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45º Festival de Gramado | Dia #4: Identidade Humana

  • 27 de agosto de 2017
  • Por admin
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45º Festival de Gramado | Dia #4: Identidade Humana
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No quarto dia de nossa cobertura, acompanhamos estreias de longas e cutras metragens que exploram o conceito de nossa identidade humana ou o que nos define na vida.

Segue nossa avaliação da noite, confiram:

8) Cabelo Bom

Cabelo Bom é um curta-metragem sobre um tema inédito, que eu ao menos nunca tinha visto antes, apesar de alguns comentários sobre o mesmo assunto terem aparecido brevemente no documentário de Ava DuVernay, a 13ª Emenda. Tal como o título sugere, o filme trata-se sobre o cabelo… de mulheres negras.

A princípio, a abordagem pode parecer estranha ou algumas pessoas podem achar que não há exatamente algo relevante a ser falado sobre, mas há sim. De fato, as mulheres negras historicamente foram um grupo das que mais sofreram com as exigências estéticas impostas pela indústria da moda e, inclusive, que fez parte de um racismo ridículo enraizado em nossa sociedade e cultura.  O cabelo frisado, a pele mais morena, todas essas características foram oprimidas durante muito tempo, e é por isso que o tema se torna tão relevante mesmo atualmente.

Dessa maneira, algumas mulheres negras prestam seus depoimentos pessoais acerca de suas próprias experiências, visão de mundo, impressões sobre o presente e expectativas para o futuro. Ao mesmo tempo, imagens de mulheres maravilhosas exibem seus penteados diante da câmera.

Muito bem fotografado em ambientes de aconchego e familiares para as entrevistadas a fim de deixá-las mais confortáveis, o conteúdo das conversas é extremamente impactante e possui um caráter didático que precisava ser realizado. No entanto, impossível não deixar de perceber que o curta merecia um desenvolvimento mais profundo da narrativa do que simplesmente apresentar as entrevistadas, restringindo, por conseguinte, a visão de campo para o espectador ir além dos testemunhos relatados à quarta parede.

Mesmo assim é um ótimo filme que espero que possa dar inicio a debates acerca dos preconceitos raciais e modelos de estética absurdos.

9) El Sereno

El Sereno é um longa metragem uruguaiano com uma história muito forte e cuja temática se assemelha muito ao filme argentino Neve Negra, quando o protagonista, em contato com um determinado ambiente, passa a ter suas lembranças muito vivas em sua mente a ponto de se misturar com a própria realidade.

O filme do gênero suspense inicia com uma referência ótima de O Iluminado, quando o dono de um depósito contrata um vigia para tomar conta do espaço durante a noite, até que o contratado passa a vivenciar experiências misteriosas e perturbadoras no local. Uma ótima ideia que, infelizmente, fora pessimamente executada. Apesar de começar bem e ter elementos que instigam demais nossa imaginação, como por exemplo, as ilusões que passa a ter, as pequenas pistas jogadas como uma lanterna no chão, ou o som de uma sirene ao fundo, ou as perguntas “pertinentes” de seu novo chefe, acerca de filhos, esposa, etc, nos dão cada vez mais a noção da identidade do protagonista e sua trajetória, o que nos faz perceber que ele possui um passado muito mais sombrio do que imaginávamos pela sua aparência cansada, e com pouquíssimas reações em tom monossilábico. Os cenários em tom cinza complementam com a cor de sua vestimenta, demonstrando o quanto ele se camufla e está inserido não coincidentemente naquele ambiente, que cada vez mais se torna familiar.

Gosto particularmente de como foi possível juntar o real e a ficção para o personagem, cujos fantasmas passam a assombrá-lo de tal forma a quase enlouquecê-lo: a ex e a atual mulher, o seu temperamento violento que mal esperávamos, as fichas do cassino inclusive dão um ótimo toque para essa narrativa.

No entanto, há muitos elementos deslocados como, por exemplo, o aparecimento de pessoas em um carro que não é bem esclarecido; um cenário novo que não é bem colocado na geografia do depósito; ou a sua verdadeira conexão com seu chefe que nunca é explicada. Aliás, acredito que a geografia é um dos principais problemas porque nunca conseguimos nos localizar como o vigia consegue. Mas o maior deles é definitivamente a montagem, que aparenta querer lembrar um quebra-cabeça que introduz as peças aos poucos para que ao final possamos ter uma imagem completa de tudo aquilo. Ocorre que, tal efeito jamais chega a se concretizar, não só os elementos sem explicação ou justificativa nenhuma, mas também porque o longa não sabe a hora de terminar, pois a narrativa se torna cada vez mais fragmentada com picos de altos e baixos.

Dessa forma, é perceptível que no curso do final do segundo para o início do terceiro ato, a narrativa tem dois ou três clímax diferentes seguidos de momentos de alívio, nos dando a impressão, por conseguinte, de que o filme irá acabar ao menos umas quatro vezes, e contudo, são introduzidos mais e mais plot twists, parecendo nunca terminar, principalmente pelas rimas visuais do protagonista trocando de roupa no vestuário dos funcionários.  Com certeza tal abordagem leva a sentir que o filme é muito mais longo do que efetivamente é, pregando “peças” em seu espectador desnecessariamente.

El Sereno é um filme que poderia muito certo, se fosse melhor desenvolvido.

