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45º Festival de Gramado | Dia #2: Vidas Oprimidas

  • 23 de agosto de 2017
  • Por admin
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45º Festival de Gramado | Dia #2: Vidas Oprimidas
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O segundo dia de festival, pelo Ícone do Cinema, não foi tão marcante quanto o primeiro, especialmente pelo grau de responsabilidade da temática que abordam. Todavia, são filmes muito importantes com histórias sobre vidas oprimidas na latino-américa.

4) Los Niños

A cineasta Maite Alberdi resolve em seu longa metragem explorar um assunto pouco retratado pela indústria cinematografia e, embora seja uma parte do cenário vivido pelo Chile, onde se passam as filmagens, não me atrevo a duvidar que tal situação não seja o mesmo para o mundo todo, qual seja, a realidade de pessoas com Síndrome de Down.

A sensibilidade que Alberdi possui é completamente ímpar e faz toda a diferença para mergulhar inteiramente no mundo deles. Em gênero documental, acompanhamos um grupo de pessoas com a referida deficiência que diariamente vão para uma escola, onde eles podem se sentir livres, participar de aulas educativas e desenvolver habilidades para se tornarem cada vez mais autosuficientes.  Neste contexto, surgem nossos “personagens” principais aos quais somos introduzidos e cujas jornadas são exploradas de perto: Rita, Ricardo, Rodrigo, Ana Maria são os  destaques, ainda que hajam outros igualmente relevantes. Cada um possui um grau diferente de consciência, uma idade diferente, uma mentalidade diferente. Fazer parte e conhecer o universo de cada um deles é sensacional.

Para este efeito, ou seja, para que possamos efetivamente nos aproximar de cada um, Alberdi opta por enquadrá-los em planos mais fechados em uma profundidade de campo muito reduzida, concentrando na reação e no comportamento de cada um deles, assim como abrir o campo de visão do espectador até o plano médio apenas para que observemos como eles interagem entre si. Da mesma forma, os “adultos” desta história, ou seja, seus tutores, pais, professores, e pessoas que não estão inseridas na mesma condição que eles, nunca são vistas por completo, sempre no contra-campo, totalmente desfocados ou fora de quadro, propositalmente para que o enfoque da narrativa não se perca e a audiência não se distraia com elementos irrelevantes.

Assim sendo, é por meio dessas escolhas que somos submersos na visão, opinião e comportamento deles, tornando cada alegria e cada tristeza uma experiência mais intensa como, por exemplo, o anseio urgente de viver sozinho, trabalhar para o seu próprio sustento e construir uma família, os quais constituem objetivos que a maioria deles compartilham e, portanto, sentimos a mesma frustração que eles possuem quando não conseguem alcançar isso, seja pelo salário baixíssimo de 10 dólares mensais, seja pela própria dependência daqueles que respondem por eles legalmente, barrando qualquer decisão sua, como a vontade de um casal em se casar.

É impressionante testemunhar de perto e sem intervenções a maneira como eles interpretam e raciocinam o mundo ao seu redor, o que não é muito diferente de qualquer pessoa, como por exemplo, o fato de o namorado de Ana Maria, a qual passava por frustrações pelas restrições impostas pela mãe, explicar pacientemente para a amada que infelizmente a situação deles é essa e mesmo querendo se casar e ter uma vida a dois, eles dependem da decisão de outras pessoas, fazendo com o que o título deste longa seja mais simbólico ainda. Afinal, eles agem e pensam como adultos, mas justamente por essa barreira legal e social que não os permitem conviver na sociedade livremente, demonstra um tratamento semelhante aos que são submetidos as “crianças”.

Mais que tudo, portanto, é uma maneira que a cineasta também encontra de desconstituir qualquer tipo de preconceito ou pré-conceito que se tem em relação à deficiência, de como é difícil ser minoria e viver em um mundo opressor.

Maravilhoso.

5) X500

X500 é um longa-metragem dirigido pelo colombiano Juan Andrés Arango, no qual aborda a vida de três personagens distintos e em mundos diferentes, mas com uma experiência em comum: a de imigrante em país estrangeiro, conduzindo-os a contragosto à uma vida inserida no crime e no vandalismo.

Partindo de uma montagem alternada, pula-se em jump cuts de um personagem para o outro para dar continuidade à narrativa e à história de cada um: primeiro temos Davi, que foge de sua aldeia após a morte de seu pai para tentar uma vida na urbana Cidade de México, porém, ao se estabelecer lá, uma gangue criminosa passa a persegui-lo; a segunda é sobre Alex, um jovem pescador afro-colombiano que retorna dos Estados Unidos para o seu vilarejo e acaba se envolvendo a si e seu irmão caçula em meio à uma quadrilha organizada e; finalmente, temos a história da adolescente filipina Maria que, após a morte de sua mãe, é forçada a viver com a avó no Canadá contra a sua vontade e, acaba desenvolvendo atitudes muito agressivas e a conviver com amizades de má influência.

Devido à essa opção narrativa de pular de uma história para outra é que o cineasta nos mantém cada vez mais intrigado e envolvido na trama. Os cortes são precisos e momentos “cliffhangers” (desfechos que são definidos posteriormente) para manter a curiosidade e a tensão no espectador. O movimento de câmera é bastante realista. Tanto, na verdade, que chega a flertar com o gênero híbrido: o aparato na mão acompanha os passos dos personagens e as instabilidades do movimento do aparato traduzem o tom dramático da situação e refletem o ânimo de cada cena. É muito interessante observar igualmente como em momentos particulares cada um deles é engolido completamente pela escuridão, transparecendo uma vontade de se camuflar com o ambiente, sem poder, contudo, escapar da situação em que se encontram.

Contudo, o que enfraquece fortemente a narrativa, assim como a sua história, é desenvolver um objetivo claro: as lacunas deixadas pelas elipses são tão amplas que não conseguimos exatamente entender ou fazer uma conexão clara do que aconteceu entre o momento em que se pára a cena, e da onde ela retoma. Por exemplo, em um determinado momento não vemos mais Davi trabalhar, ou então, Maria que apenas um dia de bullying surta e começa a desenvolver um grau de rebeldia e um tratamento agressivo em relação à sua avó que não condiz muito com a breve experiência que vemos tela, parecendo artificial. Isso sem mencionar o desfecho completamente desconexo, sem sentido e sem tomar qualquer responsabilidade pelos seus atos: ao final, parece uma birra inconsequente para conseguir o que quer. Por fim, ainda que se almeje uma ponta solta para que possamos deduzir o seu desfecho, não consigo explicar ainda como Alex resolveu do dia para a noite se tornar o “chefe” da gangue em que se meteu – literalmente de paraquedas – e nem conseguimos decifrar o que pretende ao final a respeito disso.

Neste sentido, X500 resulta em uma experiência por vezes comovente, mas ao mesmo tempo extremamente confusa, não garantindo uma coesão narrativa definida para que o espectador possa de fato compreender as imagens que vê em tela: falta conteúdo; falta responsabilidade dos personagens; falta preencher os vazios deixados na história.

Por admin, 23 de agosto de 2017
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