Voltar para Página principal
Em Festivais

45º Festival de Gramado | Dia #1: A Luta Feminina

  • 21 de agosto de 2017
  • Por admin
  • 0 Comentários
45º Festival de Gramado | Dia #1: A Luta Feminina
No votes yet.
Please wait...

O primeiro dia do Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul, pelo Ícone do Cinema, foi um dia de muitas surpresas boas, com filmes especiais que abordam particularmente o universo feminino a partir de diferentes pontos de vistas e contextos socioeconômicos.

Muitos deles saíram direto de festivais internacionais como Cannes e Berlim. Na mesma noite, houve a cerimônia de premiações para curtas regionais, confiram!

1) A Natureza do Tempo

Primeiro longa-metragem do diretor argeliano Karim Moussaoui, Until The Birds Return, no original, conta a história de três personagens masculinos distintos e separadamente. Neste contexto, o interessante e o que se destaca deste longa-metragem é como todos lidam com o seu mundo particular, principalmente pela relação que possuem com as mulheres no universo pós-moderno do país africano, pois acima de tudo, trata-se apenas de recortes de histórias de determinados momentos na vida de cada um deles e o desfecho cabe a nós imaginar.

Na primeira história acompanhamos o personagem Mourad (Mohammed Djouhri), um empresário enfrentando dificuldades financeiras, que está no meio de dois relacionamentos: um com sua ex-esposa e um filho inseguro com as escolhas profissionais, e a sua atual esposa francesa que tenta se estabelecer no país com grandes dificuldades. Conforme os deveres paternos surgem com maior frequência e demandam mais dele, a relação com sua esposa entra em conflito, já que Mourad pouco a inclui no cotidiano. Portando, aliado ao fato de estar em uma condição de estrangeira naquele local ao ser recusada em várias entrevistas de emprego, a amada se sente negligenciada pelo parceiro, motivo pelo qual declara sua vontade em retornar para o seu país natal. Os dilemas na vida de Mourad se tornam ainda mais impactantes quando testemunha, de longe, uma agressão física bastante grave, e, por ter sido omisso ao não chamar as autoridades no mesmo instante, acabando carregando sua conduta como um fardo nas costas.

Em seguida, temos o personagem Djalil (Mehdi Ramdani), o motorista de Mourad que lhe pede licença de seus serviços para realizar outro, qual seja, conduzir o pai, a mãe e sua filha Aicha (Hania Amar) até o casamento desta. Contudo, conforme a narrativa progride, percebemos que ele e a futura noiva não são tão estranhos um em relação ao outro, dividindo um passado em comum. Por fim, temos a história de um neurologista Dahman (Hassan Kachach), o qual fica indignado ao saber de um rumor sobre seu suposto envolvimento em um estupro coletivo por uma mulher que agora o busca na cidade, o que leva Dahman a confrontá-la pessoalmente sobre o ocorrido. Na sequencia, descobrimos que suas atitudes são bastante semelhantes à de Mourad.

O que este filme tem de fascinante é como as histórias se conectam. Trata-se de pessoas que se interligam entre si: Djalil é motorista de Mourad e, por sua vez, somos introduzidos ao personagem de Dahman posteriormente por meio de um taxista que conduzia Aicha novamente para a cidade. O longa termina com outro personagem que Dahman conhece.  Essa técnica de histórias que se sucedem não somente confere organicidade em torno do desenvolvimento narrativo por meio de uma montagem muito sutil, mas também constitui uma metáfora sobre como todos nós, como humanos, somos de uma forma ou outra conectados uns em relação aos outros, ou seja, nossas vidas se complementam,e como as pequenas atitudes que tomamos em nossas vidas podem definir o futuro de uma sociedade como um todo. É o que sempre diz o velho ditado popular: se cada um fizesse sua parte, o mundo seria bem melhor. Dessa forma, o arco dos personagens se define pela atitude que eles tomam no momento em que são confrontados com o seu passado.

