Voltar para Página principal
Em Festivais

45º Festival de Gramado | Dia #3: Amor Negligenciado

  • 24 de agosto de 2017
  • Por admin
  • 0 Comentários
45º Festival de Gramado | Dia #3: Amor Negligenciado
No votes yet.
Please wait...

No terceiro dia do festival de gramado dois longa-metragens, uma produção argentina e outra brasileira, foram apresentados e ambos tratam de um amor negligenciado durante tempos difíceis e também em tempos de paz. Confiram quais são eles:

6) Sinfonia para Ana

Sinfonia para Ana é um filme assustadoramente atual e arrebatador, que se passa no período conturbado da ditadura militar argentina dos anos que sucederam à morte do presidente Perón, ou seja, da década de 60 em diante.

Ana, interpretada por Isadora Ardito, é uma menina de classe média e que estuda em um dos colégios mais prestigiados de Buenos Aires, e que levava uma infância e um começo de adolescência feliz em uma família estável, até que as ameaças de um golpe militar e a ascensão gradual da extrema direita lhe fez despertar um interesse em se envolver politicamente junto com outros jovens e sua melhor amiga, para defender o país.  Um gesto que a principio era nobre, acaba entrando em conflito com os pais que se preocupam com a segurança da filha, na medida em que muitos estudantes acabam sendo presos, mortos e torturados. O que é uma abordagem muito interessante, pois de fato há certo idealismo de que seus protestos vingarão e ao mesmo tempo uma certa imaturidade para o que estava realmente acontecendo e o perigo a que ela estava se submetendo. Mas ainda com todos os obstáculos há uma grande resistência e força por parte da protagonista, a qual também luta para estar com seu namorado Lito, cuja dificuldade advém de ideologias políticas distintas entre os estudantes.

A magia deste filme está na sua fotografia, pois constantemente muda a razão de aspecto e a granulação da película que eram da época para transitar memórias como relatos históricos, além de lembranças da infância e momentos alegres e tristes. Muito dessa técnica também é reservada para reconstituir o destino de alguns personagens, como, por exemplo, Camilo. O cenário principal é indubitavelmente o colégio, cuja arquitetura europeia que emitia tons mais aconchegantes se torna cada vez mais frio e azulado conforme são atingidos pelos militares e autoridades policiais. Uma cor que também é aproveitada para evocar um sentimento de patriotismo quando se junta com a luz branca e, neste caso, podemos mencionar o plano de um horizonte que filma um avião sobrevoar o aeroporto em céu claro e sem nuvens com um sol brilhante e branco, lembrando a bandeira nacional.

A experiência se torna muito sensorial também pelas composições da trilha sonora que transitam entre o diegético e as harmonias dos instrumentos de corda, para dar vida a uma “sinfonia”, basicamente, assim como os contrastes imagéticos. Por exemplo, se durante o começo do movimento estudantil realizado pré-golpe se burlava de quem possuía um pensamento de direita, os papeis se subvertem quando esta é quem está no poder. Da mesma forma, na medida em que os militares pressionam e abafam qualquer movimento contrário à sua ideologia, Ana passa a ficar cada vez mais isolada e sozinha.

Alguns problemas surgem no terceiro ato, em especial, no desfecho por meio de uma montagem confusa que não acerta exatamente aonde deve terminar a trama. Ademais, há alguns excessos e exageros por parte da direção quando em muitos momentos opta por planos fechadíssimos, os quais embora representem o sufoco e a angustia vivenciados pela protagonista, em outros não se demonstra tão necessário como em um debate entre estudantes ou uma conversa com sua melhor amiga.  

A despeito disso, impossível não sentir as dores dos personagens, suas frustrações, anseios sendo também impossível sair ileso depois de assistir ao filme. Algumas histórias ficam no passado, mas ainda se revelam essenciais para serem lembradas.

