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45º Festival de Gramado | Dia #5: A Arte da Realidade

  • 28 de agosto de 2017
  • Por admin
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45º Festival de Gramado | Dia #5: A Arte da Realidade
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No quinto dia de festival, longas e curtas foram marcados por explorarem temas muito reais através da arte cinematográfica.

Confiram!

12) Mãe de Monstros

Mãe de Monstros é um curta-metragem realizado pelas mãos talentosas da jovem e estreante diretora Julia Zanin de Paula do gênero terror, o qual posso afirmar com toda a certeza que é tão melhor produzido e cativante do que muitos blockbusters por aí.

Com um design de produção excelente, acompanhamos a trajetória de uma adolescente que chega a um parque de diversões. Lá, ela é hipnotizada por um dos artistas que maneja e cospe fogo. A partir daí, ela é transportada para um universo sombrio onde encontra monstros na escuridão.

Antes da exibição do filme, a realizadora pediu à audiência que não interpretasse de maneira literal a narrativa utilizada para contar a história. De fato, há algumas cenas chocantes e surpreendentes como, por exemplo, o que fazem com o corpo da menina após seqüestrá-la. Contudo, a maquiagem dos monstros como o palhaço ou o pequeno Frankenstein, aliado a grandes efeitos especiais contribuem para esse efeito arrebatador de artistas de circo que usam de técnicas grotescas em nome do entretenimento e sua relevância no ramo circense.

A direção pelas mãos de Zanin, a apenas 22 de anos, demonstra uma possível carreira promissora: as transições de cena pela iluminação, o enquadramento em plano fechado no rosto da menina que acaba de ser “seduzida” aos charmes do artista são muito eficientes e bem executados. Os ângulos holandeses utilizados e, ainda, um jogo de iluminação perfeito que transita entre feixos brancos, fumaça verde e o preto da escuridão enaltecem esse desamparo da protagonista dentro de um ambiente assustador.

Mãe de Monstros é, em resumo, um dos filmes do gênero mais impressionantes que vejo há muito tempo.

13) A Última Tarde

Se A Fera Na Selva não conseguiu captar toda a magia da verborragia utilizada por Richard Linklatter, A Última Tarde consegue fazer jus ao estilo de sua narrativa com excelência. Dirigido e roteirizado pelo peruano Joel Calero, a história inicia quando um casal comparece ao cartório para realizar um divórcio. Tal relacionamento fora fruto de um período conturbado no Perú, de revoluções e perseguição de rebeldes e durante uma fase jovem de ambos. Porém, Laura e Ramón se separaram em meio à essa época e não haviam se falado já há 19 anos, embora eles tenham construído ao longo dos anos suas próprias vidas, trabalhos e famílias.

Tocante e muito emocionante, conhecemos de perto a história de ambos ao serem confrontados com várias perguntas e respostas de seus respectivos parceiros, quando são forçados a passar “a última tarde” juntos para esperar o juiz validar alguns documentos do divórcio. Assim sendo, eles passeiam pelas ruas de Lima conversando e lidando com o seu passado que, conforme a narrativa progride, percebemos que ela não foi bem resolvida pelo casal.

Calero compreende bem como se faz e se desenvolve esses diálogos e situações que, aos poucos, sempre com muita calma, nos dão informações sobre a personalidade de cada um e a vida de cada um sem nunca perder o interesse do espectador. Neste sentido, nada do que acontece durante a história é coincidência ou mero recurso para prender a atenção de sua audiência, mas contribui diretamente para a construção de seus personagens.

Essa forma lenta do ritmo narrativo também se deve ao fato de Calero utilizar planos longos, com o intuito de fazer com que aquela tarde simplesmente pare no tempo para o casal e, ainda, os planos médios que focam nos personagens se prestam para ressaltar a linguagem corporal de Laura e Ramón e a maneira como eles interagem um com outro: a primeira sempre mais energética, opinativa e extrovertida, ao contrário de seu parceiro que demonstra ser bem mais tímido e reservado. Contudo, as primeiras impressões nos enganam, pois ao longo da trama percebemos que Laura era mais ingênua e se deixava influenciar pelos outros, apenas pela forma como Ramón se surpreende com seu caráter forte e inusitado, enquanto este, por sua vez, se revela alguém mais oprimido e que esconde um lado violento e descontrolado quando, por exemplo, enfrenta um ladrão para proteger a amada ao ter objetos valiosos de seu carro furtados.

Nota-se, gradualmente, como a realidade em que ambos viveram eram fascinante: a opressão do governo ditatorial e os sentimentos de sobrevivência que despertaram logo em seguida em Laura, que é contrastada apenas com um comentário de um taxista rejeitando um movimento pacífico que no momento “atrapalhava o trânsito” e, portanto, seu trabalho. Em momentos de democracia, o individualismo exacerbado ao contrário do espírito coletivo de outrora vivenciado pelos personagens principais denota uma forte crítica de nossa sociedade por parte de Calero. E o mais impressionante é que este posicionamento vem com uma sutileza tão grande que é quase imperceptível o quanto pequenas cenas como esta influenciam na narrativa.