Em relação às personagens femininas, é evidente que, em um país extremamente patriarcal elas se distinguem. A esposa atual de Mourad não se contenta em esperar pelo marido todas as noites; Aicha demonstra mais um espírito forte ao tirar o lenço para caminhar, dançar e tomar decisões por ela mesma (como, por exemplo, que ela mesma escolheu seu futuro esposo) e; uma vítima de estupro que se recusa a ficar calada. São particularidades de mulheres muito pouco representadas em decorrência da religião, mas que são fascinantes e intrigantes.

O contexto político e a mensagem que o cineasta tenta passar com essa abordagem é muito evidente. Por meio de planos contemplativos, notamos um país desgastado e imperfeito na zona urbana, enquanto podemos observar muitas ruínas em sua planície desértica na zona rural, o que denota os destroços deixados pela Guerra Civil Argeliana nos anos 90, contribuindo ao mesmo tempo para um cenário perfeito que, como resultado, simboliza de maneira eficiente o universo conturbado de cada um dos personagens.

Karim Moussaoui, portanto, garante uma carreira promissora com uma grande estreia em longa-metragens. Mal podemos esperar por mais obras do diretor.

2) Médico de Monstros

Médico de Monstros é o primeiro dos dois curta-metragens exibidos na mesma noite. Ela conta a história de um menino que cresceu em uma família unida, acolhedora, e fãs de filmes de terror, evidente pelas sessões de Frankstein à noite. Aficionado, portanto, por monstros do cinema, com inúmeras referências do gênero pelos objetos espalhados no seu quarto compartilhado com a irmã, ele se espelha igualmente na profissão de seu pai, qual seja, a de médico. Dessa forma, o garotinho – unindo duas paixões – declara em sala de aula seu desejo de ser “médico de monstros”  quando crescer como parte de sua tarefa de casa, mas tal revelação diante à classe acaba sendo alvo de piada por todos os seus colegas, e sua professora também.

Fica claro durante a exibição o carinho que o diretor possui pela temática: os desejos e fantasias infantis, a frustração de ter suas idealizações ridicularizadas por meio de bullying (tão fortemente traduzidas quando o menino joga seu “uniforme” no lixo), e, posteriormente, a retomada daquele sonho sendo concretizado, neste caso, quando surge um monstro pedindo para consertar seu chifre quebrado. Os elementos ficcionais, portanto, em colisão com a abordagem mais realista da trama pelo cineasta Gustavo Teixeira possui um efeito que podemos facilmente nos identificar na nossa vida adulta: quem nunca se sentiu desmotivado por pessoas que pouco deram caso às nossas aspirações e, apenas muito mais tarde nós nos damos conta que podemos sim, realizar nossos sonhos com nossos próprios esforços?

Assim sendo, é muito impactante essa mensagem, inclusive para o público infanto-juvenil ao qual o curta pretende especialmente atingir. É a esperança que precisamos ter em meio à tanta rejeição, de que podemos sim ser o que quisermos na vida, por mais excêntrico, diferente ou difícil que de início possa parecer.

Basta persistir.

A Gis

É maravilhoso que a indústria cinematografia esteja criando uma consciência mais sólida, na qual realizadores estão se sensibilizando pela luta de muitos e de como é importante contar histórias como a de Gisberta, a Gis que permanece eternizada na canção “Balada de Gisberta” de Maria Bethânia e que poucos, infelizmente, conhecem sua história.

Se antes comentei em minha crítica em relação à produção da Netflix sobre a essencialidade de Laerte Coutinho, a cartunista transexual, de encorajar o debate para o reconhecimento de toda uma comunidade que é bastante discriminada, não podemos tampouco nunca deixar Gisberta no esquecimento, pois sua morte é um dos problemas mais sintomáticos de uma sociedade intolerante com o diferente sem ao menos tentar entender o outro, e cujos medos em relação a estes são respondidos em forma de ódio e violência. Gisberta foi vítima de torturas e agonizou durante dias devido aos atos brutais de 14 adolescentes transfóbicos em Portugal, até o momento em que chegou a falecer em 2006, aos 45 anos, posteriormente encontrada no fundo de um poço, onde foi jogada.