10) #Feique

Em um momento da nossa história em que a tecnologia está cada vez mais tomando um espaço maior na construção de nossa identidade, #Feique explora o que mais de malefícios essa ferramenta digital pode proporcionar na relação entre as pessoas.

Com uma ótima premissa, o segundo curta metragem da noite começa muito bem: Carlos, o protagonista, escolhe parceiras por meio do “Skinder” ou o “tinder”, nomeado diferente aqui por questões de direitos autorais. Movido então por um trauma de infância, ele então começa um relacionamento virtual com Renata e fica tão obsecado pela moça que forja imagens pessoais para ter coisas em comum com a amada ou vender uma imagem de “príncipe perfeito”. Neste aspecto, é maravilhoso ver como a narrativa é construída, por exemplo, o protagonista veste um terno para tirar uma foto em frente a um prédio, mas vestido ao mesmo tempo de shorts; ou então uma foto tirada com meninos de rua, os quais são posteriormente ignorados pelo protagonista; ou as espiadas no celular para conferir “dicas” para seduzi-la, entre outros.

No entanto, conforme a narrativa progride, a história forma “plot twists” com proporções muito artificiais e sem muito nexo, além de que Carlos precisou literalmente de um Ex-Machina para sair da situação embaraçosa que se envolve quando um mafioso chega para cobrar uma dívida que ele contraiu em meio a seu encontra com Renata, contudo, parece mais uma tentativa preguiçosa de apresentar um desfecho rápido do que desenvolver uma situação improvável que possa funcionar. Porque não funcionou.

Ainda assim, #Feique é um retrato justo e honesto do quão absurdo e fora de controle a internet se torna para as pessoas, pois elas podem criar inúmeras identidades falsas e versões perigosas de nós mesmos.

11) Pela Janela

O segundo longa metragem brasileiro da noite é Pela Janela, um dos retratos mais carinhosos e honestos sobre a identidade humana. Uma senhora chamada Rosa que passou anos trabalhando para uma fábrica é abruptamente demitida devido a uma fusão de empresas. Desolada, e sem rumo, ela quase entra em depressão quando seu irmão, Zé, a convida a viajar para a Argentina, onde deve ir em razão de seu trabalho, e a acaba convencendo mesmo contra a vontade da irmã. A partir daí, as experiências da protagonista no estrangeiro começam a ter um efeito transformador em sua vida.

Esse é um filme completamente sensorial, com pouquíssimos diálogos e um design de som totalmente natural e diegético, no qual devemos sentir cada imagem e enquadramento realizado pela diretora Carolina Leone, já veterana no ramo. No primeiro ato, mostra-se uma Rosa completamente dedicada e feliz com o seu cotidiano, até que a triste notícia lhe dada por meio de seu patrão que nem aparece em tela, apenas sua voz no contra-campo, demonstra o quanto impessoal aquela reunião e decisão foram. O desespero é tanto, que a protagonista inclusive retorna depois perguntando se não precisam de ajuda, até que ela é apresentada ao seu substituto: uma pessoa qualificada e muito mais jovem que ela, momento em que posteriormente a realidade lhe toca de forma avassaladora a ponto de sequer se mover da cama, afinal seu emprego e sua vida pacata em um bairro humilde de São Paulo era o que definia sua vida.

O convite do irmão fora durante boa parte da jornada até o país vizinho contestado por Rosa, a qual não escondida seu desconforto e sua pouca vontade em embarcar na viagem. Quando chegam em Foz do Iguaçu é que ela realmente percebe a incrível beleza do mundo exterior e a graduada mudança de cultura e língua: é quando ela sai da “bolha” de seu pequeno mundo em São Paulo para testemunhar algo muito maior. A forma como Leone representa isso é simplesmente de tirar o fôlego: planos fechados e concentrados na atuação incrível da atriz personifica de maneira perfeita o estado de alegria e incredulidade ao presenciar de perto as Cataratas do Iguaçu, instante no qual ela passa a ficar muito mais aberta às experiências que vem a ter.

Leone também cria rimas visuais interessantíssimas que dialogam e contrastam com o mundo vivido antes por Rosa e durante a viagem: uma blusa azul que ela nunca pensaria usar se torna um símbolo perfeito de sua transformação; os bordados que costumava a fazer sozinha passa a ser um instrumento para se aproximar das pessoas; os almoços longos solitários em seu trabalho posteriormente se tornam uma oportunidade para conhecer novas pessoas; os passeios pelos bairros e as lojas são muito mais apreciadas; os momentos com o irmão se tornam muito mais ternos do que ordinários ou cotidianos, como se aproximar dele por meio da música; e as jantas sozinhas passam a ser regadas de comida, bebida e novas amizades. Tudo isso tem um impacto forte no espectador que passa a vigiar de perto as reações de deslumbre por Rosa que são perceptíveis no seu jeito tímido, mas curioso por tudo aquilo.

Mas o que passa a ser ainda mais marcante é um símbolo de um quadro das cataratas, pois sabemos exatamente o que ela representa para a protagonista e o seu retrato não poderia ser mais pertinente ou mais sutil, pois sem soltar nenhuma palavra, o olhar fixo de Rosa para aquela imagem já nos diz tudo.

Um filme perfeito para encerrar a noite.

Por admin, 27 de agosto de 2017
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Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
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