Esse refinamento nos pequenos detalhes que passamos a observar passa a concretizar tudo o que aquele encontro representa para o casal. Posso facilmente resumir essa sensação em diversos momentos da narrativa em detalhes carinhosos e muito simbólicos no trabalho do cineasta quando, por exemplo, observamos no carro, desde o espelho retrovisor, Ana e Ramón olhando para lados opostos, em outras palavras, um casal que dividiu muitas coisas e ainda compartilham sentimentos um pelo outro, mas que insistem em permanecerem distantes.

A Última Tarde se torna, em suma, um dos retratados mais melancólicos e ao mesmo tempo mais lindos sobre relacionamentos.

14) O Violeiro Fantasma

O Violeiro Fantasma é um curta-metragem do gênero de animação realizado por Wesley Rodrigues. Com uma ótima gráfica dos desenhos e uma direção de arte impecável, o cineasta marca uma sociedade sem vida, sem alegria e cuja música já não tem mais sentido ou toca as pessoas da maneira que deveria. Com uma coloração cinzenta da paleta, poucos objetos em cor se destacam a fim de ressaltar esse ambiente com pessoas sempre distraídas, preocupadas em si e envolvidas em sua rotina de sempre.

Os pássaros que ali cantam é um desses elementos de cor, mas que tampouco agrega àquele universo monótono, apenas contribui. É neste contexto que eles conhecem O Violeiro Fantasma que os introduz a um mundo diferente, repleto de cores vivas, alegria, que enaltecem o folclore, a música e as lendas de nosso país, justamente para demonstrar o quanto nossa cultural nacional é rica e cheia de encantos, mas que ao mesmo tempo se vê de escanteio e sem a valorização devida.

Dessa forma, é completamente marcante e pertinente esse discurso tendo em vista os rumos que nossa cultura vem tomando e a pouca importância que lhe concedemos. Os avanços, a globalização, e as mudanças muitas vezes ofuscam aquilo que identifica uma nação, um povo e onde se encontram nossas raízes.

15) Bio

Bio é o mais novo longa-metragem realizado por Carlos Gerbase. Com uma premissa interessante, a história se concentra em relatos acerca de um homem em comum na vida de várias pessoas, construindo, por conseguinte, uma imagem do que seria a personalidade, a fisionomia e a história de vida dele. São pessoas que contam sobre suas experiências com uma pessoa e, ao final, definem a identidade deste personagem que viveu um pouco mais de cem anos e, portanto, tem muito o que contar.

A narrativa se comporta de uma maneira interessante que dialoga muito com o gênero híbrido, pois embora tenha um conteúdo ficcional, ela se desenvolve de maneira documental, em que os testemunhos de familiares, amigos funcionam basicamente como registros de uma vida toda em diferentes fases dela: infância, adolescência, adulto, velhice, comprovando, desta forma, o quanto impactamos aqueles em nosso redor. Nossa imaginação sobre quem seria este tal homem vai além e a construção dos diálogos não entregam de forma completamente direta as situações.

Contudo, o que mais diferencia Bio acaba também sendo ao mesmo tempo um problema, pois se distancia da proposta da linguagem narrativa cinematográfica: não há trabalho de enquadramentos e planos; não há uma história contada por imagens em sua maioria; não há sequer trabalho de mise-em-scène tendo em vista a ausência de interação entre personagens; não há uma montagem fluída e a paleta da fotografia tem uma participação mais tímida na narrativa, além dos tons em roxo, rosa e azul que representam um universo de fantasia.

Ainda que possua um ritmo dinâmico que dá conta de todas as informações, a experiência poderia ser sim muito mais exaustiva do que realmente é. Contudo, fica difícil defender um filme que não incorpora os elementos mais fundamentais de se fazer cinema e, ao contrário, o resultado é de um documentário televisivo inacabado. Outra questão que incomoda é que a premissa seja a de uma identidade a partir de terceiros e não observamos o protagonista (que nem se vê em tela) tomar conta de sua própria história. Apenas pelo cartaz promocional do filme podemos denotar que é uma face construída por outras pessoas e não por ele, dificultando, por conseguinte, obter as nuances de sua personalidade, assim como a motivação por trás de suas variadas atitudes, principalmente em relação aos seus adultérios e, inclusive, algumas ações de seus familiares e parceiras não são explicadas.

É uma sensação estranha e de vazio deixada após a exibição do filme, pois enquanto somos jogados a diversas informações, elas parecem incompletas, momentâneas devido à essa decupagem fragmentada que nunca aprofunda os temas que aborda. Esse sentimento se agrava, ainda, quando ter que fazer essa crítica se torna um trabalho complicado, pois ao mesmo tempo em que Bio é um filme, ele não é um filme. Justamente por não se apropriar de nenhum elemento imagético, como mencionamos anteriormente, não tenho sequer componentes para dar base ou apoio à esta resenha e, assim, analisar de forma completa o resultado do longa de Gerbase.

Há de se louvar a criatividade e a extrema coerência do filme, no entanto, é uma pena que não fora melhor trabalhado.

Por admin, 28 de agosto de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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