Este curta-metragem se concentra na trajetória da menina brasileira que nasceu em São Paulo como Gisberto Salce Junior e foi buscar no país europeu uma carreira de dançarina, mas acabou encontrando muitas dificuldades. Relata-se, principalmente, o que ocorreu após a sua morte, ou seja, a consequente comoção pela sua história dentre recortes de notícias de jornal e documentos do inquérito que seguiu a investigação. Interessante observar nos pequenos detalhes a forma como ela passou a se identificar, com algumas correspondências enviadas a familiares assinado como “gilbert*”, omitindo a vogal ao final em seu nome. Os testemunhos sobre sua vida na infância são igualmente muito impactantes. Neste contexto, a montagem é verdadeiramente sutil, a fim de humanizar uma pessoa vítima de uma agressão tão chocante, que somente conseguiu fazer diferença por seus direitos em decorrência de uma infeliz tragédia. Assim, a escolha de somente divulgar suas fotos ao final do curta foi eficiente para que deixemos o preconceito advindo da “aparência física” e, deste modo, podemos conhecer “quem ela era” antes de “como ela era”.

Contudo, há por vezes uma ausência de organicidade nos testemunhos, pois muitos deles se resumem a monólogos, leituras de textos, principalmente a leitura de um documento realizado pelo bombeiro que resgatou o seu corpo. Infelizmente,  esses detalhes prejudicam um retrato mais definido acerca de sua personalidade na fase adulta, assim como um diálogo direto com o espectador da mesma forma como foram compartilhadas as memórias de seu irmão e cunhada. Todavia, essas lembranças mais significativas se restringem à sua infância.

A despeito de alguns equívocos em sua narrativa, a sensibilidade em A Gis fala mais alto e é difícil alguém sair ileso depois de assistir à essa intensa história. Que muitos realizadores continuem a conscientizar a população sobre transexuais que são vítimas de violência, agressões e homicídios todos os anos.

Infelizmente, nós temos que relembrar que eles são, acima de tudo, humanos como qualquer outra pessoa.  

3) As Duas Irenes

As Duas Irenes é um dos longas brasileiros mais aguardados do ano de 2017. Dirigido e roteirizado por Fabio Meira, a história gira em torno de uma menina de 13 anos chamada Irene – interpretada por Priscila Bittencourt – que, certo dia, descobre possuir outra irmã, fruto do relacionamento de seu pai com outra mulher, de mesma idade e com o mesmo nome, Irene – esta interpretada por Isabela Torres. A curiosidade desperta na garota, o que leva a se aproximar da meia-irmã e aos poucos ambas se tornam muito próximas e amigas, porém, Irene esconde sua real identidade, se fazendo conhecida por “Madalena”.

O contexto é muitíssimo bem executado em um período distante da história moderna, mas que ainda continua sendo muito atual. A abordagem naturalista da fotografia que valoriza o meio ambiente criando uma atmosfera interiorana convincente faz, por conseguinte, nos situar na típica estrutura paternalista e rural das famílias. O ritmo lento, mas calculado, nos dá a sensação de que o tempo ali parou naquela região. Irene de Priscila é a filha do meio que sofre das negligencias da mãe, eis que a filha mais velha se prepara para debutar e irmã caçula precisa de cuidados maiores. Enquanto estas duas últimas crescem idealizando o papel da mulher que lhes é imposto, Irene se sente deslocada e insatisfeita com estas exigências. Neste sentido, a aproximação à Irene de Isabela lhe desperta uma espécie de sentimento de inveja mesclado com admiração, porquanto a meia-irmã é criada em um cenário muito mais livre, sem regramentos sufocantes, por uma mãe bem mais compreensível e presente que a sua.

