho na cidade de Curitiba. Confira a programação completa no site.

Por admin, 9 de junho de 2017
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