7) A Fera na Selva

A Fera na Selva é um filme brasileiro dirigido, roteirizado e contracenado pela dupla Paulo Betti e Eliane Giardini. Baseado na peça teatral que ambos também participaram, a qual, por sua vez, é adaptada de um conto homônimo escrito por Henry James. João e Maria são desconhecidos, mas se encontram em momentos distintos ao acaso e, a partir dessas coincidências, surge uma forte relação de amizade. Esse relacionamento, todavia, se estabelece em razão de um acontecimento que João sabe que vai acontecer e que vai mudar completamente a sua vida e pede para que a companheira aguarde com ele, o que ela acaba aceitando prontamente.

É uma história que possui uma ótima premissa, mas que possui um problema extremamente sintomático de peças que viram histórias no cinema. Algo que frisei bastante na minha cobertura do Óscar ao fazer a crítica de Um Limite Entre Nós, estrelado por Viola Davis e Denzel Washington, e que aqui volta a ocorrer. Dessa forma, é importante ressaltar novamente que cinema e teatro, embora dialoguem entre si, são duas artes completamente diferentes em sua execução, portanto, A Fera na Selva acaba sendo uma decepção por não saber usar corretamente a linguagem narrativa cinematográfica: as ações são teatrais, há muitos diálogos artificiais e filosóficos, além de uma narrativa bastante episódica e fragmentada em pedaços. O que parecia, a princípio, uma abordagem referenciada à trilogia de Richard Linklatter (Antes do Por do sol, Antes do Amanhecer, Antes da Meia-Noite), acaba se tornando muito esquemático por falta de naturalidade e profundidade no conteúdo de suas conversas. Em certo momento Maria afirma que ambos tiveram uma jornada longa, que passaram por muita coisa juntos, mas nada disso nós testemunhamos. É como se o casal fosse conectado apenas por uma coisa e não que ela seja uma dentre várias: os relacionamentos são muito mais complexos do que vemos em tela.

Neste contexto, o casal quando interage entre si, somente possui um tema o qual eles repetem à exaustão. Claro, a intenção aqui é pela frustração excessiva em se preocupar com eventualidades do futuro, mas ainda assim não há muita diversidade na conversa que ao mesmo tempo agregue àquela espera e o que ela de fato significa: os mesmos discursos, os mesmos tons e até as mesmas palavras são todas as vezes pronunciadas pelos personagens que chega a cansar o espectador. Os noventa minutos de projeção parecem intermináveis. Outro grande equívoco que contribui para esse fator é a narração em off realizada por José Mayer que é simplesmente redundante e desnecessária: se não bastasse os próprios personagens repetindo as mesmas coisas um para outro temos que escutar o narrador soltar toda aquela verborragia pela terceira vez.

O único elemento que realmente tem força nessa narrativa é a cinematografia. Os planos gerais em uma vasta floresta ou em meio a um extenso rio que isolam os personagens naquele ambiente natural é de tirar o fôlego e tem uma simbologia muito forte com a mensagem da trama, pois representa o ânimo e a situação em que eles se colocam para si no mundo. Além disso, é interessante perceber como as cores e os estilos dos móveis da casa de cada um se complementam e combinam, representando essa sintonia entre ambos, assim como as cores vivas do sofá vermelho que na velhice se tornam mais escuras, como um bordô. A herança que Maria recebe e logo após o casal testemunha uma dança local igualmente possui uma força muito grande, pois representa um dos poucos momentos descontraídos sem toda aquela preocupação. São pequenos detalhes como esse, que são muito preciosos em A Fera na Selva, mas infelizmente não são o suficiente para sustentar um filme demasiado expositivo.

Por admin, 24 de agosto de 2017
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Sobre mim
Gabriella Tomasi
Crítica de cinema, autora do site Ícone do Cinema, colunista para o site Cabine Cultural, membro do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema - ELVIRAS. Tradutora e revisora freelance de textos.
Advertisement
Siga-nos
Newsletter
Receba nossas Novidades
Encontre-nos no instagram

@iconedocinema