Este também é um perfeito exemplo de película “coming of age”, eis que ambas personagens se encontram na fase mais crítica de sua adolescência, na qual elas aprendem amadurecer juntas, como compartilhar experiências do primeiro beijo, primeiro cigarro e outras. Irene de Priscila, uma menina bem mais magra do que sua voluptuosa e já bem desenvolvida irmã, assume contornos mais independentes, e espelhados em sua outra “Irene”. É possível perceber pelas sutilezas de Meira quando a protagonista se depara pela primeira vez com sua irmã tomando banho no quanto do quadro e desfocada, representando todo o seu desejo de possuir um físico semelhante, mas que lhe é distante de se tornar realidade; ou quando a observa a se relacionar com outros meninos querendo as mesmas experiências; ou até mesmo quando ela se observa no espelho e ao fundo, encontra-se a sua outra “metade” Irene – simbolizando uma imagem duplicada de si mesma, ou que ela deseja que fosse sua imagem. Assim sendo, a Irene de Priscila se torna gradualmente mais empoderada, se vestindo de uma maneira mais solta e se desligando da família emocionalmente. Neste contexto, é curioso notar os enquadramentos precisos e simétricos de Meira na mesa de jantar, na qual de longe vemos na ponta da mesa o pai – o centro da família – até que no decorrer da narrativa essa posição é substituída pela protagonista.   

É, portanto, a partir desses encontros, desencontros e plot twists que as personagens principais passam a ter – ou almejar – maior controle em suas vidas e querendo se desvencilhar de tanta opressão, encarado e interpretado inclusive como uma “revolta” ou “rebeldia” para as figuras adultas, mas que por trás destes atos elas almejam ir contra esse sistema patriarcal e misógino que a imagem do pai – ou o homem em geral – delas representa. Perceba como todos os personagens masculinos, inclusive os meninos da mesma idade, possuem a mesma característica, sempre querendo ter o controle da relação amorosa por gestos mínimos, como tentar atrair atenção de uma menina tirando o calção de banho ou tentando passar a mão na bunda enquanto beija uma garota. Não digo que Tonico, interpretado por Marco Ricca seja um personagem estereotipado como os demais. Pelo contrário, ele é aqui humanizado como uma figura paterna “responsável”, pois ainda que esconda ter outra filha, se faz muito presente na vida das duas, e transmite um carinho imenso por ambas, mas ao mesmo tempo nunca deixando de lado a característica machista e homem “provedor do lar”. É uma relação de amor e ódio experimentado pelas filhas, eis que por mais que haja um grande amor por ele, não é possível esconder o rancor de esconder um importante segredo. Portanto, ele é definitivamente muito mais multifacetado e complexo, já que seria muito fácil extrair antipatia por ele pelo espectador.

Por fim, As Duas Irenes representa aquela qualidade de filme que tanto se espera da indústria cinematográfica brasileira. Extremamente sutil, envolvente e com um desfecho arrebatador, é um dos melhores filmes nacionais que eu vejo há muito tempo.

PREMIADOS DA NOITE: CURTAS GAÚCHOS

Troféu Assembleia Legislativa

Meódlhor filme: “Secundas”, de Cacá Nazario

Melhor direção: Emiliano Cunha por “Sob Águas Claras e Inocentes”

Melhor ator: João Pedro Prates em “1947”

Melhor atriz: Mariana Yomared em “Yomared”

Melhor roteiro: Gabriel Honzik por “Temporal”

Melhor fotografia: Carine Wallauer por “Temporal”

Melhor direção de arte: Eduardo Reis por “Solito”

Melhor música: Mariana Yomared e Banda da Convenção de Malabares de Florianópolis em “Yomared”

Melhor montagem: Lufe Bollini em “Yomared”

Melhor edição de som: Ivan Lemos e Thiago Gautério por “Temporal”

Melhor produtor (produtor-executivo): Ausang, Davi De Oliveira Pinheiro, Emiliano Cunha e Pedro Guindani por “Sob Águas Claras e Inocentes”

Menção honrosa: ao elenco do filme “Sob Águas Claras e Inocentes”, de Emiliano Cunha

 

Prêmio Aquisição TVE

Vencedor: “Gestos”, de Alberto Goldim e Júlia Cazarré

Menção honrosa: “Sena, o fio em prosa” de Marcelo da Rosa Costa e Cacá Sena

 

Prêmio do Júri da Crítica

 “Sob Águas Claras e Inocentes”, de Emiliano Cunha

Por admin, 21 de agosto de 2017
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verificação de Segurança *

Encontre-nos no instagram

@iconedocinema