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Em Séries

13 Reasons Why e o Bullying Adolescente

  • 4 de abril de 2017
  • Por admin
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13 Reasons Why e o Bullying Adolescente
Avaliação: 3.0. De 1 voto.
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Liberdade. Essa é ironicamente a tradução livre do nome da escola do Ensino Médio de uma pequena cidade dos Estados Unidos onde uma jovem, devido às pressões da adolescência, não consegue resistir e decide tirar sua própria vida.  Mas antes, Hannah Baker, interpretada por Katherine Langford, grava em fitas cassetes 13 motivos pelos quais levou a tal ato e não coincidentemente, trata-se de responsabilizar pessoas específicas por atos graves e crimes que agora todos querem esconder com receio de serem revelados.

Bullying é um tema muitíssimo delicado de se explorar, e em algumas das minhas críticas de filmes comentei a forma irresponsável como a produção cinematográfica vem o retratando. Obras como Pequeno Segredo e até o mais recente Eu Fico Loko usam do conceito “loser”, ou “diferente”, ou “socialmente retraído” para evocar empatia em seus protagonistas e promovê-los acreditando estar aprofundando a personalidade deles, mas sequer tenta lidar com o tema de forma séria. Em outras palavras, não é aceitável no cinema colocar figuras simplesmente em um status de rejeitado implicando que o personagem é explorado de forma completa somente por tal fato. Afinal, querendo ou não, temos que aceitar que esse é um problema que atinge milhões de adolescentes no mundo e os conduzem ao suicídio. E não se enganem, o assunto é tão alarmante e foi bem conduzido pelo impressionante “A Onda”, baseado em fatos reais, e ainda, temos o famoso Massacre de Columbine nos Estados Unidos, cujas gravações foram posteriormente transformadas em documentário. O que nos demonstra que é longe de ser um tema novo, mas que infelizmente insiste ser classificado como um “tabu” por muitos.

A adaptação do livro homônimo por Jay Asher e, disponível somente na Netflix, se revela interessante como 13 Reasons Why foge um pouco desta perspectiva clichê e aborda o tema com mais seriedade do que recentemente tenho visto em outras produções, mesmo contendo tropeços narrativos e inconsistências de roteiro imperdoáveis.

Dito isso, esse mundo adolescente contém certas nuanças muito eficazes quando se trata dessa fase marcada pela descoberta de identidade, de dores, de paixões, de momentos alegres, e tempos de auto-afirmação e auto-conhecimento como um processo doloroso. Neste contexto, temos o lado dos adultos, os pais, os quais demonstram preocupação com os filhos, ao mesmo tempo em que outras vezes negligenciam o tamanho das frustrações da idade que impactam os jovens e estes, em contrapartida, os rejeitam constantemente por vergonha ou medo levando-os a cometer atos irresponsáveis. Ademais, há uma questão muito importante que se discute aqui: “até onde vai a responsabilidade da escola?” qual é essa linha tênue que separa entre atitudes da escola, dos pais ou dos próprios alunos para prevenir e repudiar esse tipo de comportamento? Até onde se pode puni-los? Não somente esse aspecto é evidenciado pelo processo judicial em andamento instaurado pelos pais de Hannah, mas nos cartazes e políticas educativas do colégio que somente aparecem para conscientizar todos quando ocorre uma tragédia, ou o fato de professores de certo modo ignorarem os “gritos de socorro” por escrito de Hannah ou então, em outro exemplo, a discussão entre os profissionais acerca de uma briga entre alunos ocorrer dentro ou não da propriedade da escola já antevendo a situação como um fator que pode prejudicá-los perante o tribunal e a difícil escolha de uma repreensão razoável a eles.

13 Reasons Why (Créditos: IMDb)

É interessante também a presença de fitas cassetes e outros elementos que fogem da tecnologia, já que esta é a principal ferramenta que constantemente é utilizada para invadir a privacidade dos outros e vazar informações confidenciais e pessoais de maneira inconseqüente, algo que Hannah tem muita consciência ao apresentar este fato ao espectador já desde o começo.

No entanto, é difícil ignorar algumas escolhas não bem-sucedidas pelo roteiro. A começar pelo personagem de Clay Jensen, interpretado por Dylan Minnette, e o fato de a narrativa construir uma espécie de suspense acerca do que “Hannah falou sobre ele na fita” e que todos os demais envolvidos e mencionados parecem apontar o dedo para responsabilizar o protagonista de algo que nunca vem a acontecer ao soltar frases como “espere para ouvir a sua fita” ou em um determinado momento, por exemplo, ao indagar um personagem se ele mesmo era autor de uma lista e logo em seguida o colega responde: “e você fez ou o que fez?” criando uma falsa expectativa no espectador que posteriormente, portanto, não se consume. Hannah também possui alguns elementos contraditórios que não são enfrentados de maneira apropriada como o fato de ela mentir que um dos colegas tinha jogado fora sua carta, afinal, o que ela conta nas fitas não seria “a verdade dela”, ou seja, a interpretação subjetiva que ela possui do comportamento dos demais? Ressalto que essa abordagem não supriria de maneira alguma os atos reprováveis de seus colegas, mas serviria para uma reflexão importante ou em últimos casos, não deveria nem ser ter sido incluída na narrativa. Ademais, percebemos outro deslize cometido como o fato de a mãe de Clay dizer que não pode comentar o processo, mas ainda assim solta informações ao filho quando conveniente para a trama.

De fato é visível como o resultado transparece o trabalho árduo que tiveram os roteiristas ao condensar tanto material em tão pouco tempo de projeção, e ainda assim tornar uma matéria complexa, completa e envolvente, o que em muitos aspectos isso ainda acontece. A dramatização tem uma montagem habilidosa, ao alternar por meio da fusão de planos o passado e o presente, ao mesmo tempo em que confia na fotografia ao empregar a paleta de cores mais vivas para quando Hannah estava viva e, dessa forma, contrastar com a paleta azulada de quando já está morta.

Mesmo possuindo defeitos que não poderiam ter passado batido, 13 Reasons Why consegue ser eficaz pela sua importância e urgência de um tema que é constantemente desvirtuado pela produção audiovisual, e assim, traz mais responsabilidade. E merece nossos aplausos por isso.

Por admin, 4 de abril de 2017
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